27 de Junho de 2010 / às 21:17 / em 7 anos

TESTEMUNHO-O dia que em que uma secretária calou o Maracanã

Por Brian Homewood

JOHANESBURGO (Reuters) - É preciso acontecer muita coisa para silenciar 132 mil felizes torcedores brasileiros, mas a secretária Rosimery de Mello e um goleiro que tinha o apelido de Condor foram capazes desta façanha em um dia extraordinário em 1989.

O Brasil, que precisava de um empate para se classificar para a Copa do Mundo de 1990, estava na frente do Chile por 1 x 0 com 25 minutos para terminar a partida. A torcida já celebrava a vitória contra um time que tinha sido apontado como possível vilão da classificação.

Eu estava no estádio, e por mais que eu soubesse que o futebol na América do Sul podia ser selvagem, não tinha ideia do que estava para acontecer.

Da arquibancada, alguém lançou um rojão. Eu pude ver claramente quando o rojão começou a cair no sentido do gramado e, claramente, ia chegar ao campo.

Eu vi, confuso, que ele caiu próximo à área chilena e que o goleiro Roberto Rojas se jogou no chão, com as mãos no rosto, como se tivesse sido atingido. Toda a delegação chilena correu para o campo e cercou Rojas, empurrando os brasileiros para longe.

Após alguns minutos de teatro, Rojas foi tirado do campo, coberto de sangue. Os chilenos, então, abandonaram o campo. O ambiente no estádio ficou tenso.

Ainda que algumas pessoas tenham comemorado a saída do goleiro, as pessoas começaram a se perguntar se o Brasil seria responsabilizado pela violência da torcida e perderia pontos.

“Estamos fora da Copa”, disse alguém, perplexo. Se isso tivesse acontecido, o Brasil mancharia o seu histórico de ser o único país a participar de todas as edições da Copa do Mundo - marca que continua até hoje.

HOSTILIDADE DESENFREADA

Após 20 minutos de confusão, o árbitro Juan Carlos Lostau encerrou a partida e o estádio começou a esvaziar. A multidão saía em silêncio, como se o time tivesse perdido.

Eu morava no Brasil há dois anos, trabalhando como professor de inglês e ganhando um dinheiro extra escrevendo artigos para a revista World Soccer, e já tinha visto os dois lados do futebol na América do Sul.

Na minha visita anterior ao Maracanã, eu testemunhei o chute de Diego Maradona do meio do campo que bateu no travessão em partida da Copa America entre Argentina e Uruguai. Mas eu também testemunhei grandes confusões em campo, o que acabava em rotineira invasão da polícia, além de campeonatos atrapalhados por batalhas políticas.

Mas este jogo tinha ido muito além da hostilidade desenfreada. Os brasileiros tinham reclamado que foram maltratados pela polícia chilena na primeira partida em Santiago que terminou em um empate de 1 x 1.

O jogo teve um início explosivo quando um jogador chileno deu um soco no atacante brasileiro Romário e os dois foram expulsos no primeiro minuto de jogo. O Brasil marcou primeiro, mas houve uma explosão com o empate chileno, marcado em uma falta batida rapidamente, sob protestos dos brasileiros que disseram não estarem prontos.

Isso gerou um frenesi na imprensa brasileira. Temendo uma recepção hostil, o Chile voou até o Brasil em um avião da força aérea do país e chegou ao Rio de Janeiro na manhã da partida.

Durante o jogo, o Brasil atacou constantemente e apenas Rojas - apelidado de Condor - salvou o time de uma goleada ainda no primeiro tempo. Mas os visitantes não resistiram no início do segundo tempo quando Careca abriu o placar para o Brasil.

Horas após o final da partida, suspeitas começaram a pairar sobre Rojas. Eu liguei a televisão para ver o incidente sendo repetido dezenas de vezes e as imagens mostravam o rojão caindo a pelo menos dois metros de distância do goleiro.

Agora, os brasileiros mudaram a estratégia. O Chile criou uma farsa, disseram, e o Brasil merece ter a vitória que confirmaria a participação do país na Copa do Mundo.

INVESTIGAÇÃO

Uma investigação da Fifa concluiu que a contusão na cabeça de Rojas foi infligida pelo próprio goleiro que usou uma lâmina escondida na sua luva. A organização deu como resultado final a vitória por 2 x 0 para o Brasil, o que deixou o Chile de fora da Copa de 1990, e baniu os chilenos da Copa de 1994.

Já Rojas foi suspenso por toda a sua vida, assim como o técnico Orlando Aravena e o médico do time Daniel Rodriguez. O capitão do Chile Fernando Astengo foi banido por cinco anos por ter liderado o seu time que abandonou o gramado.

Rojas, que na época jogava pelo time brasileiro São Paulo, recebeu anistia posteriormente. Tempos depois, ele se tornou o treinador de goleiros do São Paulo.

Uma das consequências mais curiosas do caso envolveu a “fogueteira”, como ficou conhecida Rosimery de Mello, com então 24 anos. Após ter sido identificada por torcedores, ela ficou detida por 24 horas. Dois meses depois, ela posou nua para a revista Playboy antes de desaparecer na obscuridade.

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