ESTREIA-Drama venezuelano "Pelo Malo" retrata menino às voltas com preconceitos

quarta-feira, 30 de abril de 2014 17:57 BRT
 

SÃO PAULO, 30 Abr (Reuters) - Premiado em diversos países, o drama venezuelano "Pelo Malo", da diretora Mariana Rondón, traça um retrato mais intimista de um país que, embora próximo geograficamente, o público brasileiro conhece pouco. O foco da história está numa pequena família da classe trabalhadora, especialmente na figura de um menino de 9 anos, Junior (Samuel Lange Zambrano). O filme estreia em São Paulo.

Mulato, Junior luta para alisar seu "cabelo ruim" (a tradução literal do título original), detalhe que serve como ponto de partida para discutir o mal-disfarçado racismo de sociedades mestiças, como a venezuelana e a brasileira, e que crianças como ele captam nas entrelinhas.

Não escapa a Junior o modelo de beleza dos cantores e apresentadores de TV e seus cabelos lisos, da mesma maneira que a estética longilínea das misses - cujos concursos são constantes na televisão - crie problemas de auto-aceitação também para sua melhor amiga (Maria Emília Sulbarán), que é gordinha.

O atual dilema na vida dos dois garotos é a foto de formatura da escola. E aí o problema não é só com sua auto-imagem, é a falta de dinheiro para pagá-la. A mãe de Junior, Marta (Samantha Castillo), que é viúva e tem outro filho menor, acaba de perder seu emprego de vigilante particular e lida com dificuldades para manter a casa.

A grande questão para Junior é a relação conturbada com a mãe, excessivamente seca e muito crítica, já que acha que o filho é efeminado, o que ela acredita que será um problema na vida dele. Machismo, afinal, é um contexto que ela mesma conhece de sobra.

Os dois vivem às turras e a avó paterna, Carmen (Nelly Ramos), que não nega uma ajuda financeira ao neto, é também um problema, na medida que tem seus próprios planos para o futuro do menino. Seu sonho é que ele se torne um cantor de sucesso e, para isso, ela não medirá esforços - sem levar em conta o que ele realmente possa desejar.

Uma cena curiosa mostra o garoto imitando Henry Stephen, um popular cantor venezuelano, e cantando uma versão em castelhano da canção brasileira "Meu limão, meu limoeiro", celebrizada no Brasil por Wilson Simonal.

O roteiro, também assinado pela diretora - que foi revelada no Brasil por seu filme anterior, "Postales de Leningrado" (2007), premiado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - flui bem melhor no retrato familiar e nas tensões entre as duas mulheres e o menino. A ambiguidade das duas mulheres, a seu modo protetoras e opressoras diante de Junior, é passada com riqueza de nuances pelas duas atrizes. Não vai tão bem, no entanto, ao compor o ambiente social ao seu redor, retratado de maneira um tanto esquemática.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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