16 de Agosto de 2008 / às 14:46 / em 9 anos

COLUNA-Acaba show da natação. Entra em cena nobreza do atletismo

Por Denise Mirás

SÃO PAULO (Reuters) - Quando a natação deixa os holofotes para dar lugar ao atletismo é hora de juntar as provocações olímpicas. Contra a tecnologia, rebate-se com a popularidade. Contra a participação mais democrática, argumenta-se com o espetáculo dos recordes.

A natação brilha no lançamento de novidades tecnológicas. O maiô-vedete, que funciona como uma espartilho para manter o corpo em posição ideal, apresenta detalhes que funcionam como escamas, em desenhos de canaletas como as costas de um pato, tudo para que a água deslize mais fácil, para que o efeito "arrasto" seja menor e assim o nadador ganhe microlésimos de tempo para festejar recordes.

Quando surgiu, em Barcelona-1992, o "avô" do LZR Racer, algumas atletas o usaram, mas era bem difícil acreditar que "mais era menos" no caso de trajes de natação.

Foi também nessa Olimpíada que as nadadoras apareceram com pequeníssimas tatuagens dos coloridos aros olímpicos na virilha -- que iriam evoluir mesmo para nomes de patrocinadores gravados na própria pele para "burlar" impedimentos publicitários da carta olímpica.

Em Sydney-2000, o maiô, em versão inteira ou "meia", já era equipamento indiscutível, na briga entre norte-americanos e australianos -- liderados por Ian Thorpe -- na bem fomentada rivalidade aquática.

A piscina também colabora. O ozônio já libertou olhos antes ardidos pelo cloro. As beiras são desenhadas para "engolir" água, de forma que não volte para dentro e atrapalhe a garotada olímpica, assim como as divisões das raias também "cortam" ondulações.

Em Pequim, o fundo reto -- nada de uma parte mais rasa e outra mais funda --, de igual profundidade (três metros, meio a mais que em Atenas-2004), também parece ajudar muito, já que os recordes se empilharam no Cubo D'Água, muito deles pelas "pernadas" de golfinho submersas de Michael Phelps e com traçado de um foguete que saem do fundo da piscina para avidamente estudadas por biomecânicos e especialistas em mecânica de fluidos.

A NBC, rede de TV norte-americana que paga 900 milhões de dólares nesta Olimpíada para ter os direitos exclusivos de transmissão para seu país, mandou mudar o programa de natação. As finais em Pequim foram disputadas pela manhã, para que fossem exibidas ao vivo no horário nobre nos Estados Unidos (à noite), e contentar os anunciantes que compram o horário mais caro do mercado publicitário do mundo.

Ganha a tevê, ganha Phelps... Só da Speedo, sua patrocinadora, cai no caixa um milhão de dólares apenas como "bônus" pelo empate de sete ouros em uma única Olimpíada, de Mark Spitz em Munique-1972.

E, se o doping genético (ainda indectável) realmente já estiver em Pequim -- como acreditam especialistas, com manipulação de genes que forçam células humanas a produzir um doping "natural" --, poderia ter como protótipo também as figuras da piscina, de braços gigantescos, como os do enorme (em físico e simpatia) francês Alain Bernard.

ATLETISMO PARA 80 MIL

Jornalistas e público se batem na natação, em busca de lugares. O conjunto aquático é sempre mais limitado que um Estádio Olímpico, onde o atletismo se gaba de colocar 2.000 inscritos para competir em Olimpíadas, para mais 80.000, no mínimo, assistirem in loco.

O atletismo, mais democrático mesmo na representatividade de um número imenso de países, sofre com o descaso das pistas por parte dos atletas de gerações que chegam e são levadas às corridas de rua que pipocam pelo mundo, com premiações muito tentadoras.

O doping também se diz presente, com vários atletas confessando uso e tráfico de substâncias proibidas. A velocista Marion Jones, por exemplo, que teve cassadas suas medalhas olímpicas, passa uma temporada na cadeia, enquanto esta Olimpíada de Pequim se desenrola.

Sem grandes possibilidades tecnológicas para servir como atração, o atletismo permanece como o esporte nobre das Olimpíadas, contando apenas com sua própria essência.

Mas os dois homens mais velozes do planeta, em toda a história -- Usain Bolt e Asafa Powell (Tyson Gay não se classificou) --, alinhados para a prova mais nobre dentre as nobre -- os 100m rasos, neste sábado, no Estádio Ninho do Pássaro, não mereceram nenhuma atenção da NBC e seus patrocinadores. A prova não foi transmitida ao vivo para os EUA, para entrar no horário nobre.

O espetacular recorde mundial de 9s69 do despachado Bolt -- que, como Ben Johnson em Seul-1988, chegou a olhar por cima do ombro antes da chegada -- só passaria por lá nove horas depois, gravado. Mas o "resto" do mundo viu ao vivo, assombrado.

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