Badminton leva jovem carioca da violência no morro à Olimpíada em casa

quarta-feira, 11 de maio de 2016 11:24 BRT
 

Por Pedro Fonseca e Nacho Doce

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Filhas do chefe do tráfico de drogas de uma violenta favela carioca, as irmãs Lohaynny e Luana Vicente tiveram os primeiros anos de suas vidas marcados por noites em claro provocadas por tiroteios e várias mudanças de endereço para se esconderem com o pai e a família da polícia e de criminosos rivais.

Quando, aos 4 e 6 anos, perderam o pai morto por policiais em um confronto no Chapadão (zona norte), as meninas enfrentaram uma nova mudança, desta vez não apenas de casa, mas de vida, e conheceram o até então estranho badminton, modalidade esportiva que agora leva a caçula Lohaynny a disputar os Jogos Olímpicos Rio 2016.

"É a primeira vez que o Brasil no badminton vai participar das Olimpíadas, e eu fui a primeira mulher escolhida para participar das Olimpíadas", comemora a jovem de 20 anos em entrevista à Reuters na sua cidade natal, que será palco da primeira Olimpíada realizada na América do Sul de 5 a 21 de agosto.

Em busca de levar as filhas para uma realidade diferente após a perda do pai, a mãe das meninas, Cátia de Oliveira, levou a família para uma outra comunidade do Rio, a favela da Chacrinha (zona oeste), onde foram apresentadas ao esporte com raquetes e peteca por um amigo e ganharam uma nova perspectiva de futuro.

Mesmo sem ter os tênis adequados e nem mesmo as raquetes para jogar, Lohaynny e Luana rapidamente se destacaram dentro de um projeto social criado pelo técnico de badminton Sebastião Dias de Oliveira com o objetivo de apresentar a modalidade a crianças de áreas pobres do Rio, habituadas a conviver com a violência.

Pouco tempo depois as irmãs chegaram à seleção brasileira da modalidade, ainda com 14 e 12 anos, e passaram a disputar competições no exterior. A infância difícil ficou distante, e a realidade agora é outra.

Luana e Lohaynny moram em uma casa custeada pela Confederação Brasileira de Badmiton para a seleção, em Campinas (SP). Ambas têm patrocínio e recebem salário para jogar. Treinam de manhã e à tarde, e estudam à noite. Só voltam ao Rio para visitar a mãe, que agora mora em uma casa reformada de classe média, mas ainda perto do local onde viviam quando entraram no badminton.

"Todo mundo pode chegar onde quiser, basta você querer, e eu quis estar aqui. Eu trabalhei muito para estar aqui", afirma Luana, de 22 anos, responsável por apresentar o badminton à irmã mais nova.   Continuação...

 
Irmãs  Lohaynny e Luana Vicente posam para foto em telhado de casa na favela da Chacrinha, no Rio de Janeiro. 04/05/2016 REUTERS/Nacho Doce