20 de Fevereiro de 2014 / às 17:44 / 4 anos atrás

ESTREIA-"12 Anos de Escravidão" investiga o desejo de liberdade

Ator Chiwetel Ejiofor posa para foto junto com o troféu que recebeu na categoria Melhor Ator por sua atuação no filme "12 Anos de Escravidão", durante cerimônia de premiação da Academia Britânica de Cinema e Artes (Bafta), em Londres. O drama "12 Anos de Escravidão" é, ao mesmo tempo, tão familiar e tão único no seu retrato da escravidão nos Estados Unidos. 16/02/2014. REUTERS/Suzanne Plunkett

SÃO PAULO, 20 Fev (Reuters) - O drama “12 Anos de Escravidão” é, ao mesmo tempo, tão familiar e tão único no seu retrato da escravidão nos Estados Unidos. Familiar ao abordar um assunto tão caro ao cinema - mas único, em sua abordagem sem meios-termos ou concessões. Aqui, não encontramos o escravo de bom coração, como em “... E o Vento Levou”, ou o destemido como no recente “Django Livre”.

Esse é o perfil de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), negro que nasceu livre e acabou sequestrado e vendido como escravo em 1841.

Baseado nas memórias de Northup, originalmente publicadas em 1853, o longa é o mergulho numa descida ao inferno, que durou mais de uma década. Dirigido por Steve McQueen (“Shame”), este é um filme que evita emoções óbvias e o choro fácil, apesar do teor da história. Acompanha-se a trajetória do protagonista, cuja família o dá como morto depois de seu desaparecimento repentino.

É a jornada de um indivíduo que sintetiza em si a trajetória de todo um povo, a história de uma nação, seu passado e presente. Solomon vive em Nova York com a mulher e filhos. Depois de uma noite com dois brancos em Washington, ele apaga e, quando acorda, já não é mais dono de sua vida. Tomaram-lhe sua liberdade, uma vez que foi vendido.

McQueen, que começou sua carreira como videoartista antes de dirigir cinema, compõe uma narrativa em moldes clássicos, sem que seu trabalho chame a atenção para si -o que talvez nem mesmo seja o caso do personagem principal. Se há um protagonista aqui, e, ao mesmo tempo, uma força motriz, é o desejo de liberdade.

Isso acontece desde os primeiros momentos, quando Solomon não consegue acreditar no que lhe está acontecendo -é essa mesma estupefação que o acompanha em seu destino.

O filme retrata a escravidão como um sistema social e comercial de dominação e produção, no qual não pode existir o proprietário bondoso, nem o escravo feliz. Para que as engrenagens econômicas funcionem, é preciso existir dominadores e dominados - e, nesse sentido, o filme derruba mitos e visões romantizadas do assunto perpetuadas pelo cinema norte-americano.

Solomon passa por algumas fazendas e plantações, e o cenário é sempre o mesmo. Na Louisiana, é vendido por um negociante mesquinho (Paul Giamatti), e acaba indo parar nas mãos de um proprietário honesto -até onde isso pode ser considerado neste contexto-, interpretado por Benedict Cumberbatch, que o acabará negociando com Edwin Epps (Michael Fassbender), alcoólatra enlouquecido e obcecado por uma escrava, chamada Patsey (Lupita Nyong‘o).

A narrativa concentra-se na plantação de Epps, de onde Solomon não parece ter chance de conseguir sair vivo. É nesse lugar que vemos uma dinâmica que parece se perpetuar para sempre, não ter fim: a herança da escravidão e seus fardos. Não é apenas trabalhar, plantar e colher cana-de-açúcar, há a violência e a maldade - como quando Epps estupra Patsey.

O inglês Chiwetel Ejiofor, ator de nome difícil e presença marcante, já trabalhou com diretores como Spike Lee (“O Plano Perfeito”), Woody Allen (“Melinda e Melinda”) e Ridley Scott (“O Gângster”).

Sempre um coadjuvante de presença notável, aqui ele encontra um personagem sob medida. A jornada de Solomon é tocante sem que o diretor ou o ator precisem forçar a emoção. Fazem o retrato de um homem comum em uma situação extraordinária - e esta sintetiza todo um povo.

O filme concorre em nove categorias do Oscar - entre elas, melhor filme, diretor e ator. E a sua aclamação praticamente unânime pode ser um indício de que está na hora de essa página da História ser encarada de frente, sem melindres ou maquiagens.

Depois de “12 Aos de Escravidão”, qualquer diretor ou roteirista que se aventurar a lidar com o assunto precisará pensar duas vezes para não o banalizar.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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