31 de Julho de 2008 / às 14:49 / 9 anos atrás

Mesmo com 'céu azul', o ar de Pequim é seguro?

<p>Pessoas caminham em frente ao Est&aacute;dio Ol&iacute;mpico Nacional de Pequim. A China prometeu que os Jogos Ol&iacute;mpicos transcorrer&atilde;o sob um c&eacute;u azul, e n&atilde;o sob a n&eacute;voa emba&ccedil;ada que recobriu a cidade nos &uacute;ltimos tempos. Mas os n&iacute;veis de polui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seriam seguros para os atletas. Photo by Jason Lee</p>

Por Emma Graham-Harrison

PEQUIM (Reuters) - Pequim prometeu que os Jogos Olímpicos transcorrerão sob um céu azul, e não sob a névoa embaçada que recobriu a cidade nos últimos tempos -- no entanto, mesmo em dias aparentemente claros, os níveis de poluição não seriam seguros para os atletas.

Autoridades chinesas gastaram 120 bilhões de yuans (17,6 bilhões de dólares) para limpar a capital, fechando fábricas localizadas a dezenas de quilômetros dali, paralisando obras da construção civil e retirando das ruas da cidade mais da metade de seus 3,3 milhões de carros.

Ainda assim, quando os moradores de Pequim dizem que o ar está limpo, os atletas e seus técnicos podem ter motivos para preocupação.

A maior parte dos padrões de poluição atmosférica da China encontra-se fora das diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, especialistas afirmam que o índice de poluição usado pelo país para dizer a seus cidadãos se é ou não seguro respirar aquele ar -- um "dia de céu azul" -- apresenta inúmeras falhas.

Ele utiliza apenas médias de medição para toda a capital, de forma que alguns pontos poderiam ser perigosos mesmo quando as leituras dizem que não há problema em sair à rua. E alguns poluentes preocupantes não estão incluídos no índice, afirmam os especialistas.

A névoa cinzenta que pairava sobre Pequim na segunda-feira chama atenção para os problemas ainda enfrentados pela cidade. Segundo os monitores de poluição atmosférica da capital, a qualidade do ar naquele dia foi de Grau 2, o que faria dele, oficialmente, um dia de "céu azul" -- apesar de, a olho nu, pouca coisa parecer diferente dos quatro dias anteriores, quando a qualidade do ar não atingiu os padrões nacionais.

Muitos atletas preferiram adiar ao máximo seu desembarque em Pequim para evitar o ar ruim, e o Comitê Olímpico Internacional (COI) disse que pode remarcar algumas provas de resistência, tais como a maratona, a fim de evitar danos à saúde dos atletas no caso de haver muita poluição.

O atual recordista mundial da maratona, Haile Gebrselassie, já anunciou que não disputará a prova a fim não colocar sua saúde em risco.

E o Comitê Olímpico Australiano (AOC) também afirmou que seus atletas teriam permissão de retirar-se de provas caso a poluição seja uma ameaça.

"Para nós, o principal é a atitude dos esportistas em relação ao evento", afirmou a repórteres o vice-presidente do AOC, Peter Montgomery.

Ao contrário do que ocorre agora, Atenas, sede dos Jogos de 2004, havia resolvido muito tempo antes seu problema com a grande massa de ar poluído que recobriu a maior parte da região nos anos 70 e 80.

O QUE É SEGURO?

Os limites nacionais da China para os principais poluentes, que provocam, entre outros males, doenças respiratórias e danos ao pulmão, são mais lenientes do que os da maioria dos padrões da OMS e da União Européia (UE).

Segundo alguns ambientalistas, isso por si só pode significar que uma boa situação aos olhos da China pode não ser o suficiente para os atletas -- porque, mesmo que a qualidade do ar atenda aos padrões nacionais, ainda assim ficará abaixo dos limites da OMS.

"Se o índice ficar acima dessa linha, não é necessariamente saudável", afirmou Paolo Revellino, autor de um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep) sobre a Olimpíada, divulgado no ano passado.

Outros, no entanto, argumentam que as diretrizes de Pequim não são o problema principal, já que são mais rigorosas do que muitos dos padrões adotados pelos EUA, por exemplo, e observam que os chineses tentaram impor metas realistas.

"A intenção é fazer com que isso seja um reflexo da capacidade atual do sistema de gerenciamento do ar. Há alguns países que adotam os padrões da OMS, mas que não realizam nenhum monitoramento", disse Frank Murray, especialista em qualidade do ar junto à Faculdade de Ciência Ambiental da Universidade Murdoch.

Um problema maior é o Índice de Poluição Atmosférica usado para decidir se Pequim vive ou não um "dia de céu azul" e para dar aos moradores da cidade um panorama resumido da qualidade do ar. Esse índice contém várias falhas, o que serve apenas para ampliar o efeito de padrões relativamente baixos.

"Eu prefiro não me manifestar a respeito disso porque ele não é reconhecido internacionalmente", afirmou Revellino.

O índice utiliza valores médios para toda a cidade e valores estimados para um período de 24 horas, o que significa ignorar bolsões e picos temporários de poluição.

Não se tenta tampouco calcular o efeito cumulativo de diferentes poluentes -- então, se cada um deles estiver dentro das diretrizes nacionais, considera-se que não há problema.

"O céu pode parecer azul, mas o ar pode ainda assim estar poluído. O ozônio provoca problemas respiratórios e afeta as funções pulmonares, de forma que pode prejudicar crianças, idosos e a maior parte dos atletas," acrescentou Revellino.

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