COLUNA-A perfeição, a todo custo. E a força das brasileiras

domingo, 24 de agosto de 2008 08:05 BRT
 

Por Denise Mirás

SÃO PAULO (Reuters) - Quando todos esperavam uma Olimpíada de Pequim marcada pela alta tecnologia -- os próprios chineses chamaram seus Jogos de "hi-tec" --, um outro aspecto se sobrepôs a ela, abrindo margem para discussão e reflexão: a possibilidade de situações e imagens serem manipuladas, e encarando-se isso com naturalidade.

Um dos momentos mais expressivos da cerimônia de abertura foram as "pegadas gigantes" saindo do sul da cidade, rumo ao Estádio Ninho do Pássaro, feitas com fogos de artifício -- e que, na verdade, foram pré-gravadas e então "acrescentadas" na apresentação ao vivo, para todo o planeta.

Já há alguns anos os publicitários descobriram o esporte como "última reserva" de emoções verdadeiras, e imagens capturadas de rostos em agonia durante corridas, ou na luta por pontos, ou em esforço máximo, em celebrações e choros sentidos, passaram a fazer parte do arsenal da propaganda.

Mas os chineses dominaram a arte de manipular situações para encaixá-las em seu padrão de perfeito.

E assim foi. Como se viu desde a tão recriminada substituição da minicantora, com voz colocada no playback, por outra mais "apresentável", na dublagem de uma canção. Ou com a revelação de que as garotas das cerimônias de pódio precisavam ter medidas-padrão de rosto -- até com determinada relação de distância da boca em relação às pupilas. E que seu sorriso precisava mostrar exatamente oito dentes, com abertura das arcadas de menos de um centímetro (na verdade, da largura de hashis -- os "pauzinhos" para se pegar a comida --, seguros pela mordida treinada durante meses).

Também se pode lembrar da tentativa de controlar a chuva, do arrasa-quarteirão que deu lugar a estádios e arenas, do sumiço de manifestantes. E também do doping, que em última instância tenta enganar os espectadores -- e por tabela, também patrocinadores e anunciantes. Alguns foram pegos, mas notícias dão conta de que o doping genético já está aí, com genes de células manipulados para que o corpo produza seu "autodoping".

A NBC, rede de TV norte-americana, há anos já sacrifica transmissões ao vivo, e grava teipes para que o público assista às competições na hora que mais convier aos anunciantes...

Com Pequim, terá a China antecipado uma era olímpica onde também as disputas e jogos poderão ter imagens manipuladas, recortadas e re-arrumadas, de acordo com interesses diversos?   Continuação...