Argentina jogará "outra final" da Copa de 1978

quarta-feira, 25 de junho de 2008 18:24 BRT
 

BUENOS AIRES (Reuters) - Parte da seleção argentina de futebol que ganhou em casa a Copa do Mundo de 1978 voltará a jogar no domingo, mas desta vez em homenagem às vítimas da ditadura que governava o país, torturando e matando enquanto milhões de pessoas festejavam.

A chamada "A outra final" será disputada no estádio do River Plate, o mesmo em que milhares de argentinos viram o triunfo sobre a Holanda na final do torneio há 30 anos atrás. A vitória ficou para sempre ofuscada pela realidade política que o país vivia.

Durante o governo militar, cerca de 30.000 pessoas foram sequestradas, torturadas e assassinadas segundos as denúncias de grupos de defesa dos direitos humanos, entre elas estavam opositores do governo e milhares de jovens sem qualquer atividade política.

"A sociedade Argentina tem muitas dívidas e entre elas está o Mundial de 78, um mundial que foi o broche de ouro da repressão, um mundial feito para lavar a cara dos assassinos (...) para lavar a cara diante do mundo", disse Mabel Gutiérrez, representante de uma das agrupações de direitos humanos que organiza o evento, em uma coletiva de imprensa.

Leopoldo Jacinto Luque, Omar Larrosa, Héctor Baley, Luis Galván, René Houseman, Miguel Oviedo e Ricardo Villa, que integravam a seleção argentina, já confirmaram sua presença na partida e se espera que alguns mais compareçam.

"Há uma coisa que tem que ficar muito clara: não estamos por nada acusando os jogadores daquele momento. Nos interessa muito o que eles pensam do que ocorria enquanto se jogava em 78", disse Tati Almeida, da associação de mães da Plaza de Mayo.

A ditadura queria que "os jornalistas que viessem cobrir o mundial pudessem constatar que a Argentina era um país pacífico, embora fosse a paz dos cemitérios a que havia naquele momento no país", acrescentou.

A tribuna de onde a junta militar presenciou a final da Copa do Mundo há 30 anos ficará vazia desta vez "pois as cadeiras serão ocupadas simbolicamente por todas as vítimas da repressão", explicou Gutiérrez, da associação de Familiares de Desaparecidos e detidos políticos.

(Reportagem de Karina Grazina)