10 de Novembro de 2011 / às 19:24 / em 6 anos

ANÁLISE-Dia do fico de Neymar eleva status do futebol no Brasil

Por Pedro Fonseca

Neymar assina seu novo contrato com Santos, em 9 de novembro. REUTERS/Ricardo Saibun/Santos FC/Divulgação

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Quando o Brasil conquistou o último de seus cinco títulos mundiais em 2002, era inimaginável pensar que algum dos três maiores destaques daquele time --Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho-- pudessem jogar em um clube brasileiro, tamanha a diferença de qualidade e dos valores envolvidos no mercado do futebol entre Brasil e Europa.

O anúncio feito por Neymar, o maior jogador do futebol brasileiro na atualidade, de que vai continuar no Santos até a Copa do Mundo de 2014, a ser realizada no país, independentemente do assédio de potências estrangeiras como Barcelona e Real Madrid, é o marco de uma mudança de paradigma. E também mais um sinal do surgimento do Brasil como uma das potências econômicas globais.

De mero fornecedor de matéria-prima para o mercado europeu -- um reflexo no futebol também de seu antigo papel na economia global -- o Brasil passou a ser um cenário atrativo para os anos à frente. Em contraste com o temor de uma recessão que ameaça a zona do euro, a economia brasileira continua em crescimento, e o esporte finalmente parece ter descoberto seu potencial de lucratividade.

Os novos contratos de direitos de transmissão assinados este ano pelos maiores clubes do país com a TV são até 15 vezes superiores ao início dos anos 2000 -- chegando a 85 milhões de reais -- e algumas equipes conseguiram aumentar em até 10 vezes a arrecadação com patrocínio de uniforme e venda de produtos licenciados, segundo especialistas do mercado. Além disso, o real dobrou de valor em relação ao dólar desde 2003, reduzindo a diferença dos salários pagos no Brasil e no exterior.

“Hoje o futebol brasileiro é outro mundo economicamente. Os clubes agora estão sabendo como ganhar dinheiro e podem pagar bem aos melhores jogadores. O cara hoje só vai para a Europa se quiser mesmo”, disse à Reuters o empresário de jogadores Wagner Ribeiro, agente de Neymar e que foi responsável por intermediar a venda de Robinho do Santos para o Real Madrid, em 2005.

Ao contrário de Robinho, e também dos pentacampeões Ronaldo e Ronaldinho, Neymar não vai precisar deixar o país ainda adolescente para tornar-se milionário e desfrutar dos privilégios de um astro internacional. Num dia de folga esta semana, ele foi fotografado de sunga em um iate de luxo com amigos e mulheres. A Folha de S.Paulo estampou a foto na capa do jornal nesta quinta-feira, com a seguinte manchete: “Europa. Para quê?”

O atacante, de apenas 19 anos, é o único jogador que não atua na Europa entre os 23 indicados ao prêmio Bola de Ouro da Fifa deste ano, e passará a ganhar estimados 3 milhões de reais por mês entre salário e acordos de patrocínio com o novo contrato firmado com o Santos -- o que o coloca entre os mais bem pagos do futebol mundial.

“São escolhas que a gente tem que fazer na vida e a minha foi continuar no Santos”, disse um sorridente Neymar, de boné e com uma camisa com a frase escrita em inglês “É bom ser o rei”, ao anunciar sua renovação com o Santos na quarta-feira.

Muito ligado à família, principalmente ao pai e mentor também chamado Neymar, o jogador citou seu filho de quase três meses - fruto de um relacionamento passageiro com uma jovem quase da mesma idade - como mais um motivo para continuar jogando no Brasil e morando em Santos. Não são raros casos de jogadores brasileiros considerados promessas que voltam da Europa sem conseguir sucesso alegando saudades de casa.

Sua permanência no país até a Copa do Mundo de 2014, que foi comemorada nas redes sociais por torcedores de todo o Brasil que são fãs do talento impressionante de Neymar com a bola nos pés, pode contar inclusive com apoio do governo federal. Duas empresas estatais -- Banco do Brasil e Correios -- estão próximas de fechar acordos de patrocínio com o jogador, segundo fontes ligadas às transações.

“O Neymar é um dos principais ídolos do esporte no Brasil, que tem potencial para mobilizar o público jovem e grande capacidade de comunicação em campanhas de massa”, informou o banco por email respondendo a questionamento sobre a negociação com Neymar.

Para o presidente do Santos, Luís Alvaro de Oliveira Ribeiro, a decisão de Neymar de rejeitar a Europa, ao menos por ora, para ficar no clube, repete o que foi feito pelo maior ídolo do Santos e do Brasil em todos os tempos, Pelé.

“O Neymar está seguindo os passos do Pelé. Ele está fazendo história permanecendo no Brasil, apesar de todas as ofertas tentadoras, que como na época do Pelé vinham do exterior a cada dia. O Santos resistiu naquela época, o Pelé resistiu e o Neymar está resistindo também.”

EFEITO COPA DO MUNDO

Mesmo antes de assegurar que seu maior jogador da atualidade continue no país, o futebol brasileiro já tinha dado provas de que estava ingressando em uma nova fase de prosperidade enquanto se prepara para a Copa do Mundo quando grandes nomes como Ronaldo, Adriano e Ronaldinho voltaram ao país após brilharem em clubes europeus.

A organização de um Mundial no país pela primeira vez desde 1950 foi o grande catalisador dos investimentos que permitiram essa mudança de status do futebol brasileiro, na avaliação do especialista de marketing esportivo José Carlos Brunoro, da Brunoro Sport Business.

“É sintomático o efeito da Copa, os olhos do mundo se voltam para cá, as pessoas começam a olhar o futebol daqui. Em função da Copa as empresas começaram a enxergar o futebol brasileiro num todo, não apenas relacionado à Copa do Mundo, mas os clubes também, e passaram a ver nisso uma excelente forma de publicidade”, disse ele à Reuters.

“A vinda do Ronaldo mostrou que é possível ter os craques aqui se você fizer um belo projeto financeiro”, acrescentou.

Ronaldo, três vezes eleito o melhor do mundo pela Fifa e maior artilheiro da história das Copas do Mundo, abriu o caminho de volta ao chegar em 2009 ao Corinthians, em um acordo até então inédito, com a maior parte de seu pagamento proveniente de acordos de patrocínio -- mesmo molde do novo contrato de Neymar.

Enquanto Ronaldo voltou para encerrar a carreira, o que aconteceu este ano, Ronaldinho trocou o Milan pelo Flamengo em janeiro com o objetivo de recuperar seu bom futebol e lutar por uma vaga na seleção brasileira para a Copa do Mundo no Brasil, o que ele parece a caminho de conseguir.

Se Ronaldinho mantiver nos próximos anos as boas atuações que fizerem dele um dos destaques do futebol nacional este ano, é possível que dois dos maiores nomes da seleção brasileira no Mundial de 2014 sejam jogadores de clubes do país -- e não de Barcelona, Inter de Milão e Paris St. Germain como na Copa de 2002.

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