ESTREIA-História do mestre de Bruce Lee inspira "O Grande Mestre"

quarta-feira, 16 de abril de 2014 17:14 BRT
 

SÃO PAULO, 16 Abr (Reuters) - Quando confrontado por um adversário que despreza o seu estilo de luta, o Wing Chun, caracterizado pela simplicidade e eficiência dos golpes, Ip Man (Tony Leung) o rebate, dizendo que "três (truques) são suficientes para cuidar de você".

Tal confiança justifica-se, já que se trata do mestre de Bruce Lee, ator e lutador que ajudou a difundir o kung fu para o mundo a partir de "Operação Dragão" (1973). Ele é retratado em "O Grande Mestre" (2013), novo trabalho de Wong Kar-Wai, diretor conhecido por "Amores Expressos" (1994), "Felizes Juntos" (1997), "Amor à Flor da Pele" (2000) e "Um Beijo Roubado" (2007).

O cineasta passou oito anos de sua vida envolvido neste projeto, entre viagens de pesquisa sobre a vida de Ip Man, semanas de filmagem para uma única cena e muito tempo na sala de edição, já que o filme tem três cortes: o chinês de 130 minutos, o norte-americano de 108 minutos e o apresentado no Festival de Berlim do ano passado e que será distribuído aqui no Brasil, com 123 minutos - sem falar nos boatos de uma versão de quatro horas.

Enquanto isso, foram lançados dois longas sobre o lendário mestre, o homônimo de 2008 e "Ip Man: Nasce uma Lenda" (2010), e suas respectivas sequências, "O Grande Mestre 2" (2010) e "Ip Man 2 - A Batalha Final" (2013), criando expectativas sobre o que Wong traria de diferente nesta história; algumas foram atendidas, outras não.

Comparando a obra com as três formas do próprio Wing Chun que ela homenageia, pode-se dizer que ela vacila em uma, mas obtém êxito nas outras duas. A primeira delas, chamada de "ideia", consiste nos movimentos básicos do estilo, trazendo a essência técnica desse tipo de luta. Cinematograficamente, esta base seria o roteiro e é justamente onde "O Grande Mestre" derrapa.

Mais do que uma cinebiografia sobre Ip Man, trata-se de um tratado sobre o kung fu, sua propagação na China, indo do Norte ao Sul, suas diferentes escolas, a disputa entre os estilos.

É também um panorama da conturbada história chinesa no início e em meados do século 20, através dos olhos de um personagem que passou pelos três principais momentos de mudança no país: o fim da fase imperial da Dinastia Qing e o início do período republicano, quando sua fama nas artes marciais crescia; a invasão japonesa na Segunda Guerra Mundial, em que enfrentou perdas familiares e financeiras; e a revolução que institui a República Popular da China, em que foi obrigado a se exilar em Hong Kong.

As cartelas e a narração em off dos personagens, recurso tão comum nos filmes de Kar-Wai, neste caso servem mais ao didatismo que a trama exige, por sua complexidade histórica. Mesmo assim, o roteiro ainda permanece algo confuso para os espectadores em determinados momentos.

Outro problema é que o protagonismo de Ip Man, muito bem defendido por Tony Leung, figurinha marcada nos trabalhos do diretor, é prejudicado pelo script mal construído, que chega a omitir o herói por vários minutos - e vários anos dentro da cronologia do longa. Sobra espaço para Gong Er, interesse romântico do mestre, graças também ao carisma de Zhang Ziyi, atriz de "O Tigre e o Dragão" (2000).   Continuação...