26 de Fevereiro de 2008 / às 17:13 / 10 anos atrás

Sumô ganha ginga e adeptos no Brasil, mas vive de voluntários

<p>Vis&atilde;o geral de ringue da 1a Copa Sulam&eacute;rica de Sum&ocirc; em S&atilde;o Paulo, 23 de fevereiro. Cerca de 300 crian&ccedil;as e jovens da Am&eacute;rica do Sul at&eacute; 18 anos de idade participam da competi&ccedil;&atilde;o. Photo by Paulo Whitaker</p>

Por Fernanda Ezabella

SÃO PAULO (Reuters) - Com um rápido giro do corpo, Ana Bárbara Santi vira o jogo e derruba sua adversária na arena de terra. O ginásio vibra com a manobra da garotinha de 8 anos. É sua primeira vitória no sumô.

Ela é uma das 200 crianças e adolescentes de até 18 anos que participaram de um campeonato de sumô no fim de semana, em um ginásio na capital paulista. Estavam delegações de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e até do distante Pará.

Bárbara, descendente de italianos e longe de ser gorda, vestia colan vinho até o joelho, sem mangas, com a faixa branca amarrada na cintura, chamada mawashi. Após a vitória, o pai deu parabéns à filha, um abraço apertado e um beijo no ombro, onde surgiu um arranhão.

O sumô, esporte popular e tradicional no Japão, é uma das heranças dos primeiros japoneses imigrantes que chegaram ao Brasil há 100 anos.

Por aqui, no entanto, o sumô é hoje praticado em apenas cerca de 15 academias espalhadas pelo país, e os brasileiros são maioria, quase 75 por cento, desbancando os nikkeis, descendentes de japoneses.

Há registros de campeonatos de sumô no interior paulista desde a década de 1910. Para o presidente da Federação Paulista de Sumô, Morito Tsuchiya, o esporte foi facilmente integrado.

“O sumô é fácil de praticar e teve rápida integração entre os não-nikkeis”, disse Morito. “Os japoneses foram se integrando na sociedade, entrando em outros esportes, como o futebol.”

Sem divulgação e patrocínio, o sumô sobrevive no país às custas de muito trabalho voluntário, rifas, bazares e até macarronadas.

A Associação Norte de São Paulo de Sumô, por exemplo, passa o ano com 10 mil reais, arrecadados com rifas. O mesmo acontece na Associação Kaiko, em Londrina, que ensina “artes marciais como conceito de vida” a comunidades carentes. Para pagar as contas, fazem bingos, rifas e até macarronadas.

Apesar da dificuldade, o Brasil marca presença no Mundial de Sumô amador e coleciona alguns títulos. A última vez que o país ganhou no individual foi com uma paulista não-nikkei, Fernanda Pereira da Costa, peso-pesado, na Alemanha, em 2004.

O comerciante Celso Satomi, 57 anos, lutou sumô no Brasil por 30 anos e chegou a fazer intercâmbio de estudantes com academias no Japão.

“O menino no Japão é destinado a fazer só aquilo. O conteúdo é ganhar, ganhar, ganhar. Uma bitolação. Aqui a ginga brasileira prevalece. Aqui aplicamos o esporte ensinando a cultura, o respeito, a como ser esportista”, disse Celso, enquanto fumava e bebia cerveja com os amigos no ginásio.

“Aqui consegue se fazer um sumô brasileiro. Mas quem é que vai mudar o sumô no Japão?”, brinca Celso.

PARA TODOS OS PESOS

No ginásio na zona norte da capital paulista, a precariedade chama a atenção. Os bancos são feitos de tábua, e os banheiros estavam interditados. No escritório, há buracos na parede, muita poeira e janelas quebradas.

Nada disso, no entanto, parece prejudicar a animação dos participantes do campeonato. Os mais novos brincam na areia ao redor do ringue, e os mais velhos arrumam o mawashi de seus lutadores.

As faixas, que não podem ser lavadas para manter o espírito dos ancestrais, têm que dar cerca de quatro voltas na cintura do lutador, chamado de sumotori, e outra entre as pernas.

Cada luta dura cerca de um minuto, às vezes apenas alguns segundos. O objetivo é simples: derrubar o adversário ou tirá-lo do círculo feito na arena, chamada de dohyô.

Enquanto esperava sua vez de lutar, o estudante paulista Ricardo Faiolli Francisco, 16 anos, comentou que enfrenta preconceito na escola, embora não ligue.

“Eles fazem brincadeira, dizem que eu fico de fraldão e tal. Mas quero ver eles fazerem isso”, desafia. “O treino é muito forte, muito mais forte que jiu-jitsu”, garante.

Ser gordo não é pré-requisito, apesar de fazer parte do rol dos estereótipos quando se fala em sumô. Muitos são magros, com músculos torneados até. Ricardo tem o índice de massa corporal (IMC) em 33, considerado obeso, mas garante que não é.

“Minha massa gorda é de apenas 25 por cento”, justifica.

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below