8 de Agosto de 2016 / às 23:37 / um ano atrás

Judoca Rafaela Silva derruba infância pobre e racismo para ser campeã olímpica

8/8/2016Kai Pfaffenbach

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Primeira brasileira campeã olímpica da Rio 2016, a judoca Rafaela Silva superou o racismo e uma infância pobre numa comunidade violenta do Rio para cantar o hino nacional no lugar mais alto do pódio de uma Olimpíada.

Rafaela cresceu na comunidade carioca da Cidade de Deus, na mesma região onde conquistou o ouro. Começou a fazer judô com 5 anos para se afastar da violência do local. Depois de muitos percalços, a brasileira acredita que pode, a partir desta segunda-feira, virar exemplo para muitas crianças pobres do país.

"Eu saí da comunidade e meu professor sempre falava que eu tinha uma agressividade diferente, que queria transformar para o esporte... eu cresci me superando e isso foi fundamental para minha medalha", disse a judoca, de 24 anos, após conquistar o ouro no Rio.

"As crianças não têm muito objetivo lá na Cidade de Deus, não tem muita coisa. Então se alguma criancinha tem um sonho, mesmo que demore, como eu não consegui conquistar meu sonho em Londres, tem que batalhar, porque ele pode se realizar."

Rafaela contou ter pensado em desistir do judô após sofrer ofensas racistas em redes sociais durante os Jogos de Londres 2012, quando foi eliminada por ter atacado de forma irregular as pernas da adversária.

Mas ela foi convencida por técnicos e familiares a continuar. E a resposta para os agressores, segundo ela, é a medalha.

MEDALHA NO PEITO

"Eles falaram que judô não era pra mim, que eu era vergonha para minha família, que lugar de macaco era na jaula e não na Olimpíada e agora posso provar para todos eles que me criticaram que eu posso estar entre as melhores da minha categoria", disse, com semblante sério.

"Não tem recado para essas pessoas, só tem a medalha no meu peito", acrescentou.

O racismo de quatro anos atrás somou-se a outras dificuldades que Rafaela passou até se tornar campeã olímpica. Quando iniciou no judô, não tinha quimono e ganhou um de presente. Era um tamanho muito maior. Mas não importava.

A partir do momento que ela começou a ganhar competições e o judô foi ficando "uma coisa mais séria", teve que contar com a ajuda financeira do professor Geraldo Fernandes, até hoje seu parceiro, agora no Instituto Reação, projeto social do medalhista olímpico Flávio Canto.

"Meu professor passava o cartão dele e eu ia (para as viagens). Se não fosse ele, não sei nem onde eu estaria hoje", disse a judoca. "Devo tudo ao professor, e tudo o que ele fez por mim nesses 16 anos eu posso pagar agora com a medalha olímpica que ele tanto sonhava", afirmou.

"Se tem uma pessoa que podia representar a comunidade, eu vim aqui e representei", completou ela, de forma firme, como encarou as lutas na Rio 2016.

Sempre concentrada, Rafaela comemorava de forma contida as vitórias. "Eu estava bem focada nas lutas, treinei para não pecar em nenhum momento da luta", explicou ela, que fez treinos estratégicos para lutar contra cada uma das adversárias na chave.

Apesar da concentração, a judoca, que foi campeã mundial no Rio em 2013, disse ter usado a força da torcida para vencer as cinco lutas que fez na Arena Carioca 2, que explodiu em vibração com a conquista da brasileira.

"Eu gosto muito de competir dentro de casa, a torcida ajuda bastante... ontem eu vim no ginásio e vi que quando os brasileiros entravam, a arquibancada mexia. Eu já estava quase pulando para lutar junto", brincou.

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