16 de Março de 2008 / às 22:30 / 10 anos atrás

Algoz e herói, Zidane se vê nos pobres do Brasil e exalta país

<p>Ex-jogador franc&ecirc;s Zinedine Zidane tenta marcar durante partida de futsal em S&atilde;o Paulo. Em sua primeira visita ao Brasil, o astro disse no domingo ter profunda identifica&ccedil;&atilde;o com o pa&iacute;s tanto pela pobreza da periferia como pelo amor ao futebol. Ele recusou o status de carrasco da sele&ccedil;&atilde;o brasileira. Photo by Rickey Rogers</p>

Por Maurício Savarese

SÃO PAULO (Reuters) - Em sua primeira visita ao Brasil, o astro francês Zinédine Zidane disse no domingo ter profunda identificação com o país tanto pela pobreza da periferia como pelo amor ao futebol. Ele recusou o status de carrasco da seleção brasileira, apesar de ter sido decisivo para a França sair vencedora nos confrontos dos Mundiais de 1998 e 2006.

Nascido em uma família argelina e peladeiro nos subúrbios de Marselha quando criança, Zidane vestiu uma jaqueta com as cores brasileiras ao passar pela favela de Heliópolis onde moram cerca de 125 mil pessoas, na zona sul de São Paulo. Foi ovacionado por centenas de moradores, que se acotovelaram para vê-lo.

“Hoje eu pude relembrar um pouco da minha infância porque eu também cresci em um ambiente difícil. Eu fico feliz de estar aqui e saber que as pessoas me conhecem”, disse o ex-jogador a jornalistas após dar o pontapé inicial na inauguração de uma quadra poliesportiva em Heliópolis, considerada a maior favela da capital paulista.

“Quando a gente vem de um lugar desfavorecido (como é o meu caso), se toca mais facilmente. Em um momento você sente que quer dar para os outros um pouco do que recebeu. Sou embaixador de muitas causas e fico feliz, porque estou sendo útil”, disse ele, ao responder perguntas previamente selecionadas pela assessoria de imprensa da Adidas, sua empresa patrocinadora.

Em Heliópolis, Zidane evitou fãs mais entusiasmados e jornalistas. Mas conversou com Vitor, 8 anos, que deu de presente ao ex-jogador um Estatuto da Criança e do Adolescente, “para ele se lembrar das crianças do Brasil”. Cercado por uma multidão na quadra de futebol, o francês abreviou a saída e não bateu bola com os jogadores locais, do Ratatá Futebol Clube.

“Ele é quietão, mas gostei dele. Pena que ficou pouco”, disse Vitor. Zidane permaneceu cerca de 20 minutos no local, onde converteu uma cobrança de pênalti tendo como goleiro rival o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que ajudou a bola a entrar no gol após ela carimbar a trave e a sua perna direita.

Apesar das feições contidas e do semblante mais tranquilo do que empolgado, Zidane afirmou que se considera um brasileiro, apesar de ter marcado dois gols na vitória francesa por 3 x 0 na final da Copa do Mundo de 1998 e de ter esbanjado habilidade na vitória da seleção européia por 1 x 0 no Mundial da Alemanha, em 2006.

“Me considero um de vocês, com certeza... se vocês discordam, eu lamento. Mas para mim o Brasil é um exemplo no futebol.... eu espero que não me considerem como alguém que fez mal ao Brasil”, comentou.

FUTEBOL DE SALÃO

Após a visita a Heliópolis, Zidane deu entrevista no clube Paineiras, no bairro nobre do Morumbi. Lá, ele foi chamado a distribuir autógrafos a torcedores, sócios do clube, jornalistas e quem estivesse por perto. A energia que sobrou para atender os fãs faltou ao ex-jogador, aposentado em 2006, para evitar a derrota de seu time na partida de futebol de salão que disputou no clube e que perdeu por 4 x 3.

Cerca de 4,5 mil pessoas, de acordo com a organização do evento, contribuíram com uma campanha beneficente para ver Zidane em ação em um jogo que reuniu, além dele, outros seis campeões mundiais: Rivellino (1970), Aldair, Márcio Santos, Mauro Silva, Ronaldão e Paulo Sérgio (todos em 1994).

Os torcedores presentes não viram a “roleta”, drible característico de Zidane, no qual ele gira por cima da bola, nem um chute indefensável ou um lançamento na medida para um companheiro. Viram um craque sem cerimônias, nem exageros.

“Ele é uma pessoa muito simples aqui fora, mas lá dentro é muito requintado. Ainda é difícil marcar um jogador como ele. Não desaprendeu nada”, disse Aldair, ex-zagueiro da seleção brasileira e da Roma.

Apesar dos elogios, o francês reiterou que não voltará aos campos, ainda que os fãs brasileiros tenham pedido em cartazes e gritos para que ele retorne e não deixe o fim da sua carreira marcado pela expulsão na decisão do Mundial de 2006, quando deu uma cabeçada histórica no peito do italiano Marco Materazzi.

“Eu recebi propostas para jogar nos Estados Unidos, mas não aconteceu. É tarde para isso, porque já faz dois anos que parei. Estou com a cabeça em outro lugar”, afirmou.

Três vezes eleito pela Fifa o melhor jogador do mundo, em meio a títulos com a seleção francesa, a italiana Juventus e o espanhol Real Madrid, Zidane diz que não se sente no mesmo nível dos maiores jogadores da história, entre os quais listou o brasileiro Pelé e os argentinos Maradona e Di Stefano. E afirmou que se vê menor do que o atacante Ronaldo.

“Para mim ele foi e será o número 1 do mundo”, declarou Zidane sobre o atacante do Milan, que está com a carreira ameaçada após uma grave lesão no joelho. “Eu acredito nele e quero rever o Ronaldo em campo, como todos que amam o futebol.”

Assim como chegou em Heliópolis, o discreto Zidane logo deixou o clube Paineiras onde jogou sua primeira partida no Brasil. Ele parte nesta noite, mas promete voltar, no máximo, até a Copa de 2014.

“A Copa no Brasil vai diminuir as chances das outras equipes, mas o futebol é assim mesmo. Espero poder estar aqui”, disse.

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