ESTREIA-"Getúlio" focaliza últimos dias de Getúlio Vargas

quarta-feira, 30 de abril de 2014 16:43 BRT
 

SÃO PAULO, 30 Abr (Reuters) - Morto há 60 anos, Getúlio Vargas (1882-1954) talvez seja o cadáver de maior peso na história brasileira. Assim, não é pouca ambição a que denota o thriller político "Getúlio", em que o diretor carioca João Jardim arrisca-se em sua primeira ficção, depois de uma carreira pontuada por documentários premiados, como "Janela da Alma" (2001), "Pro dia nascer feliz" (2006) e "Lixo Extraordinário".

Os desafios são muitos num gênero que tem pouca expressão no cinema brasileiro - em geral, figuras políticas são abordadas preferencialmente em documentários. Fora isso, o suspense não se refere ao final, já conhecido de todos - o suicídio de Vargas.

Por isso, o objeto do roteiro, assinado por George Moura, é buscar penetrar o que passou pela cabeça do presidente naqueles últimos dias de sua vida e governo, após o atentado da rua Toneleros, em Copacabana, em que morreu um oficial da Aeronáutica e feriu-se o jornalista Carlos Lacerda, interpretado no filme por Alexandre Borges.

O enredo do filme assume sem rodeios que Lacerda, um feroz adversário de Vargas, teria praticado um "auto-atentado", disparando com seu revólver contra o próprio pé e procurando um atendimento que o engessou - um procedimento descabido no caso e que serviria a um acobertamento. Além do mais, Lacerda nunca entregou seu revólver para a perícia.

Mas o atentado, ainda mais com a morte do oficial, respingou com toda força sobre o Palácio do Catete, com Lacerda apontando o presidente como mandante.

A investigação, que chegou à guarda pessoal de Vargas, inclusive seu temido e fiel guarda-costas, Gregório Fortunato (Thiago Justino), não fez mais do que incendiar a crise política que uniu as Forças Armadas pedindo a renúncia de Vargas - uma operação que só foi desmobilizada com a morte do presidente.

Focando no círculo íntimo de Vargas, especialmente em sua relação afetuosa com a filha e chefe de gabinete, Alzira (Drica Moraes), traça-se um retrato da família Vargas fechada em si mesma, quase mafiosa - ainda mais tendo em vista a atuação de Bernardo (o ator português Fernando Luiz), irmão de Getúlio, no desastrado atentado, do qual o presidente, segundo o filme, não teria qualquer conhecimento.

Apresenta-se o presidente mais próximo da filha do que da mulher, Darci (Clarisse Abujamra), por sua vez ligada quase edipianamente a um dos filhos. Uma sugestão sutil, mas forte o bastante para evocar um clã com vocação a um retrato shakespeariano.

Não é esse, no entanto, o alcance desta que é uma coprodução com Portugal, extremamente bem-cuidada em sua reconstituição de época, focada na reencenação das noites de insônia do presidente, após intermináveis reuniões com seus ministros e chefes militares - que não fazem mais do que evidenciar o quanto ele está só naquele momento dramático para ele e para o país.   Continuação...