18 de Dezembro de 2015 / às 18:28 / em 2 anos

Equipe de combate a crimes ambientais tenta limpar Baía de Guanabara para Olimpíada

Navios na Baía de Guanabara perto da ponte Rio-Niteroi. 11/12/2015. REUTERS/Ricardo Moraes

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Em uma madrugada de agosto, dois homens disfarçados de pescadores se esconderam do lado de fora de uma empresa de reparos de embarcações do setor de petróleo na Baía de Guanabara, e tiraram fotos e pegaram uma amostra da água quando um cano começou a lançar um líquido pungente dentro da baía.

Alguns dias depois, armados com evidências de que o líquido estava contaminado com metais pesados, eles impuseram uma proibição à empresa de limpar tanques de combustível e instruíram a Prefeitura do Rio a multar a companhia.

Os homens fazem parte da Coordenadoria Integrada de Combate aos Crimes Ambientais (Cicca), uma pequena equipe na linha de frente do enfrentamento à poluição no Rio de Janeiro.

O grupo atua em uma área ampla, do resgate a baleias encalhadas à derrubada de casas de luxo construídas de forma ilegal em áreas protegidas. Ultimamente, estão concentrados na contaminação da Baía de Guanabara, palco das provas de vela dos Jogos Olímpicos do Rio.

A poluição da baía é uma das maiores preocupações da cidade na preparação para a Olimpíada, em agosto do ano que vem. As autoridades reconhecem que a promessa de tratar 80 por cento do esgoto lançado no local não será cumprida antes dos Jogos, e especialistas na área de saúde dizem que há riscos para a população de doenças como gastroenterite e até hepatite A.

Velejadores de Alemanha e Grã-Bretanha disseram ter ficado doentes após competirem nas águas poluídas do local. Alguns competidores afirmam ter atingido lixo flutuando, como sofá e animais mortos, durante treinos e provas.

Um sistema insuficiente de tratamento de esgoto que corre diretamente para a Baía de Guanabara é uma parte do problema. Outra é o despejo ilegal de rejeitos por companhias localizadas na costa da baía, e são essas firmas que estão na mira da Cicca.

A operação de agosto contra a Hemir Labouriau, que oferece serviços para embarcações da indústria de petróleo, foi uma de 10 ações do tipo realizadas pela Cicca ao longo dos últimos dois anos. Mas o chefe da equipe, José Maurício Padrone, admite que não tem o número necessário de funcionários para monitorar todas, e depende de denúncias.

“As pessoas que fazem isso não têm medo. Elas estão fazendo muito dinheiro e não são pegas em quantidade suficiente”, disse Padrone, um policial na casa dos 50 anos, em seu escritório em um canto da Secretaria Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro. “Houve um grande período de impunidade e também há uma enorme falta de educação”.

A dimensão da Baía de Guanabara também aumenta o desafio. A baía tem mais de 400 quilômetros quadrados e mais de 30 rios a alimentam. Há uma refinaria, terminais e fábricas em sua costa, que atravessa no total 15 diferentes cidades. A cada dia cerca de 640 milhões de litros de esgoto não tratado segue para a baía, o suficiente para encher 185 piscinas olímpicas.

O trabalho da Cicca e de outras agências do governo tem ajudado a reduzir a poluição nos últimos anos, de acordo com o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rogério Vale, que trabalha com o governo estadual em um programa de limpeza.

Mas, por enquanto, apenas de forma superficial, diz ele. “É preciso um plano de longo prazo, provavelmente de ao menos 20 anos”.

Uma visita à Hemir Labouriau uma semana após a ação da Cicca mostrou que a companhia continuava operando. O dono da empresa não estava disponível para conversar com a Reuters. Um funcionário disse que a empresa parou de limpar tanques de óleo e estava fazendo outros serviços. A água na baía atrás da empresa continuava fétida.

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