23 de Outubro de 2007 / às 04:13 / em 10 anos

ANÁLISE-Caso Cisco traz oportunidades, mas setor está assustado

Por Renata de Freitas e Alberto Alerigi Jr.

SÃO PAULO (Reuters) - O momento em que se deu a operação da Polícia Federal contra o esquema de importação da multinacional Cisco abre uma janela de oportunidades para a concorrência. Mas a surpresa do episódio envolvendo a líder do mercado de equipamentos para redes de dados ameaça paralisar o setor.

Empresas de médio e grande portes, que antes tinham postura conservadora na renovação da tecnologia, já vinham apostando agora na adoção de redes baseadas no protocolo Internet (IP). Elas faziam --como se diz nesse mercado-- a “migração” de suas redes. E as operadoras de telecomunicações, com continuados investimentos na expansão das redes de Internet rápida.

Clientes, parceiros e concorrentes preferem esperar para ver o que acontecerá nos próximos dias ou semanas antes de agir.

“A janela de oportunidade comercial de agora num prazo de até seis meses é boa”, afirmou um consultor que presta serviços há anos para uma das principais concorrentes da Cisco. “Podemos atender, se corrermos daqui e dali, mas o mercado todo deve se ressentir. De uma forma geral, o que ocorreu é terrível para os executivos presos, é péssimo para a Cisco e é ruim para o mercado como um todo.”

No mercado brasileiro, a Cisco tem uma fatia de cerca 70 por cento, segundo vários especialistas ouvidos pela Reuters que preferiram manter o anonimato.

Muitas vezes, admitiram interlocutores até de concorrentes da fabricante norte-americana, os clientes exigem a marca Cisco alegando qualidade e confiabilidade. Com esse domínio do mercado --que se repete também no mundo, segundo relatório do grupo Dell‘Oro sobre o segmento de roteadores em 2006-- tende a ser difícil fazer a substituição da marca nos projetos em andamento.

Executivo de uma grande operadora de telecomunicações admitiu que alguns clientes corporativos serão afetados. “Existe o risco de o estoque ser bem pequeno e de o cliente não ser tão compreensivo com mudança de prazo e marca”, comentou esse profissional.

O momento é de fazer avaliações: qual a disponibilidade de equipamentos no mercado? Qual a extensão do problema em relação às distribuidoras Cisco? Que fabricantes são capazes de fornecer neste momento?

Os principais concorrentes da Cisco são a norte-americana Juniper, a francesa Alcatel-Lucent e a chinesa Huawei, que ocupam segundo, terceiro e quarto lugares no ranking do grupo Dell‘Oro de roteadores.

PREÇOS COMPETITIVOS

Um dos setores da indústria de telecomunicações que depende fortemente de equipamentos da Cisco é o de provedores de Internet, que, apesar de ainda não enfrentar dificuldades em obter produtos da empresa, vê a situação com preocupação.

“O momento agora é de sinal amarelo. O mercado todo está nesse momento cauteloso”, disse o presidente da associação que representa os 1.200 provedores de Internet do país, a Abranet. Segundo Eduardo Parajo, a Cisco está em cerca de 60 por cento dos provedores do país.

Os projetos de redes de dados são contratados com antecedência e podem variar de poucos milhares de reais a milhões deles. Nenhum dos fornecedores produz roteadores no Brasil, como atestaram os profissionais ouvidos pela Reuters.

A Cisco é investigada por ter se beneficiado de um esquema de importação de pelo menos 500 milhões de dólares em equipamentos, sobre os quais podem ter sido sonegados tributos no montante de 1,5 bilhão de reais, considerando-se multas e juros. Uma das práticas denunciadas é a de subfaturamento do valor do hardware, sobre o qual incidem mais impostos, e sobrevalorização do software, que é isento.

Em nota divulgada nesta sexta-feira, a Cisco informa não acreditar que tenha agido “de forma inapropriada”, considerando a análise dos fatos aos quais a empresa teve acesso até o momento. A companhia diz que “não importa produtos diretamente para o Brasil”. Uma distribuidora da Cisco no país, a Mude, está envolvida na denúncia.

É opinião corrente no mercado de telecomunicações que os diversos fabricantes têm atualmente preços competitivos. Alguns fatores pressionaram os fornecedores: a chegada dos produtos chineses a preços mais baixos, o aumento da parcela do software nos equipamentos, o poder de negociação das grandes operadoras de telecomunicações.

Equipamento que define o caminho dos dados transmitidos em uma rede, um roteador de porte médio, usado por clientes corporativos, custa entre 3.500 e 4.000 dólares. Em uma rede considerada média, com 70 pontos, o investimento apenas em roteadores pode, portanto, somar meio milhão de reais.

O órgão responsável pela infra-estrutura da Internet brasileira, o NIC.br, promoveu recentemente licitação para ampliar a capacidade da Web em São Paulo que foi vencida pela Juniper, em contrato de 400 mil dólares.

Para o órgão, os problemas da Cisco não afetam o núcleo da rede brasileira pois a maioria dos equipamentos não é mais fornecida pela empresa.

“Se os problemas da Cisco tivessem ocorrido há 10 anos, o impacto seria gigantesco”, disse o diretor-presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Comitê Gestor da Internet do Brasil, Demi Getschko.

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