27 de Julho de 2012 / às 12:27 / 5 anos atrás

Em toda a Grã-Bretanha, sinos tocam pela Olimpíada

Por Mike Collett-White

LONDRES, 27 Jul (Reuters) - Sinos tocaram nesta sexta-feira em toda a Grã-Bretanha para anunciar o final da contagem regressiva para os Jogos Olímpicos de Londres, que começam à tarde com uma exuberante e excêntrica cerimônia que celebrará a nação numa festa de dança, música e fogos de artifícios, inspirada em "A Tempestade", de William Shakespeare.

O espetáculo de três horas, com início às 21 horas locais (17 horas em Brasília) e criado pelo cineasta Danny Boyle (de "Quem Quer Ser Um Milionário?", levará o espectador em uma viagem pelo idílico interior britânico e pela fuligem da Revolução Industrial, culminando com uma explosão da cultura pop.

O evento será visto por 60 mil pessoas no Estádio Olímpico de Stratford, construído numa zona antes deteriorada do leste de Londres, e por mais de 1 bilhão de pessoas pela TV no mundo todo. O primeiro-ministro David Cameron disse que alguns trechos darão "frio na espinha".

O público será convidado a cantar junto em alguns trechos e a participar da criação do espetáculo visual, que dará o tom para uma celebração esportiva com 16 mil atletas de 204 países. A cidade espera receber 11 milhões de visitantes.

A Olimpíada responde também uma pergunta que há sete anos está na boca dos britânicos - se valeu a pena gastar 14 bilhões de dólares no planejamento e construção de instalações, durante uma das piores recessões da história nacional, além dos transtornos causados pelas obras.

"Há uma enorme sensação de entusiasmo e ansiedade, porque a Grã-Bretanha está pronta para receber o maior espetáculo da Terra", disse Cameron. "Este é um grande momento para o nosso país, então temos de aproveitar."

Mas houve tropeços no caminho.

Até recentemente, a cobertura da imprensa foi dominada pela admissão, feita pela empresa G4S, de que não teria como contratar e mobilizar suficientes seguranças para as instalações olímpicas, apesar de ter assinado um contrato de milhões de libras para fazer isso. Milhares de soldados precisaram ser mobilizados de última hora para preencher a lacuna.

Autoridades de contraterrorismo minimizam o risco de um atentado durante o evento, e Cameron disse que fazer uma Olimpíada segura é a sua prioridade.

"Esta é a maior operação de segurança na nossa história em tempos de paz, sem exceção, e não estamos deixando nada ao acaso", declarou.

Há sete anos, atentados de extremistas islâmicos nos transportes públicos londrinos mataram 52 pessoas. A Olimpíada deste ano marca o 40o aniversário do massacre de 11 atletas olímpicos israelenses por militantes palestinos durante os Jogos de Munique-72. Houve propostas para que a efeméride fosse lembrada durante a cerimônia de abertura, mas os organizadores rejeitaram.

Existem queixas também por causa do tráfego congestionado no centro de Londres e dos atrasos no sistema ferroviário britânico.

No aspecto estritamente esportivo, a reta final para o evento foi marcada por escândalos de doping, e pelo menos 11 atletas já foram excluídos. A saltadora grega Paraskevi Papachristou também não irá a Londres, mas por outro motivo: um comentário supostamente racista feito pelo Twitter.

E, antes mesmo de começar oficialmente, a Olimpíada já teve um incidente diplomático, quando a bandeira da Coreia do Sul foi mostrada num telão antes da partida entre Coreia do Norte e Colômbia, pelo torneio do futebol feminino. Revoltadas, as norte-coreanas deixaram o campo, e a partida começou com mais de uma hora de atraso.

ILHAS DAS MARAVILHAS

Tudo isso deve ser esquecido quando as atenções do mundo se voltarem para a cerimônia de abertura. O espetáculo terá mais de três horas.

Boyle pediu nesta semana aos 10 mil participantes do ensaio que mantivessem segredo, mas alguns elementos da festa já são de domínio público.

A primeira parte, intitulada "Ilhas das Maravilhas", começa com a recriação de um idílio rural, com direito a campos, sebes, ovelhas, gansos, um cavalo de carga, pastoras e até um jogo de críquete numa aldeia britânica.

O clima então fica mais sombrio, quando a "terra verde e agradável da Inglaterra", tal qual descrita num poema de William Blake, dá lugar às enegrecidas chaminés e à fumaça das atividades metalúrgicas, alusivas às "negras Usinas Satânicas" que evocam o ambiente urbano do século 19 descrito por Charles Dickens.

Depois, a música britânica vira protagonista, numa psicodélica celebração da cultura pop, com espaço também para séries de TV e os clássicos do cinema. Ciclistas com "asas" iluminadas circundarão a arena, criando um deslumbrante efeito para as câmeras suspensas na cobertura do estádio.

A ode de Boyle ao Serviço Nacional de Saúde, um tema politicamente polêmico na Grã-Bretanha, onde muitos permanecem ligados ao ideal do estado do bem-estar, pode fazer menos sentido para quem estiver assistindo de longe.

Mas o show do encerramento, a cargo do ex-Beatle Paul McCartney, terá um apelo global.

Boyle fará um espetáculo muito diferente do show grandioso e rigidamente coreografado visto há quatro anos em Pequim. Ele teve uma verba de 27 milhões de libras (42 milhões de dólares), bem menos de metade do que se estima que a China tenha gastado na sua cerimônia.

Ainda há muitos segredos envolvendo a festa, inclusive sobre quem terá a honra de acender a pira olímpica, momento que simboliza a abertura dos Jogos e o final do percurso de 12,9 mil quilômetros da tocha olímpica pela Grã-Bretanha.

Na sexta-feira, a tocha subiu o Tâmisa a bordo da barcaça real Gloriana, que foi usada em junho no Jubileu de Diamante da rainha Elizabeth 2a.

A monarca de 86 anos estará na plateia, junto com a primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e vários outros dignitários e celebridades.

Após alguns jogos de futebol na quarta e quinta-feira, e de etapas de ranqueamento no tiro com arco, nesta sexta, as competições começam para valer no sábado, quando o britânico Mark Cavendish é favorito para o ouro no ciclismo de estrada. Seria um começo perfeito para a nação anfitriã, numa Olimpíada em que o quadro de medalhas deve ser novamente dominado por China, EUA e Rússia.

Reportagem adicional de Stephen Addison, Gene Cherry, Guy Faulconbridge, Vincent Fribault, Peter Griffiths

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