ESTREIA-Darren Aronofsky aposta mais na ecologia do que na Bíblia para filmar "Noé"

quarta-feira, 2 de abril de 2014 19:38 BRT
 

SÃO PAULO, 2 Abr (Reuters) - Mais ecofantástica do que propriamente bíblica, a aventura "Noé", de Darren Aronofsky, não tem por que chocar qualquer religião - até porque não procura uma transcrição literal da Bíblia, como se espera de uma obra de ficção.

Ao abordar uma figura cara a cristãos, muçulmanos e judeus, no entanto, algumas polêmicas são inevitáveis. Vários países muçulmanos já baniram o filme, antes mesmo de vê-lo, por oposição à ideia de representação de alguém considerado como mensageiro ou profeta de Deus. Entidades cristãs nos EUA também protestaram por um suposto desrespeito, por conta de uma brevíssima e distante cena em que se vê Noé nu e outra, que o mostra bêbado.

Essas controvérsias, que acabam também servindo à promoção do filme, no entanto, devem ser deixadas de lado, para que "Noé" seja avaliado como o que é - uma superprodução de orçamento estimado em 125 milhões de dólares, justificado para um elenco estelar e uma profusão de efeitos especiais capazes de salientar-se nas versões 3D e IMAX.

Poucos atores além do neozelandês Russell Crowe caberiam melhor na pele deste protagonista, um homem simples, forte e determinado, que instintivamente protege a natureza. A julgar por sua família, aliás, a mensagem subliminar é que os vegetarianos herdarão a Terra. E herdarão mesmo, porque o dilúvio está próximo e não está previsto sobrar ninguém, exceto o pequeno clã de Noé.

Este pequeno círculo familiar, formado também por sua mulher Naameh (Jennifer Connelly) e três filhos, vive isolado, num tempo muito depois de Adão, Eva, Caim e Abel. Longe deles, o resto da humanidade dilapida os recursos do planeta e se entrega ao consumo da carne - inclusive, não raro, à antropofagia.

Noé é perturbado por sonhos, que ele identifica como seu canal direto de comunicação com Deus. Neles, ele vê o mundo ser engolido pela água e sabe que tem que fazer alguma coisa - mas não identifica bem o quê.

Isto leva a uma peregrinação em busca de Matusalém (Anthony Hopkins), seu avô, que tem centenas de anos. Estará vivo? Noé não sabe, mas sente que a importância de sua missão justifica atravessar as perigosas proximidades das cidades em nome de chegar lá.

Noé está certo, claro. E nesta primeira metade do filme, desenha-se com mais eficiência o aspecto de aventura fantástica, cósmica, que pisca um olho para o estilo de Terrence Malick ("A árvore da vida"), mas está mais próximo de James Cameron ("Titanic") - inclusive por conta do tema aquático-catastrófico.

Neste segmento, mantém-se o interesse no filme e a simpatia por esta família - que, no caminho, acaba salvando uma menininha ferida, Ila. Esta, como se verá, tem um papel fundamental nos eventos futuros, sendo não uma personagem bíblica, mas uma criação ficcional do roteiro, elaborado pelo diretor Aronofsky e seu parceiro, Ari Handel.   Continuação...