ESTREIA-"Ela" faz um retrato melancólico da tecnologia dominando laços afetivos

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014 12:11 BRST
 

SÃO PAULO, 13 Fev (Reuters) - Em sua obra cinematográfica, filme após filme, o norte-americano Spike Jonze tenta abordar a incomunicabilidade entre as pessoas. Desde sua estreia em "Quero ser John Malkovich" (1999), até seu recente "Onde Vivem os Monstros" (2009), os personagens procuram meios de fuga e não encarar o outro de frente. Ao mergulharem em seus mundos imaginários, encontram o consolo, a paz, o prazer que aqui, no mundo real, procuram e não acham.

Seu novo longa "Ela", que segue na mesma linha, está indicado em cinco categorias no Oscar - entre elas, melhor filme e roteiro, também assinado pelo diretor.

O protagonista é um herói melancólico, vivido com perspicácia e ternura por Joaquin Phoenix - inexplicavelmente não indicado ao Oscar. Ele se chama Theodore Twombly, e sua vida solitária se resume ao trabalho, numa empresa em que é contratado para escrever cartas e bilhetes, e a solidão em casa, onde eventuais amantes que conhece na Internet o ajudam a aliviar o isolamento.

Sua vida segue assim até que compra seu novo sistema operacional, escolhendo um perfil feminino para interagir com ele. Ela tem até nome, Samantha, e é dublada por Scarlett Johansson, cuja voz mostra-se capaz de variar do tom sedutor ao estridente, passando pela doçura, justificando até uma paixão - mesmo sem um corpo.

Enfim, Theodore cria um vínculo de amizade com Samantha, pois com ela não precisa fingir, não precisa ser outra pessoa, com ela é capaz de se comunicar plenamente. Quando se dá conta de que está apaixonado, inusitadamente descobre que o sentimento é recíproco.

Samantha é uma espécie de HAL (computador de "2001 - Uma Odisseia no Espaço"), sem o instinto de preservação, o que o tornava assassino. Ela é humana -muitas vezes, mais humana que as pessoas do filme, seja Theodore ou seu casal de amigos, Amy (Amy Adams) e Charles (Matt Letscher).

É a voz do computador que pode servir com catalisador para que os diversos personagens recobrem sua humanidade, que foi perdida em algum momento.

Em seus primeiros filmes, Jonze trabalhou junto com Charlie Kaufman (também roteirista e diretor de "Sinédoque Nova York"), e a parceria talvez fizesse sombra ao real talento do diretor - uma vez que as atenções se voltavam mais para a inventividade dos roteiros.

Aqui, Jonze cria uma fábula futurista sobre o nosso presente, no qual as máquinas se tornam mediadoras dos laços de afeto, que, aos poucos, se esmaecem em pequenos caracteres numa tela de computador ou celular.   Continuação...