ESTREIA-Indicada ao Oscar de animação, "Vidas ao Vento" combina fantasia e realidade

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014 14:57 BRT
 

SÃO PAULO, 27 Fev (Reuters) - "Vidas ao Vento", animação do veterano cineasta japonês Hayao Miyazaki ("A Viagem de Chihiro", "Ponyo: Uma amizade que veio do mar") é ao mesmo tempo uma elegia e uma despedida. Um filme sobre os sonhos de juventude perdidos, um adeus do diretor, de 73 anos, que anunciou em setembro passado - quando o longa foi exibido no Festival de Veneza - que está se aposentando. A obra concorre ao Oscar de Melhor Animação, estreando no Brasil apenas em cópias legendadas.

O roteiro, assinado por Miyazaki e baseado em mangá que ele publicou entre 2009 e 2010, constrói uma biografia ficcionalizada de Jiro Horikoshi (1903-1982), designer responsável pelos aviões Mitsubishi A6M Zero, usados por anos pela Força Aeronáutica do Japão, inclusive para operações kamikazes. E, apesar dos elementos de fantasia, há uma base bastante real para esse filme.

Se fosse literatura, "Vidas ao Vento" seria um "bildungsroman", um romance de formação que acompanha o seu protagonista desde a infância, até a sua perda da inocência. Acompanha-se Jiro desde pequeno e seu sonho de ser piloto de avião. Seu ídolo é o engenheiro italiano Giovanni Caproni, que aparece em seus sonhos e se torna uma espécie de mentor - eis o lado tipicamente Miyazakiano do filme, com seus elementos de fantasia. O mestre convence o rapaz que seu talento é para construir aeronaves.

É durante um dos piores terremotos da história do Japão, conhecido como o Grande Sismo de Kantô, de 1923, que Jiro conhece a jovem Naoko - ambos estavam viajando no mesmo trem. Ela se tornará o grande amor de sua vida, mas, para ele, ainda era cedo para pensar nisso - seus interesses se concentravam nos projetos de avião.

Metódico e empenhado, Jiro se vê não apenas como um projetista, mas também com um artista, tentando encontrar a perfeição pela forma das aeronaves. Existe aí um paralelo entre a carreira do biografado e a do próprio diretor - em suas obsessões pela perfeição, e, ao mesmo tempo, por serem incompreendidos.

A polêmica surge, então, no retrato que o cineasta faz desse personagem, que, em última instância, estava construindo algo que seria cooptado pelo governo e ia acabar se tornando arma de guerra, à revelia de seu criador.

Anos mais tarde, quando Jiro se reencontra com Naoko, já na vida adulta, o filme segue essa paixão delicada entre os dois - ameaçada pelo maior fantasma que os assombra: uma doença. Entrelaçando a vida profissional com a pessoal do protagonista, o cineasta constrói uma história de amor tocante. A forma como ela influencia na vida de Jiro irá refletir-se no trabalho dele, mostrando que existe um mundo além do seu escritório e da mesa de projetos.

Se "Vidas ao Vento" for mesmo o último filme do cineasta - e há uma grande torcida para que não o seja -, Miyazaki conclui sua filmografia com uma obra bonita e melancólica sobre a incompreensão e a desilusão - um filme que é corajoso ao desafiar a historiografia oficial do Japão, e, ao mesmo tempo delicado na sua percepção da humanidade do artista.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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