Ícone contra União Soviética, ginasta tcheca Vera Caslavska morre aos 74 anos

quarta-feira, 31 de agosto de 2016 11:02 BRT
 

Por Jan Lopatka e Jason Hovet

PRAGA (Reuters) - A ginasta tcheca Vera Caslavska, a atleta olímpica mais reverenciada de seu país e uma das vozes mais poderosas da luta contra a ocupação soviética, morreu aos 74 anos de idade de câncer no pâncreas.

Uma das duas únicas mulheres a conquistar medalhas de ouro consecutivas na ginástica artística, Caslavska ficou com sete ouros na Olimpíada de Tóquio de 1964 e nos Jogos da Cidade do México de 1968.

Nestes últimos ela enfrentou e derrotou atletas soviéticas poucas semanas depois que tanques do Pacto de Varsóvia liderados pelo Exército Vermelho entraram na antiga Tchecoslováquia para conter as tentativas de reação ao controle comunista.

"Fomos para o México determinados a suar sangue para derrotar os representantes dos invasores", disse ela ao site de notícias Aktualne.cz em uma entrevista de 2014.

Uma lembrança duradoura daqueles Jogos é o protesto silencioso de Caslavska --ela abaixou a cabeça no pódio quando o hino soviético foi tocado--, ecoando a imagem mais famosa da saudação Black Power que o corredor norte-americano Tommie Smith fez em solidariedade aos ativistas negros de direitos humanos de seu país.

"Vera era uma lutadora. Ela foi diagnosticada na primavera do ano passado", disse o presidente do Comitê Olímpico Tcheco, Jiri Kejval, que anunciou seu falecimento. "Quando ela não foi conosco para o (Jogos do) Rio, ficou claro que a situação era ruim", contou ele à Reuters por telefone, acrescentando que Caslavska morreu dormindo.

Após suas críticas à invasão de 1968 e sua recusa de retirar sua assinatura do "Manifesto de 2000 Palavras" do movimento de protesto da Primavera de Praga contra a interferência soviética, Caslavska foi expulsa da união esportiva tcheca e sofreu perseguição.

A partir de 1974 ela passou a treinar outras ginastas em casa e, entre 1979 e 1981, também no México, o país de seu maior triunfo.

Quando o governo comunista teve fim na Tchecoslováquia em 1989, o novo presidente, Vaclav Havel, a escolheu com sua consultora para assuntos esportivos e sociais.

Caslavska também liderou um Comitê Olímpico Tcheco renovado entre 1990 e 1996 e foi membro do Comitê Olímpico Internacional (COI) entre 1995 e 2001.