ESTREIA-Em "Ninfomaníaca: Volume 2", protagonista tenta aceitar sua sexualidade

quarta-feira, 12 de março de 2014 17:58 BRT
 

SÃO PAULO, 13 Mar (Reuters) - Na parte final de sua saga psicossexual, "Ninfomaníaca: Volume 2", o dinamarquês Lars von Trier não esconde que esse é um filme de tese. Esta se resume ao complexo campo minado e brumoso em que as pessoas explodem ou se perdem quando se trata da sexualidade feminina.

Partindo exatamente do ponto em que parou o primeiro longa (ainda em cartaz em algumas cidades do país), a segunda metade do projeto continua em sua investigação sobre a vida e as aventuras de Joe, uma mulher viciada em sexo, mas que não consegue sentir nada. A versão que chega aos cinemas brasileiros não é aquela montada pelo diretor. Esta deve ser lançada no Brasil ainda este ano.

Joe é mais uma da galeria de mulheres atormentadas (pela vida e pelo diretor) criadas por von Trier - e se une a Bess (Emily Watson, em "Ondas do Destino"), Selma (Bjork, em "Dançando no Escuro"), Grace (Nicole Kidman, em "Dogville", e depois Brice Dallas Howard, em "Manderlay"), uma outra que nem nome tem, vivida por Charlotte Gainsbourg, em "Anticristo", e Justine (Kirsten Dunst, em "Melancolia"). Aqui, Joe é interpretada pela estreante Stacy Martin, na juventude, e pela própria Charlotte Gainsbourg, no presente.

Em um filme que lida com questões feministas e, em última instância, quer dar poder à mulher, comecemos pelo paradoxo da personagem ter um nome próprio que soa mais como masculino do que feminino. Se é que este é realmente o nome da protagonista, sua feminilidade é negada de berço - ou a partir do momento em que ganhou esse apelido.

Após sofrer uma agressão, ela é encontrada repleta de hematomas por um homem caridoso chamado Seligman (Stellan Skarsgård), que não apenas lhe dá abrigo, cuida de suas feridas, mas também se torna ouvinte de sua trajetória de ninfomaníaca. Um ouvinte, aliás, ideal: culto, inteligente, está sempre disposto a fazer digressões e metáforas que vão ao encontro da trajetória de Joe.

Num relacionamento doentio (qual relacionamento dela não é?) com o amor de sua vida e seu primeiro homem, Jerôme (Shia LaBeouf), Joe (ainda interpretada por Stacy) vive mais as fantasias dele do que as dela, embora, com o tempo, novamente, ela tome as rédeas e vá em busca de seu prazer. Nem um filho muda a personagem, a quem o tal instinto materno parece não tocar. Ainda assim, a maternidade é uma experiência tão forte que esse é o ponto no qual a personagem passa a ser interpretada por Charlotte.

Entre as novas experiências de Joe está K, um dominador sadomasoquista, interpretado por Jamie Bell - que ficou famoso ao interpretar Billy Elliot, um menino que sonhava em ser bailarino no filme homônimo. Qual efeito quer o diretor/roteirista ao mostrar uma mulher sendo continuamente açoitada por um chicote que ela mesma escolheu e comprou, e que carrega uma etiqueta com um nome de guerra dado a ela? Este, aliás, é Fido, que remete à palavra latina fidus, fiel. Fiel a quem? Ou ao que? A ela mesma? Ao seu desejo?

É difícil decifrar as ações da personagem - como quando ela ateia fogo a um carro. Mas durante boa parte do filme - e especialmente nos diálogos com Seligman -, Joe verbaliza o que o próprio von Trier pensa do mundo. Como ele é um polemista nato, vai tocar em temas como antissemitismo (com uma piscadela para o pessoal do Festival de Cannes, que o baniu por seus comentários infelizes em 2011), politicamente correto (o uso da palavra "negro") e o conflito entre o desejo e a moral de um pedófilo (Jean-Marc Barr).

O elenco é numeroso e conta com intérpretes de primeiro time dos dois lados do Atlântico - mas, num filme de von Trier, há espaço para apenas uma estrela: ele mesmo. Aqui, o dinamarquês não deixa por menos e é capaz de se autorreferenciar e autorreverenciar ao mesmo tempo. Um desses momentos recria uma das cenas mais famosas de sua filmografia, retirada de "Anticristo", que deve fazer o público prender o fôlego, e depois provavelmente frustrar-se na ruptura.   Continuação...