March 12, 2012 / 3:58 PM / 5 years ago

Teixeira deixa presidência da CBF após 23 anos

7 Min, DE LEITURA

Ricardo Teixeira vai à cerimônia de despedida do atacante Ronaldo em São Paulo. Teixeira renunciou à presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), segundo carta do dirigente à entidade divulgada nesta segunda-feira. Ele também deixa o comando do Comitê Organizador Local (COL) da Copa de 2014. Foto de arquivo. 06/06/2011Nacho Doce

Por Rodrigo Viga Gaier

RIO DE JANEIRO, 12 Mar (Reuters) - Nome forte do futebol brasileiro há 23 anos, Ricardo Teixeira renunciou à presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014.

O anúncio foi feito em carta enviada à entidade que lidera o futebol brasileiro divulgada nesta segunda-feira, e vem em um momento de atritos entre governo e Fifa sobre os preparativos do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014.

"Deixo definitivamente a presidência da CBF com a sensação de dever cumprido", escreveu Teixeira, de 64 anos, em carta lida por José Maria Marin, ex-vice-presidente da confederação para a Região Sudeste, que assumira temporariamente a entidade com a licença de Teixeira anunciada na quinta-feira e agora passa a chefiar oficialmente a CBF até 2015.

"Presidir paixões não é uma tarefa fácil em nosso país. Futebol é associado a duas imagens: talento e desorganização. Quando ganhamos exaltam o talento, quando perdemos, a desorganização. Fiz o que estava ao meu alcance, renunciei à saúde. Fui criticado nas derrotas e subvalorizado nas vitórias", acrescentou Teixeira, que assumiu o cargo em 1989.

Marin ficará no comando da CBF, em princípio, até o fim do mandato atual em 2015. O dirigente, de 79 anos, também presidirá o Comitê Organizador Local (COL) da Copa de 2014.

A renúncia de Teixeira foi comemorada pelo ex-jogador Romário, que se tornou desafeto do agora ex-dirigente desde que assumiu uma cadeira de deputado pelo PSB do Rio de Janeiro.

"Hoje podemos comemorar. Exterminamos um câncer do futebol brasileiro. Finalmente, Ricardo Teixeira renunciou à presidência da CBF", disse o ex-jogador em sua conta no site de relacionamento Facebook.

O ex-jogador, campeão mundial com a seleção em 1994, aproveitou para alfinetar Marin, lembrando o episódio em que foi flagrado colocando no bolso uma medalha durante a cerimônia de premiação da Copa São Paulo de Futebol Júnior, vencida pelo Corinthians.

"Espero que o novo presidente... o que furtou a medalha do jogador do Corinthians na Copa São Paulo de Juniores, não faça daquele ato uma constante na confederação. Senão, teremos que exterminar a Aids também."

Pelo estatuto da entidade, em caso de licença por tempo determinado, Teixeira poderia escolher um dos cinco vice-presidentes regionais da entidade. Mas, em caso de vacância permanente, o estatuto determina que o vice presidente mais velho assuma, no caso Marin.

Marin, no entanto, está longe de ser unanimidade entre as federações estaduais, o que pode levar à convocação de eleições para a escolha de um novo presidente da entidade.

Em sua primeira entrevista coletiva como presidente da CBF, Marin, que governou São Paulo por 10 meses no início dos anos 1980 durante o Regime Militar, prometeu dar continuidade ao trabalho de Teixeira à frente da CBF e revelou que rejeitou um pedido de demissão coletiva de todos os diretores da CBF após a renúncia de Teixeira.

"Vou dar continuidade a uma gestão respeitada em todo o mundo. Se eles são da confiança de Ricardo Teixeira, são da minha confiança também e pedi que continuassem", disse.

O novo chefe da CBF e do COL também minimizou o episódio das medalhas na final da Copa São Paulo. "Foi uma cortesia da FPF (Federação Paulista de Futebol). Isso é uma verdadeira piada", disse.

O Ministério do Esporte divulgou nota curta sobre a troca de comando na CBF. No comunicado, o titular da pasta, Aldo Rebelo, se limita a dizer que o ministério segue comprometido em trabalhar em conjunto com o COL para a realização da Copa.

"Seguiremos trabalhando em harmonia para o êxito das tarefas comuns necessárias ao sucesso do evento", afirma a nota do ministério.

Lateral-esquerdo da seleção nas Copas de 1982 e 1986, Júnior comentou a saída de Teixeira e disse esperar que os clubes sejam mais valorizados na nova gestão da entidade. "Os clubes neste período ficaram mais enfraquecidos porque faltou uma tutela da CBF", afirmou ele à Reuters.

denúncias E polêmicas

Teixeira havia pedido licença médica da CBF na quinta-feira passada, sem informar por quanto tempo. Marin estava, desde então, na presidência da CBF.

Com histórico de problemas cardíacos, Teixeira chegou a ser internado no final do ano passado por conta de dores abdominais em um hospital do Rio. Na época chegou-se a dizer que o agora ex-presidente da CBF sofria de diverticulite.

Sem interlocução com a presidente Dilma Rousseff nos preparativos do país para sediar a Copa do Mundo, Teixeira vinha sendo alvo de rumores sobre seu afastamento do comando do futebol brasileiro desde fevereiro.

O dirigente também colecionou atritos com a Fifa, entidade que comanda o futebol mundial e da qual é membro do comitê executivo. Ele chegou a entrar em rota de colisão com o presidente da entidade, Joseph Blatter, ao sinalizar apoio ao candidato de oposição na eleição para o comando do órgão no ano passado.

Para Christopher Gaffney, consultor esportivo e professor da Universidade Federal Fluminense, a falta de apoio no governo Dilma combinada com uma "perda de poder" dentro da Fifa culminaram com a renúncia de Teixeira.

"Cortamos a cabeça da serpente, mas a serpente ainda vive. Tem que usar isso (saída de Teixeira) como alavanca para abrir as caixas-pretas", disse ele, defendendo uma reestruturação política no futebol brasileiro através de uma interferência governamental.

Alvo de denúncias de irregularidades no comando do futebol brasileiro, Teixeira acabou sendo investigado pela Polícia Federal por suspeita de crimes de remessa ilegal de dinheiro ao Brasil e lavagem de dinheiro.

A denúncia se refere ao caso da falência da empresa de marketing esportivo ISL. Teixeira estaria entre dirigentes que supostamente receberam propina da empresa nos anos 1990 para garantir contratos lucrativos de direitos de TV e patrocínios de Copa do Mundo.

A ISL faliu em 2001. A Fifa prometeu em outubro divulgar os dados de um processo na Justiça suíça sobre o tema.

Em 2000, Teixeira depôs na Comissão Parlamentar de Inquétito que investigou os contratos da CBF com sua patrocinadora e fornecedora de material esportivo Nike. À época, o relator da comissão era o então deputado federal e hoje ministro do Esporte, Aldo Rebelo.

Durante o período de Teixeira à frente da CBF, foram disputados seis Mundiais e a seleção brasileira conquistou troféus, como as Copas do Mundo de 1994 -a primeira em 24 anos- e a de 2002. Foram ainda cinco títulos da Copa América, três da Copa das Conferedações, além de diversas taças conquistadas pelas seleções de base.

Colecionou também algumas decepções nos gramados, como a eliminação da badalada seleção de 2006, que muitos críticos atribuíram à falta de organização, e a não conquista da medalha de ouro olímpica, único título que falta na galeria da seleção.

Reportagem adicional de Tatiana Ramil

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