6 de Fevereiro de 2014 / às 13:57 / 4 anos atrás

ESTREIA-Personagens buscam o sonho americano no oscarizável "Trapaça"

SÃO PAULO, 6 Fev (Reuters) - O sonho americano: essa entidade abstrata perseguida por tantos, conquistada por poucos e algoz de vários. Se no cinema houver alguma honestidade ao voltar ao tema, deve ser pela chave do cinismo. Nesse sentido, David O. Russell acerta em sua comédia de humor negro "Trapaça", indicada em dez categorias no Oscar, entre elas melhor filme e diretor.

O ponto de partida é um golpe, como indica o genérico título brasileiro. O que acontece é até meio confuso, mas não é a questão central do filme de Russell - diretor de longas como "O lado bom da vida" e "O vencedor".

O enredo foi livremente inspirado num caso verídico nos EUA dos anos de 1970, que ficou conhecido como Abscam (que vem de "Arab scam", ou "golpe árabe"), e que envolvia o FBI, golpistas. políticos corruptos e um falso sheik. Tudo isso está no filme.

No entanto, Russell e seu roteirista Eric Warren Singer ("Trama internacional") estão mais interessados na dinâmica da corrupção e exposição do crime, e como estas se encaixam no fracasso do sonho americano, ou, em última instância, nos EUA como nação.

O episódio é visto a partir de dois pontos de vista distintos - um masculino e outro feminino. No caso, ele é Irving Rosenfeld (Christian Bale), golpista carismático e bonachão, cheio de confiança e papo, capaz de subverter seu destino que poderia ser trágico.

Sua companheira na vida de crime é Sidney Prosser (Amy Adams, ganhadora do Globo de Ouro e favorita ao Oscar de atriz), que confessa haver algo na autoconfiança dele que a atraía. Os dois se unem para os negócios e o amor - embora ele seja casado com Rosalyn (Jennifer Lawrence, ganhadora do Globo de Ouro de coadjuvante).

A recriação de Russell dos anos de 1970 - e de sua equipe de direção de arte, figurino e afins - é precisa ao dar vida à geração que se coloca entre os traumas do Vietnã e Watergate e a ascensão yuppie dos anos de 1980. É a década em que o sexo e as drogas eram responsáveis tanto pela euforia quanto pela destruição - vide "Boogie Nights" e "Os Bons Companheiros", dois filmes dos quais, aliás, "Trapaça" parece emprestar muito.

A parceria de Irving e Sidney começa com pequenos golpes, até que o FBI chega a eles na figura do agente Richie DiMaso (Bradley Cooper), que os usa para um esquema ainda maior com o objetivo de prender políticos de Nova Jersey - especialmente o ambicioso prefeito, Carmine Polito (Jeremy Renner).

Com essa teia de personagens, Russell focaliza seus relacionamentos humanos, a dinâmica de interesses (dinheiro, sexo) que os une e os separa e, como poucos, investe em trazer uma dimensão humana tanto para os personagens masculinos, quanto (o que é raro em Hollywood) para os femininos.

O que move toda essa gente é apenas a ambição por riqueza e/ou poder. Todos são, a seu modo, vaidosos e ávidos por ascensão. Nesse sentido, é o jogo da enganação e das máscaras, pois ninguém é exatamente aquilo que parece ser, muito menos tem qualquer vestígio de inocência.

Em "Trapaça", é nos excessos - não apenas das drogas, do sexo, mas da música, da purpurina e do gliter - que vai surgir a geração seguinte, que coloca o "Eu" acima de tudo e também permite a ascensão do conservadorismo na figura de Ronald Reagan.

Os anos de 1970 não deixaram de ser uma época da busca pela inocência perdida - que jamais poderia ser recuperada. Russell retrata um grupo de personagens, cuja ambição se afoga na ideia ingênua de que o sonho americano possa realmente existir.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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