June 11, 2014 / 7:50 PM / 3 years ago

PERFIL-Blatter mostra que ataque é melhor defesa e rebate críticos da Fifa

8 Min, DE LEITURA

Presidente da Fifa, Joseph Blatter, aparece em telão durante discurso no Congresso da Fifa em São Paulo, nesta quarta-feira, 11 de junho.Paulo Whitaker

SÃO PAULO (Reuters) - Quando o presidente da Fifa, Joseph Blatter, entrou no saguão de mármore do hotel Grand Hyatt, em São Paulo, no começo da semana, ele não parecia um homem que lutava para salvar a reputação da entidade organizadora do futebol mundial que ele comanda há 16 anos.

O suíço de 78 anos sorria ao cumprimentar autoridades de todos os lugares do mundo que esperaram para apertar sua mão, e até mesmo falou palavras acolhedoras para um pequeno grupo de repórteres que queria conversar com ele.

"Eu gosto muito de vocês", disse aos jornalistas, antes de pedir desculpas por ter que voltar ao trabalho.

O humor de Blatter parecia bem mais negro apenas algumas horas antes, quando, falando às confederações de futebol da África e da Ásia na capital paulista na segunda-feira, bradava contra aqueles que, segundo ele, querem destruir a Fifa.

Ele também sugeriu que as críticas sobre o fato de a Fifa ter concedido o torneio mais lucrativo e assistido do mundo ao Catar em 2022 vinham, pelo menos em parte, de racismo.

"Mais uma vez há um tipo de tormenta contra a Fifa relacionada à Copa do Mundo no Catar", disse ele a delegados africanos, após o jornal Sunday Times ter relatado --não pela primeira vez-- que um ex-representante de futebol do Catar havia tentado comprar o torneio para o pequeno Estado do Golfo.

"Tristemente, há uma grande dose de discriminação e racismo e isso me magoa."

Os duros comentários, feitos apenas três dias antes do começo da Copa do Mundo, refletiram a gravidade das acusações contra a Fifa, algo que alguns comentaristas sugeriram que poderia ameaçar o futuro da tentativa do Catar de sediar o torneio.

"Eles Querem Nos Destruir"

Na reunião com os asiáticos, Blatter foi igualmente contundente.

"Eles querem nos destruir; eles não querem destruir o futebol, mas querem destruir a instituição (Fifa)", disse ele, sem especificar quem são "eles".

Antes do Congresso anual da Fifa em São Paulo, realizado neste quarta-feira, Blatter buscou mostrar iniciativa após uma avalanche de alegações sobre corrupção terem ameaçado ofuscar o maior evento esportivo do mundo.

Ao fazer isso, ele também consolidou sua posição antes de sua esperada tentativa de reeleição para um quinto mandato no topo de uma organização que administra o futebol internacional e controla bilhões de dólares em publicidade e direitos de transmissão.

Na segunda-feira, representantes das confederações asiática e africana, que mostraram amplo apoio à candidatura do Catar, ficaram de pé para aplaudir Blatter após seu discurso, e, entre eles mesmos, poderiam virtualmente garantir a vitória do presidente da Fifa caso votem em unanimidade.

Na terça-feira, representantes das Américas Central e do Norte, do Caribe e da Oceania também apoiaram publicamente a candidatura dele, o que daria uma folga numérica a Blatter.

Ecoando o pensamento entre seus apoiadores, o presidente da Confederação Africana de Futebol (CAF), Issa Hayatou, disse à Reuters: "Por que iríamos querer mudar o presidente da Fifa agora? A Fifa é forte. Ele é o homem certo para nos levar para frente".

Mas, por outro lado, a poderosa entidade europeia de futebol, a Uefa, lançou uma ofensiva contra Blatter.

"A Fifa tem um presidente-executivo e você não está tornando as coisas mais fáceis para você mesmo, e eu não acho mais que você seja o homem certo para este trabalho", disse Michael van Praag, chefe da Associação Holandesa de Futebol.

O presidente da Uefa, Michel Platini, disse estar considerando concorrer contra Blatter nas eleições do ano que vem, algo que resultaria em uma disputa digna de final de Copa do Mundo. Mas, como as coisas estão agora, Blatter está em vantagem.

