11 de Maio de 2016 / às 14:27 / um ano atrás

Badminton leva jovem carioca da violência no morro à Olimpíada em casa

Irmãs Lohaynny e Luana Vicente posam para foto em telhado de casa na favela da Chacrinha, no Rio de Janeiro. 04/05/2016Nacho Doce

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Filhas do chefe do tráfico de drogas de uma violenta favela carioca, as irmãs Lohaynny e Luana Vicente tiveram os primeiros anos de suas vidas marcados por noites em claro provocadas por tiroteios e várias mudanças de endereço para se esconderem com o pai e a família da polícia e de criminosos rivais.

Quando, aos 4 e 6 anos, perderam o pai morto por policiais em um confronto no Chapadão (zona norte), as meninas enfrentaram uma nova mudança, desta vez não apenas de casa, mas de vida, e conheceram o até então estranho badminton, modalidade esportiva que agora leva a caçula Lohaynny a disputar os Jogos Olímpicos Rio 2016.

"É a primeira vez que o Brasil no badminton vai participar das Olimpíadas, e eu fui a primeira mulher escolhida para participar das Olimpíadas", comemora a jovem de 20 anos em entrevista à Reuters na sua cidade natal, que será palco da primeira Olimpíada realizada na América do Sul de 5 a 21 de agosto.

Em busca de levar as filhas para uma realidade diferente após a perda do pai, a mãe das meninas, Cátia de Oliveira, levou a família para uma outra comunidade do Rio, a favela da Chacrinha (zona oeste), onde foram apresentadas ao esporte com raquetes e peteca por um amigo e ganharam uma nova perspectiva de futuro.

Mesmo sem ter os tênis adequados e nem mesmo as raquetes para jogar, Lohaynny e Luana rapidamente se destacaram dentro de um projeto social criado pelo técnico de badminton Sebastião Dias de Oliveira com o objetivo de apresentar a modalidade a crianças de áreas pobres do Rio, habituadas a conviver com a violência.

Pouco tempo depois as irmãs chegaram à seleção brasileira da modalidade, ainda com 14 e 12 anos, e passaram a disputar competições no exterior. A infância difícil ficou distante, e a realidade agora é outra.

Luana e Lohaynny moram em uma casa custeada pela Confederação Brasileira de Badmiton para a seleção, em Campinas (SP). Ambas têm patrocínio e recebem salário para jogar. Treinam de manhã e à tarde, e estudam à noite. Só voltam ao Rio para visitar a mãe, que agora mora em uma casa reformada de classe média, mas ainda perto do local onde viviam quando entraram no badminton.

"Todo mundo pode chegar onde quiser, basta você querer, e eu quis estar aqui. Eu trabalhei muito para estar aqui", afirma Luana, de 22 anos, responsável por apresentar o badminton à irmã mais nova.

Jogando juntas, as duas irmãs conquistaram a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Toronto 2015, e chegaram a sonhar com a classificação como dupla para os Jogos do Rio. No fim, apenas Lohaynny conseguiu a classificação individual para a Olimpíada por ocupar a 35ª posição no ranking olímpico, entre as 38 atletas que vão disputar a competição.

"Às vezes eu nem acredito que estou classificada, só vai cair a ficha quando eu estiver lá com todos os atletas, e quando eu estiver jogando", diz a atleta na entrevista, realizada sob os anéis olímpicos instalados no Parque Madureira, próximo ao morro onde começou no esporte.

Mas por que praticar uma modalidade tão pouco conhecida no Brasil? Falta de opção quando eram crianças, dizem as jovens.

"Na favela tinha só futebol, então, como a gente não gostava de futebol, nós passamos a ir para o badminton e passamos a gostar muito, e foi aí que começamos jogar torneios e viajar para o mundo", afirma Lohaynny.

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