21 de Julho de 2016 / às 15:57 / um ano atrás

Polícia prende grupo suspeito de preparar atos de terrorismo a 15 dias da Olimpíada

Militar patrulha cerca de segurança do lado de fora do Parque Olímpico do Rio de Janeiro 21/07/2016Fabrizio Bensch

BRASÍLIA (Reuters) - A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira 10 pessoas de uma suposta célula amadora do grupo jihadista Estado Islâmico que realizava atos preparatórios de terrorismo no Brasil, em uma operação inédita no país deflagrada a 15 dias da cerimônia abertura da Olimpíada do Rio de Janeiro.

A chamada operação Hashtag foi realizada a partir das quebras de sigilo de dados e telefônicos dos suspeitos, que passaram de uma fase inicial de declarações via internet a realizar atos preparatórios para possíveis atentados, como treinamentos de artes marciais, armamentos e tiro, de acordo com o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes.

"Houve um primeiro contato comprovado com o Estado Islâmico, contato não pessoal, contato via internet, o juramento. Na sequência, houve uma série de atos preparatórios, e em um determinado momento esse próprio grupo deixou de entender que o Brasil seria um país neutro... e passou a entender que em virtude da Olimpíada o Brasil poderia eventualmente se tornar em um alvo", disse Moraes em entrevista coletiva sobre a operação em Brasília.

Segundo o ministro, a suposta célula era "absolutamente amadora, sem nenhum preparo", mas qualquer ato de terrorismo, "por mais insignificante que seja", terá uma resposta rápida das autoridades de segurança.

Como parte da operação, foram expedidos 12 mandados de prisão temporária pela Justiça Federal do Paraná, dos quais 10 foram cumpridos em 10 Estados diferentes nesta manhã. Dois suspeitos ainda não foram detidos. Segundo a Justiça, o processo tramita sob sigilo e não serão divulgadas informações a respeito dos suspeitos.

"Informações obtidas, dentre outras, a partir das quebras de sigilo de dados e telefônicos, revelaram indícios de que os investigados preconizam a intolerância racial, de gênero e religiosa, bem como o uso de armas e táticas de guerrilha para alcançar seus objetivos", disse a Justiça Federal em comunicado.

A informação repassada pelo ministro da Justiça foi de que a célula vinha sendo acompanhada desde abril. Fontes da Polícia Federal, no entanto, revelaram à Reuters que o grupo estava na mira da Polícia há cerca de um ano, e a atividade se acelerou nos últimos meses.

Há cerca de três meses a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) entrou na investigação, e chegou a revelar que um grupo usava o aplicativo Telegram para trocar informações.

Alexandre de Moraes confirmou nesta quinta-feira que a atividade do grupo se acelerou nos últimos meses, com participantes do grupo jurando lealdade ao Estado Islâmico e um deles fazendo contato com uma loja de venda ilegal de armas no Paraguai, em busca de um fuzil AK-47.

“A partir do momento que saíram simplesmente daquilo em que é quase uma apologia ao terrorismo, mas para atos preparatórios, foi feita prontamente atuação por parte do governo federal”, disse o ministro.

Moraes informou ainda que o grupo não tinha contato pessoal, mas se comunicava via aplicativos de mensagens. Nenhum deles, também, teria dito contato direto com o Estado Islâmico, mas teriam feito a conversão e o juramento de lealdade via Internet.

As investigações revelaram também que o grupo era de jovens convertidos recentemente ao islamismo.

“O Brasil não fazia parte da coalizão do Estado Islâmico, mas, em virtude da proximidade das Olimpíadas, como iria receber vários estrangeiros, então passaria a estar dentro do alvo dessas pessoas”, disse o ministro.

Moraes fez questão de dizer que, apesar das prisões, não se pode dizer que aumentou o risco de ataques terroristas no país durante as olimpíadas. A ação do grupo foi classificada de “amadora” pelo ministro.

“Não aumentou o risco, não há probabilidade, a probabilidade é mínima. Agora, a possibilidade existe, não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Estamos tomando todos os cuidados, e todas as medidas. Vamos agir da maneira mais dura possível para evitar qualquer problema futuro”, afirmou.

Além das 10 prisões, foram apreendidos equipamentos, como computadores e celulares. Segundo Moraes, a Polícia Federal vai analisar o material rapidamente para saber se há ou não ramificações do grupo no país.

Essa foi a primeira ação das forças de segurança no país depois da aprovação da lei antiterrorismo.

O presidente interino Michel Temer acompanhou nesta manhã o desenrolar da operação da PF e convocou uma reunião com autoridades do setor de segurança fora de sua agenda para discutir o caso.

A ação da PF ocorre dias após o serviço internacional de inteligência SITE, especializado no combate ao terrorismo, informar que um suposto grupo militante intitulado Ansar al-Khilafah Brazil declarou apoio ao movimento jihadista Estado Islâmico em publicação em um aplicativo de mensagens e promoveu propaganda jihadistas em inglês e português.

De acordo com o SITE, um jihadista apoiador do Estado Islâmico denominado Ismail Abdul Jabbar al-Brazili enviou mensagens em português pelo serviço Telegram repetindo discurso de um porta-voz oficial do grupo militante, além de outras mensagens.

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) já havia confirmado no mês passado que equipes de inteligência que atuam próximas ao plano de segurança dos Jogos do Rio tinham detectado a abertura de uma conta em português no Telegram para a troca de informações sobre o Estado Islâmico, mas as autoridades vinham garantindo que não havia sido detectada qualquer ameaça de ataque ao país.

A preocupação com um possível atentado no país durante os Jogos Olímpicos, de 5 a 21 de agosto, cresceu recentemente na esteira de ataques na França, nos Estados Unidos e em outros países, que posteriormente foram reivindicados pelo Estado Islâmico, grupo que ocupa territórios na Síria e no Iraque e que enfrenta uma coalizão militar liderada pelos EUA.

Com reportagem adicional de Pedro Fonseca, no Rio de Janeiro

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