8 de Agosto de 2008 / às 07:07 / 9 anos atrás

Em meio à guerra, velocista da Somália levanta bandeira da paz

Por Catherine Bremer

PEQUIM (Reuters) - Enquanto a adolescente Samia Yusuf Omar, velocista da Somália, se prepara para largar nos 200 metros em Pequim, sua mãe e seis irmãos em Mogadíscio tentam encontrar um vizinho com televisão para poder vê-la.

Ela adoraria se o pai também pudesse assisti-la, mas ele foi morto em 2006 por um foguete que atingiu sua casa de dois cômodos na guerra sem fim que vem destruindo a Somália nas duas últimas décadas. Um tio e uma tia também foram mortos.

Estar na Olimpíada, com seus estádios de bilhões de dólares, e pistas de atletismo de última geração, é como pisar em um outro mundo para atletas de nações devastadas por guerras, como a Somália.

“O esporte me empurra para a frente”, diz Omar, de 17 anos, com um maiô de atletismo sobrando em seu corpo, aparentemente três números acima do seu, enquanto fala, se mexendo na cadeira, na luxuosa Vila Olímpica.

“Algumas pessoas me perguntam como posso estar fazendo esporte enquanto tantas pessoas estão sendo assassinadas ou morrendo de fome e sede. Mas estar na Olimpíada é fazer algo por meu país, porque cada pessoa irá torcer por mim, independentemente de qual tribo pertença.”

A Somália tem conseguido mandar atletas para as últimas seis Olimpíadas, apesar dos conflitos sangrentos que vive desde 1991, quando caiu uma ditadura militar de seu comando. Ainda há uma enorme pobreza espalhada pelo país.

A última insurgência resultou no assassinato de 8.000 civis e forçou um milhão de pessoas a deixar suas casas. No ano passado, islâmicos revoltosos entraram em conflito com o governo provisório e seus aliados militares da Etiópia. Mais uma seca severa levou toda a situação a se transformar em uma verdadeira crise humanitária.

Para Omar, isso significa que enquanto suas adversárias se apresentam bem alimentadas, com dietas balanceadas, e são levadas às pistas de treinamento, ela vive de mingau, arroz e pedaços de carne de bode ou camelo, e treina em um estádio em ruínas de 1940, com pista de terra, cheia de buracos e mato.

“Eu como o que consigo. Você não pode ficar escolhendo”, ela disse, por meio de um intérprete, com seus olhos meio escondidos debaixo da aba de um boné, também maior que o seu tamanho.

“Você não pode reclamar ou culpar alguém por seus problemas, mas é diferente ser de um país estável. De vez em quando penso que gostaria de viver em algum outro lugar que eu pudesse treinar adequadamente”, acrescentou.

Omar se levanta antes do sol nascer para treinar três horas, antes de ajudar seus irmãos e irmãs a ir para a escola, ao lado da mãe, que tem uma barraca de frutas perto de sua casa em Mogadíscio.

Mas ela teme por sua vida cada vez que vai e vem do estádio, onde treinam também os outros atletas da Somália desta Olimpíada.

Segundo as Nações Unidas, são 3,5 milhões de somalis em estado de emergência.

“Não entendo de política”, disse Omar. “Só queria paz para meu país, para que assim eu possa treinar e ganhar medalhas, alcançar meu sonho de me tornar uma atleta mesmo.”

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