Questionado pela Reuters, em São Paulo, sobre como se sentia sobre o apoio que possuía apesar dos problemas relacionados ao Catar, Blatter respondeu: "Estou fazendo meu trabalho assim como você está fazendo o seu". Ele não fez mais comentários para este artigo.

Catar Pode Estar Garantido

Alguns representantes da Fifa, que não quiseram divulgar seus nomes, disseram acreditar que os eventos em São Paulo indicaram uma grande probabilidade de o Catar não perder a Copa do Mundo como sede em 2022.

Fazer isso seria um grande golpe contra a reputação da organização, sem mencionar a reputação de seu presidente.

"Blatter sabe que há uma reunião no ano que vem e existe pouca dúvida de ele terá outro mandato", disse um representante sênior da Fifa no Brasil.

"Se ele controlar os votos das confederações (africana e asiática), e ficar do lado do Catar, há pouca chance de ele perder essa eleição", disse a fonte à Reuters.

Um membro do comitê executivo da Fifa acrescentou: "Se ele quiser ser presidente e manter a fé pelos delegados que estão claramente a seu lado, a Copa do Mundo será no Catar. Não será transferida".

Mas a decisão final sobre o Catar não está apenas nas mãos de Blatter, o que põe em risco a candidatura do país.

Depende também de Michael Garcia, chefe da unidade de investigação do Comitê de Ética da Fifa, que concluiu seu relatório sobre as alegações de corrupção de representantes da Fifa, que demorou dois anos para ser realizado.

A finalização do relatório coincidiu com uma reportagem do Sunday Times baseada em "milhões de documentos", alguns dos quais o jornal disse estarem ligados a pagamentos feitos pelo ex-membro do executivo da Fifa Mohamed Bin Hammam a outros funcionários, como parte de uma campanha para conquistar o apoio para a candidatura do Catar.

Bin Hamman não comentou sobre seu envolvimento desde que foi banido do futebol em 2012, e os catarianos que agora trabalham no projeto dizem que ele não fez parte da candidatura oficial.

Garcia vai apresentar o relatório ao juiz alemão Hans-Joachim Eckert, do Comitê de Ética, dentro de cerca de seis semanas.

Se tiver sido encontrada corrupção, o Catar pode perder o direito de sediar a Copa, ou, pelo menos, enfrentar um desafio à sua posição mediante uma nova votação ou outros processos.

Enquanto isso, diversos grandes patrocinadores que gastaram milhões de dólares para associar seus nomes à Copa do Mundo pediram por uma diligente investigação, aumentando a pressão sobre a Fifa e Blatter.

decisão Do Catar Causou Perplexidade

Várias fontes com conhecimento dos planos de Blatter dizem que ele não queria, inicialmente, realizar a Copa no Catar, e preferiria que ela voltasse aos Estados Unidos, como em 1994.

Algumas pessoas dizem ter ficado perplexas quando Blatter tirou o nome do Catar de um envelope em 2010.

Elas ficaram imaginando por que o torneio iria para um país com uma população de dois milhões de pessoas, com pouca tradição em futebol, onde as temperaturas de verão ficam na média de 40 graus Celsius.

A própria equipe de inspeção da Fifa, que havia examinado todas as candidaturas em aspectos técnicos após visitas in loco durante 2010, aconselharam os responsáveis pela decisão a não escolherem o Catar, citando, principalmente, o calor do verão.

Blatter disse no mês passado que havia sido "um erro" conceder a sede da Copa a um país onde o verão é tão quente, mas depois disse que seus comentários em francês haviam sido mau traduzidos.

Ele reconheceu que o torneio teria que provavelmente ser realizado no inverno, o que representaria uma grande interrupção em campeonatos de futebol em todo o mundo.

A única pessoa a formalmente declarar sua candidatura na corrida pela presidência da Fifa é Jérôme Champagne, ex-vice-secretário-geral da entidade.

Ele disse que, apesar da aura de poder e impenetrabilidade acerca de Blatter aos olhos de muitas autoridades de futebol, ele não pode controlar tudo, como mostraram os eventos de 2010.

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