17 de Junho de 2014 / às 20:59 / em 3 anos

ANÁLISE-Dilma ganha impulso com bom começo da Copa do Mundo

A presidente Dilma Rousseff recebe a chanceler alemã, Angela Merkel, em Brasília, no domingo. 15/06/2014 REUTERS/Ueslei Marcelino

SÃO PAULO (Reuters) - A organização da Copa do Mundo no Brasil está longe de ser perfeita, mas vem ocorrendo de forma muito mais tranquila do que muitos esperavam, aumentando as chances para a reeleição da presidente Dilma Rousseff em outubro.

Os preparativos para o torneio foram abalados por atrasos e gastos excessivos em estádios, e por inúmeros projetos de infra-estrutura inacabados.

A indignação pública sobre essas questões somada a uma economia fraca alimentaram protestos nas ruas e azedaram o humor geral dos brasileiros nos últimos meses.

Esses problemas não desapareceram de forma mágica quando o Brasil abriu a Copa com uma vitória sobre a Croácia na última quinta-feira. No entanto, os receios de grandes colapsos logísticos em estádios e aeroportos superlotados até agora têm sido infundados.

Protestos contra o governo eclodiram em várias cidades e alguns se tornaram violentos, mas a maioria reuniu apenas algumas centenas de pessoas e as manifestações parecem estar encolhendo a cada dia.

Dilma amarrou seu destino à Copa do Mundo, defendendo a realização do evento no país como uma oportunidade de mostrar o recente progresso econômico do Brasil para o mundo.

Um desastre poderia prejudicar significativamente suas chances de reeleição em outubro, especialmente num momento em que seu principal adversário está chegando mais perto da presidente nas pesquisas de intenção de voto.

Há ainda muitas chances para falhas antes da final da Copa no Rio de Janeiro em 13 de julho, mas todos os 12 estádios já foram testados e aparentemente superaram as baixas expectativas de brasileiros e dos cerca de 600 mil torcedores estrangeiros que estão no país.

“Eu estava com medo de sermos humilhados por nós mesmos ... mas foi bem”, disse João Veiga Moraes, vendedor de seguros em São Paulo, que vestia a camisa da seleção brasileira ao se dirigir ao trabalho na manhã desta terça-feira. “Todo mundo parece estar feliz.”

Mesmo o que parecia à primeira vista como um revés humilhante para Dilma, quando ela foi repetidamente vaiada e xingada no jogo de abertura em São Paulo, parece estar trabalhando a seu favor.

O espetáculo de milhares de brasileiros entoando “Ei, Dilma vai tomar no c... ” gerou uma reação generalizadada e, provavelmente, irá se tornar um tema recorrente na campanha de Dilma.

Em um país com uma das maiores distâncias do mundo entre ricos e pobres, líderes do PT têm retratado a multidão como membros de uma elite da cidade grande irritados com os programas de assistência social e outros avanços econômicos recentes feitas pelas classes mais baixas.

Em um evento de campanha na sexta-feira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva presenteou-a com uma rosa branca e lamentou o “ato cretino”.

“Esta campanha está correndo o risco de ser uma campanha violenta, em que a elite brasileira está conseguindo fazer o que nós nunca conseguimos, que é despertar o ódio entre as classes”, disse Lula.

POSSÍVEL IMPACTO NAS URNAS

Dilma foi um pouco mais conciliadora, mas disse que não iria se intimidar e que as agressões verbais não eram nada em comparação com a tortura que ela sofreu durante o regime militar no início da década de 1970.

Alguns líderes de partidos da oposição dizem reservadamente que o alívio em relação à abertura da Copa e a simpatia gerada pelos xingamentos poderiam dar um impulso à Dilma nas próximas pesquisas eleitorais.

O candidato do PSDB, Aécio Neves, inicialmente justificou a reação da multidão, ao dizer que era “um sinal do que está acontecendo no Brasil”. Mais tarde, ele fez uma declaração no Facebook dizendo que as manifestação “não deveriam ultrapassar os limites do respeito pessoal”.

“O episódio estádio foi um presente” para Dilma, disse um funcionário PSDB, acrescentando que o ocorrido estava desviando a atenção da economia em desaceleração e inflação anualizada acima de 6 por cento.

Mas a realização do torneio apresenta algumas falhas. Os problemas vão desde as longas filas nos aeroportos e nas entradas dos estádios, roubos de fãs estrangeiros e até mesmo uma infestação de cupins no hotel da equipe uruguaia.

Mas, no conjunto, os problemas não parecem ser muito piores do que em outros grandes eventos esportivos recentes ao redor do mundo, disseram visitantes e jornalistas.

Até agora, tem sido um torneio particularmente emocionante com vários jogos memoráveis ​​e muitos gols fazendo os fãs felizes.

Ainda assim, o Brasil ainda pode enfrentar repercussões negativas de seus preparativos precários para a Copa.

Muitos eleitores ainda estão irritados com os bilhões de reais gastos para sediar o torneio em um país onde os hospitais e as escolas são muitas vezes de má qualidade.

A atenção deve mudar após a Copa para os novos estádios milionários em lugares como Manaus e Cuiabá, onde o futebol atrai poucos milhares de torcedores.

Além disso, ao decretar feriados nas cidades em dias de jogo a fim de garantir um trânsito menos intenso e uma logística mais tranquila, o governo pode estar sufocando ainda mais uma economia que deverá crescer apenas 1 por cento neste ano.

O humor do público também pode piorar se a seleção brasileira não for capaz de atender às expectativas de conquistar o hexacampeonato, um recorde e a primeira vitória da Copa do Mundo em casa.

Isso pode explicar por que as autoridades brasileiras, que ganharam uma reputação de autocongratulação durante a ascensão do país ao longo da última década, estão tão caladas publicamente até agora.

Questionado no domingo se a Copa tem sido uma vitória para o governo, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, disse: “Acho que atendemos às expectativas.”

“Tivemos alguns problemas pequenos, mas nada que possa constituir um grande problema”, disse ele à Reuters. “Os torcedores estrangeiros têm sido bem-recebidos. Os aeroportos estão funcionando.”

“Temos muitos jogos ainda para jogar.”

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