20 de Julho de 2016 / às 18:06 / em um ano

Rio 2016 pode brilhar, mas não apagará problemas da cidade

Soldados patrulham Maracanã em teste para cerimônia de abertura da Rio 2016. 17/7/2016. REUTERS/Ricardo Moraes

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Do outro lado de uma rua movimentada em frente ao estádio do Maracanã, que sediou duas finais de Copa do Mundo e que no mês que vem recebe a cerimônia de abertura da primeira Olimpíada da América do Sul, se ergue o complexo de concreto robusto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Mas a universidade, pioneira por oferecer bolsas a estudantes de baixa renda e de minorias, não vem desfrutando das mesmas benesses governamentais que o estádio emblemático, que desde 2010 recebeu mais de 1,2 bilhão de reais de recursos públicos para a reforma necessária para o Mundial e os Jogos Olímpicos.

Enquanto as luzes do Maracanã são testadas para a abertura do dia 5 de agosto, o lixo se acumula no campus, no qual 23 mil alunos estão sem aulas desde março por causa do atraso nos pagamentos de professores, fornecedores e funcionários da universidade.

O hospital universitário próximo, que é um centro regional de transplantes e tratamentos de câncer, anda tão carente de verba que este ano com frequência os médicos reduziram os tratamentos por falta de seringas, luvas de látex, medicamentos de quimioterapia e antibióticos.

“Nunca foi tão precário”, disse o diretor do Hospital Universitário Pedro Ernesto, Edmar Santos, explicando que os cortes no orçamento estadual fazem com que, em certos dias, suas instalações atendam menos da metade dos pacientes que normalmente trataria.

Duas semanas antes do início da Olimpíada do Rio, a recessão e a crise fiscal estão prejudicando e muito as vidas das mais de 12 milhões de pessoas que vivem na metrópole e seus arredores, o que gera ressentimento em vista dos cerca de 40 bilhões de reais gastos nos projetos olímpicos.

Aposentados e funcionários do Estado, entre eles professores, profissionais de saúde e policiais, vêm recebendo salários atrasados, quando recebem.

Muitos moradores estão insatisfeitos com o fato de o chamado legado olímpico, que inclui uma nova linha de metrô e corredores de ônibus, representar poucos benefícios para a maioria da população, e em vez disso privilegiando ainda mais os bairros mais abastados.

Na terça-feira, o instituto de pesquisa Datafolha apontou que metade dos brasileiros que entrevistou se opõe à Rio 2016 e que 63 por cento acreditam que o evento esportivo trará mais custos do que benefícios.

No começo desta semana, vândalos picharam os vagões de um novo sistema de trens leves, o VLT Carioca (Veículo Leve sobre Trilhos), que atravessa o centro do Rio, um projeto criticado por muitos que alegam só ser útil para turistas. “Transporte luxo, hospitais lixo”, dizia uma pichação.

“Eu me pergunto quais são as prioridades deles”, disse João Machado, porteiro de 69 anos que, por causa dos atrasos nos atendimentos, esperou quase seis meses para uma cirurgia de próstata que normalmente é feita dentro de semanas. “Estamos aqui fazendo espetáculo para o mundo, mas não conseguimos tomar conta da gente.”

Quando o Rio conquistou o direito de sediar a Olimpíada deste ano, em 2009, o Brasil estava em alta. Abastecido com o crescimento das exportações de commodities, o país estava ansioso para exibir sua ascensão. Mas agora o país atravessa sua pior recessão em décadas, o que torna os gastos com os Jogos especialmente polêmicos.

O governo do Estado do Rio é responsável por cerca de um quarto dos 40 bilhões de reais desses investimentos, de acordo com os organizadores. A maioria deste montante foi para a obra da linha de metrô, duas vezes mais cara do que o valor previsto inicialmente e tão atrasada que só se espera que ela comece a funcionar, e parcialmente, dias antes do início da Olimpíada.

Com parceiros do setor privado, a cidade do Rio arcou com quase o dobro dos gastos –cerca de 20 bilhões de reais– em projetos como novas avenidas, o VLT e alguns locais de competição menores.

Mas a prefeitura não enfrenta as mesmas pressões financeiras que o Estado do Rio, que é responsável por uma boa parte dos sistemas de saúde, educação e segurança.

A queda na arrecadação por causa da recessão, combinada à queda no pagamento de royalties de petróleo, vai causar um déficit estadual de até 20 bilhões de reais em 2016, de acordo com números do governo. Dos 78 bilhões de reais em gastos projetados para este ano, o Estado só desembolsou 25 bilhões.

Em junho, o governador interino do Rio, Francisco Dornelles, declarou estado de calamidade pública e conseguiu 2,9 bilhões de reais de Brasília para cobrir as despesas olímpicas iminentes.

VIOLÊNCIA E TUMULTO

A cidade ainda enfrenta uma violência endêmica. Recentemente traficantes mandaram mais de duas dezenas de bandidos armados invadirem um hospital público para resgatar um de seus líderes, matando um policial na ação.

A reputação do Brasil também vem sendo afetada pelos escândalos de corrupção e pelo caos político. A presidente afastada Dilma Rousseff aguarda uma votação no Senado sobre seu processo de impeachment por suposto crime de responsabilidade fiscal.

Verdade seja dita, é improvável que os visitantes olímpicos encontrem os mesmos problemas que os nativos. Durante os Jogos, que terminam no dia 21 de agosto, a cidade será tomada por mais de 85 mil policiais, soldados e outros agentes de segurança.

O governo brasileiro diz que irá garantir que todos os serviços essenciais sejam prestados durante o evento, incluindo nos hospitais, onde haverá reforços temporários.

Mas isso é pouco para consolar os moradores, que se queixam cada vez mais do futuro que os espera depois que as atenções do mundo se desviarem, deixando a maior parte do Rio como era antes.

“Perdemos uma grande oportunidade de realmente melhorar a cidade”, afirmou o deputado Alessandro Molon (Rede-RJ), que vem criticando as autoridades locais e que vai concorrer à Prefeitura do Rio em outubro. “O dinheiro acabou e quase nada mudou.”

Na Uerj, onde os voluntários criaram brigadas para fazer frente ao abandono e cuidar do lixo e dos jardins, meses sem salários ou de pagamentos atrasados fizeram os funcionários entrarem em greve em março.

Para 2016, o governo estadual aprovou verba de cerca de 1,1 bilhão de reais para a universidade –até agora, entretanto, só cerca de um terço do valor foi pago, segundo cifras do Estado.

Alunos e professores contrastam esse cenário com a bonança esportiva, especialmente levando em conta que, neste mês, um auditor disse que a reforma do Maracanã superou o orçamento em 62 por cento por causa da cobrança inflada das empreiteiras.

“Você poderia administrar este lugar durante mais de um ano com este dinheiro”, disse Mauricio Santoro, professor de ciência política da Uerj.

Os problemas afetam muitos estudantes. Letícia Vieira da Silva, aluna negra de relações internacionais e com 21 anos, deixou sua Minas Gerais natal atraída por um corpo discente formado por muitos alunos de baixa renda e de minorias.

Letícia queria se formar este ano, mas, impossibilitada de frequentar as aulas, está repensando seus planos de ficar na cidade para fazer uma pós-graduação e talvez pleitear um cargo de professora.

“Queria ficar aqui e dar aulas, retribuir”, disse. “Mas estou pensando até em ir para outro país.”

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