4 de Dezembro de 2011 / às 12:28 / em 6 anos

Ex-capitão da seleção, Sócrates morre aos 57 anos

Meia Sócrates, durante jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1986, no México: jogador morreu em São Paulo neste domingo aos 57 anos. REUTERS/Wolfgang Rattay/Files

Por Tatiana Ramil

SÃO PAULO (Reuters) - Capitão da seleção brasileira de 1982, Sócrates, o “Calcanhar de Ouro” e reconhecido como um dos maiores jogadores de sua geração, morreu neste domingo aos 57 anos, em virtude de um choque séptico, segundo boletim médico.

Fumante e consumidor de álcool, mesmo nos tempos de jogador, Sócrates estava internado e respirava com a ajuda de aparelhos em um hospital em São Paulo desde quinta-feira, quando confirmou-se que ele havia sofrido uma infecção alimentar.

“O (hospital) anuncia com profundo pesar o falecimento do ex-jogador Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira às 4h30 (horário de Brasília) em consequência de um choque séptico”, disse o boletim.

Sócrates, que era formado em medicina e conhecido por Doutor, já havia passado por três internações desde agosto, quando passou nove dias no hospital devido a uma hemorragia digestiva provocada pelo abuso de álcool.

O ex-meiocampista, que jogou pela seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1982 e 1986, passou 17 dias no hospital em setembro, com problemas no fígado, e foi cogitada a necessidade de um transplante.

“Sócrates foi um parceiro, um grande amigo, ele era uma figura daquelas que o futebol vai sentir saudades por tudo que ele representou”, disse o amigo e ex-colega de seleção Júnior à Reuters, por telefone de sua casa no Rio de Janeiro.

“Quem conviveu com ele pôde desfrutar de uma pessoa especial que ele era, inteligente, culto, divertido, craque de bola. É uma figura do tipo difícil de se encontrar no mundo do futebol”, acrescentou o lateral-esquerdo da seleção em 1982 e 1986.

“MAGRÃO”

Nascido em 19 de fevereiro de 1954, em Belém, Sócrates começou no Botafogo de Ribeirão Preto, onde tornou-se o destaque do time, embora conciliasse o futebol com o curso de medicina.

Ele integrou-se ao Corinthians em 1978, onde permaneceu por seis anos.

Barbudo, esguio e popularmente conhecido como “Magrão”, Sócrates fez parte de uma geração de ouro do Brasil, que incluía Zico, Júnior, Falcão e Éder.

O Corinthians, clube favorito na disputa do título brasileiro neste domingo, divulgou em nota:

“Hoje, que seria um dia apenas de alegria pela decisão do Brasileirão, começou triste para o futebol brasileiro, principalmente para os corinthianos”.

“O Sport Club Corinthians Paulista e toda a sua Fiel Torcida se despedem com tristeza do Magrão, mas também ficamos agradecidos pela honra de ter visto um dos maiores jogadores da história do futebol vestindo o manto alvinegro por tantos jogos.”

“Obrigado pelos lindos gols, pelos toques geniais, pelo futebol magistral que só Sócrates tinha”, disse um comunicado do clube em seu site na Internet (www.corinthians.com.br).

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou que será feito um minuto de silêncio antes do início dos jogos deste domingo, na rodada final do Campeonato Brasileiro.

O brilhante time brasileiro de 1982 é considerado um dos melhores da história que não conquistaram a Copa do Mundo, após uma inesperada derrota na segunda fase do torneio para os italianos, que se tornariam campeões na Espanha.

Exímio passador e com grande visão de jogo, ele ganhou o apelido de “Calcanhar de Ouro” por ter um estilo de jogo único ao usar o calcanhar para criar efeito no passe e marcar gols memoráveis com os dois pés.

Sua precisão e estilo na cobrança de pênaltis, com um estilo que se diferenciava do tradicional formato de correr e chutar direto para o gol, não surtiu efeito em 1986, quando o Brasil perdeu para a França nas quartas-de-final, nos pênaltis, após sua cobrança ter sido defendida.

Vencedor de 60 jogos com a seleção brasileira, com 21 gols marcados, Sócrates também era conhecido por suas posições firmes em temas ligados ao futebol e à política.

ASTÚCIA POLÍTICA

O ex-treinador da seleção brasileira Carlos Alberto Parreira, que comandou Sócrates em 1983 e 1984, disse a Reuters: “Era o mais ïntelectualizado dos jogadores com os quais trabalhei. Era muito inteligente, objetivo e tinha opiniões muito proprias e definitivas sôbre qualquer assunto e, principalmente, sôbre polïtica”.

“Dentro de campo foi genial. Marcou uma geração com a qualidade técnica e inteligencia do seu futebol. Foi um idolo de clubes e da selecão onde marcou e fez parte da famosa seleção de 1982. Foi um dos grandes icones daquele time que encantou o mundo.”

No Corinthians, durante o período do governo militar, Sócrates atuou como forte liderança na Democracia Corinthiana, movimento em que todos os assuntos do clube eram decididos pelo voto de diretores, comissão técnica e jogadores.

O time mandava mensagens ao governo brasileiro, levando cartazes nos jogos com frases como “Diretas Já” ou “Quero votar para Presidente”.

Sócrates teve uma rápida e difícil passagem pela Itália, na Fiorentina e, após sofrer com o frio em um momento excêntrico de sua carreira, também fez uma breve aparição como jogador, em 2004, como substituto pelo clube amador Garforth Town.

Tempos depois, ele participava de seminários sobre liderança e relacionamento interpessoal, enquanto atuava na medicina e trabalhava em um livro de ficção sobre a Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil.

O ex-presidente Lula afirmou: “O doutor Sócrates foi um craque no campo e um grande amigo. Foi um exemplo de cidadania, inteligência e consciência política, além de seu imenso talento como profissional do futebol”.

“A contribuição generosa de Sócrates para o Corinthians, para o futebol e para a sociedade brasileira jamais será esquecida. Neste momento de tristeza, prestamos solidariedade a esposa, familiares e amigos do Doutor”, disse Lula, torcedor do Corinthians, em nota.

A presidente Dilma Rousseff também manifestou pesar pela morte de Sócrates, a quem chamou de “campeão da cidadania”. “Fora dos campos, nunca se omitiu. Foi um brasileiro atuante politicamente, preocupado com o seu povo e o seu país”, disse Dilma em nota divulgada pelo site da Presidência da República.

Reportagem adicional de Pedro Fonseca, no Rio de Janeiro

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