July 2, 2010 / 10:51 PM / 7 years ago

ANÁLISE-Ex-seleção da eficiência fracassa na hora da verdade

7 Min, DE LEITURA

<p>Daniel Alves reage ap&oacute;s elimina&ccedil;&atilde;o do Brasil pela Holanda pelas quartas de final da Copa do Mundo.Mike Hutchings</p>

Por Pedro Fonseca

PORT ELIZABETH (Reuters) - Dunga chegou à seleção brasileira após a derrota nas quartas de final da Copa da Alemanha com a promessa de reformular o time, dentro e fora de campo, para recolocar o Brasil como melhor do mundo. Com a justificativa de que vencer é melhor que jogar bem, o treinador transformou a equipe numa seleção pragmática, apenas para ser eliminada na África do Sul da mesma forma que no Mundial anterior.

Os títulos da Copa América 2007 e Copa das Confederações 2009 e o primeiro lugar nas eliminatórias sul-americanas devolveram o Brasil ao topo do ranking mundial antes da Copa, mas o futebol de resultado e eficiência, sem espaço para talentos como Ronaldinho Gaúcho e Neymar, atraiu críticas por descaracterizar a forma de jogar da seleção.

Até a derrota desta sexta-feira para a Holanda, por 2 x 1, o treinador sempre justificou-se com as vitórias, mas a nova eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo significa que de nada adiantou o esforço do treinador em fazer da seleção brasileira um time sem brilho, isolado do público e da imprensa, que sempre teve dificuldades para superar adversários fechados na defesa -- fosse Bolívia, Venezuela ou Coreia do Norte.

A eliminação precoce evidenciou justamente a principal crítica que se fez a Dunga assim que o treinador anunciou seus 23 escolhidos para o Mundial: a falta de opções no banco de reservas.

No lugar de jogadores ofensivos que poderiam resgatar a seleção numa situação desfavorável, como aconteceu no segundo tempo contra a Holanda, o treinador recheou o time de volantes -- nenhum dos quais escolhido por ele para entrar no decorrer da partida contra os holandeses depois que a seleção estava perdendo.

"Ele (Dunga) começou com essa história de grupo fechado. É uma tremenda besteira. Seleção é para os melhores. Com essa filosofia, deixou de fora os meninos do Santos, que estavam voando, e jogadores experientes, que numa Copa sempre fazem falta", disse à Reuters o capitão do tri de 1970, Carlos Alberto Torres.

FALTA DE OPÇÕES

As duas melhores opções que Dunga teria estavam indisponíveis para o último jogo da seleção no Mundial. Daniel Alves, o 12o titular brasileiro e que já tinha salvado o treinador em outras ocasiões, como na semifinal da Copa das Confederações quando marcou o gol da vitória sobre a África do Sul, foi escalado como titular no lugar de Elano, lesionado, enquanto Ramires, que poderia aumentar a velocidade do time, estava suspenso.

Sem Elano e Ramires, Dunga não teve a quem recorrer depois que o Brasil levou a virada num segundo tempo desastroso para a equipe, que foi para o intervalo vencendo por 1 x 0 mas que, além dos dois gols, ainda teve Felipe Melo expulso na etapa final.

A falta de um banco forte não teria ficado tão evidenciada se os principais jogadores da equipe titular tivessem atuado o que Dunga esperava, principalmente Kaká. O camisa 10, no entanto, se despede da África do Sul sem ter marcado um gol sequer e ainda com a primeira expulsão da carreira com a seleção, no jogo da primeira fase contra a Costa do Marfim.

Luís Fabiano, que terminou o Mundial como artilheiro do Brasil, com três gols, esteve mal diante dos holandeses, e Robinho, o jogador mais regular da equipe durante a competição, não conseguiu chamar a responsabilidade para si e resolver a partida quando o time precisou.

Fim De Uma Era

Assim como já acontecera nas eliminatórias, quando empatou sem gols jogando em casa contra Bolívia, Venezuela e Colômbia, a seleção brasileira voltou a apresentar no Mundial dificuldades para atacar equipes fechadas na defesa.

Logo na estreia contra a fraca seleção da Coreia do Norte, apenas a 105a colocada no ranking da Fifa, o Brasil passou apertado por 2 x 1, só tendo conseguido abrir o marcador graças a um lindo chute de Maicon 10 minutos depois do intervalo. Contra Portugal, no encerramento da primeira fase, 0 x 0 em um jogo truncado e praticamente sem chances de gol.

Diante de Costa do Marfim, no segundo, e Chile, nas oitavas de final, a seleção conseguiu colocar em prática o estilo de jogo que mais teve sucesso sob o comando de Dunga, o contra-ataque. Apesar de ter conseguido suas duas melhores vitórias na competição, o Brasil perdeu dois jogadores que fizeram falta contra a Holanda. Elano deixou o campo carregado contra os marfinenses após levar uma entrada de Tioté, que significou o fim de sua participação no Mundial, enquanto Ramires recebeu contra o Chile seu segundo cartão amarelo na Copa.

Fora de campo, Dunga também mudou a forma de ser da seleção brasileira. Antes descontraída e muito mais acessível ao público e à mídia que as equipes europeias, por exemplo, o Brasil passou a ser um time isolado, o que causou seguidos atritos do treinador com a imprensa.

Em 42 dias de concentração para a Copa do Mundo, desde o início da preparação em Curitiba, apenas dois jogadores brasileiros concediam entrevista a cada dia, à exceção dos dias de jogos, uma mudança radical em relação à liberdade que os atletas tinham com a imprensa em Mundiais passados.

A justificativa encontrada pelo treinador e pela comissão técnica sempre foi o período de preparação na cidade suíça de Weggis antes da Copa de 2006, quando a ampla liberdade de acesso aos jogadores tanto por parte da imprensa como do público foi vista como responsável em parte pelo desempenho ruim do time no Mundial.

A mudança de tratamento, no entanto, não significou qualquer melhora dentro de campo. Tanto a equipe de Carlos Alberto Parreira há quatro anos como o time de Dunga perderam nas quartas de final. E ambos deixaram a equipe na sequência.

"Quanto ao meu futuro, desde que eu cheguei na seleção todo mundo sabia que seria quatro anos que eu iria ficar", disse Dunga após a eliminação.

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