11 de Junho de 2013 / às 13:33 / 4 anos atrás

Patriota ou traidor, Snowden agiu por medo da intrusão governamental

Fotos de Edward Snowden e do presidente norte-americano Barack Obama são vistos em jornais ingleses e chineses nesta foto de ilustração tirada em em Hong Kong. Edward Snowden largou a escola no ensino médio, tentou ser reservista do Exército, mas abandonou o treinamento após quatro meses, e aí virou agente de segurança. 11/06/2013 REUTERS/Bobby Yip

Por John Shiffman e Daniel Trotta

11 Jun (Reuters) - Edward Snowden largou a escola no ensino médio, tentou ser reservista do Exército, mas abandonou o treinamento após quatro meses, e aí virou agente de segurança.

Agora, aos 29 anos, tornou-se mundialmente conhecido como o responsável por expor os vastos programas de vigilância mantidos pela misteriosa Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA.

Snowden saiu das sombras e admitiu ter revelado essas atividades governamentais secretas aos jornais The Guardian e The Washington Post. Ele teve acesso às informações quando prestava serviços terceirizados à NSA no Havaí.

Os norte-americanos debatem agora se Snowden é um patriota que defende as liberdades civis, ou um traidor sem princípios.

Ao se apresentar ao mundo, o rapaz disse que se sentiu na obrigação de denunciar, mesmo a um custo pessoal, os descomunais poderes de vigilância acumulados pelo governo dos EUA. Ele acrescentou que poderia ter permanecido anônimo, mas que considerou que sua mensagem teria mais ressonância se viesse de uma fonte identificada.

“O público precisa decidir se esses programas e políticas são certos ou errados”, disse Snowden ao The Guardian em um vídeo de 12 minutos divulgado no domingo pelo site do jornal londrino.

No mês passado, preparando a revelação, Snowden deixou o Havaí e se escondeu em Hong Kong. Ele disse ter medo de ser capturado pela CIA, por algum outro governo estrangeiro ou pelo crime organizado asiático.

“Esse é um medo com o qual irei conviver pelo resto da minha vida, por mais longa que ela venha a ser”, afirmou o rapaz no vídeo.

Ewen MacAskill, jornalista do Guardian que trabalhou nesse caso, descreveu Snowden como “muito inteligente, calmo, (mas) sempre com medo de que alguém fosse bater à sua porta e ele fosse levado embora”.

Snowden já manifestou interesse em solicitar asilo à Islândia. Na segunda-feira, ele deixou o hotel de luxo onde estava hospedado em Hong Kong, e seu paradeiro continua desconhecido.

INFÂNCIA TRANQUILA

Nada na infância de Snowden prenunciava que ele se tornaria um dos mais célebres “dedo-duros” na história dos EUA, ao lado de Daniel Ellsberg (que revelou os chamados Documentos do Pentágono, durante a Guerra do Vietnã) e Bradley Manning (ex-recruta que está sendo julgado por abastecer o site WikiLeaks com documentos sigilosos das Forças Armadas).

Quando adolescente, ele vivia em Fort Meade, nos arredores de Washington, e frequentava o colégio Arundel High School. Mas, na metade do segundo ano do ensino médio, ele largou os estudos, segundo Bob Moiser, porta-voz da escola.

Os pais de Snowden se divorciaram quando ele tinha 18 anos, época em que a família morava em Crofton (Maryland), uma comunidade planejada onde residem muitos funcionários da NSA.

Snowden contou ao Guardian que entrou para as Forças Armadas com a ideia de auxiliar o esforço de guerra dos EUA no Iraque e “ajudar a libertar as pessoas da opressão”.

Mas, quatro meses depois, quebrou as duas pernas em um treinamento. Registros do Pentágono mostram que ele havia se alistado em 2004 na Reserva do Exército, como recruta das forças especiais, e que saiu quatro meses depois, sem concluir o treinamento.

Mais tarde, segundo relatou, ele arrumou seu primeiro emprego, na Universidade de Maryland, trabalhando em uma unidade secreta da NSA perto do campus. Passou então para a CIA, no setor de segurança da tecnologia da informação, ascendendo rapidamente por causa dos seus conhecimentos sobre Internet e programação de software, disse ele ao Guardian.

Em 2007, a CIA o deslocou sob fachada diplomática para Genebra, na Suíça, onde continuou trabalhando com segurança digital, sempre segundo seu relato no vídeo do Guardian.

Sua experiência nessa função e o trabalho ao lado de agentes da CIA gradualmente o levaram a questionar seu papel no governo. Com o tempo, afirmou, não conseguia mais viver “sem liberdade, mais confortavelmente” como um bem pago analista de infraestrutura da empresa Booz Allen Hamilton, contratada pela NSA para gerir seu sistema de vigilância.

Ele disse que estava disposto a “aceitar qualquer risco” ao revelar os segredos, e que por causa disso precisou deixar para trás também a namorada com a qual morava.

Os pais e irmãs de Snowden não responderam a telefonemas e emails. Também não houve manifestação por parte de Lindsey A. Mills, de 28 anos, que vivia no mesmo endereço de Snowden tanto em Maryland quanto no Havaí.

“Quem me conhece sem minha capa de super-heroína provavelmente vai entender por que evitarei fazer postagens no blog durante algum tempo”, disse Mills, dançarina, em uma postagem na segunda-feira. “No momento, só posso me sentir sozinha. E pela primeira vez na minha vida eu me sinto forte suficiente para estar por conta própria.”

Reportagem adicional de James Pomfret, Susan Heavey, Carolyn Wilder, David Alexander, Warren Strobel e Marilyn Thompson

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