F1 chega à Índia ignorando os pobres

terça-feira, 25 de outubro de 2011 14:13 BRST
 

Por Alistair Scrutton

SALARPUR, Índia (Reuters) - A primeira corrida de Fórmula 1 na Índia, neste fim de semana, celebrará com muito brilho o surgimento de uma nova potência econômica, mas deixará de fora gente como Meera, encontrada pela reportagem estava de pé junto a um lago fétido, carregando no colo uma criança coberta de verrugas, bem perto do novíssimo autódromo.

"O que é essa Fórmula 1? Só recentemente eu soube que parte das nossas terras foi adquirida para isso", disse Meera (um só nome), mãe de quatro filhos. À distância, era possível ver os holofotes do circuito, que custou 400 milhões de dólares e pode receber 100 mil espectadores.

Simpatizantes da prova dizem que ele é um sinal de que a iniciativa privada indiana é capaz de organizar eventos tecnológicos complexos e de caráter global. Mas a chegada da F1 à Índia reacendeu um debate sobre até que ponto o país deve abraçar a globalização.

Para os críticos, trata-se de uma distorção do crescimento econômico e de um evento elitista, sem ligação com a cultura local, com ingressos a valores inacessíveis para a ampla maioria dos 1,2 bilhão de indianos.

Por enquanto, no entanto, esses questionamentos estão abafados pelo frenesi midiático. O envolvimento de Lady Gaga e de astros do críquete e de Bollywoood talvez ajude a Índia a recuperar sua autoconfiança depois do recente vexame na organização dos Jogos da Commonwealth, em 2010.

Sob comando da Jaypee Sports International, subsidiária da empreiteira Jaypee Group, o autódromo ficou pronto no prazo e sem estouro orçamentário nem denúncias de corrupção - problemas recorrentes nos Jogos da Commonwealth, organizados pelo governo.

"A percepção do mundo sobre a Índia vai mudar depois do Grande Prêmio, e as pessoas vão esquecer do que aconteceu por causa dos Jogos da Commonwealth", disse Jaiprakash Gaur, presidente e fundador do Jaypee Group, à imprensa local.

O imenso mercado indiano já vinha atraindo as atenções de entidades esportivas internacionais, e também de grandes clubes europeus de futebol. Mas o país continua atrás de outras grandes nações emergentes - a China realizou uma brilhante Olimpíada em 2008, o Brasil vai promover a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016, e a Rússia será a sede da Copa de 2018.   Continuação...

 
Trabalhador observa Circuito Internacional Buddh, onde será realizada a primeira corrida da Fórmula 1 na Índia, nos arredores de Délhi. A corrida, neste fim de semana, celebrará com muito brilho o surgimento de uma nova potência econômica, mas deixará de fora grande parte da população mais pobre.
18/10/2011   REUTERS/Parivartan Sharma