30 de Agosto de 2012 / às 16:18 / em 5 anos

ENTREVISTA-Olimpíada no Brasil vai sair bem. Já a Copa..

Por Brian Winter

RIO DE JANEIRO, 30 Ago (Reuters) - O Brasil está tentando realizar um “salto triplo” sem precedentes em projetos de construção -- preparar-se para sediar a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016, ao mesmo tempo em que gastará quase 1 trilhão de reais na próxima década em rodovias e outros investimentos em infraestrutura para impulsionar a economia.

O crescente consenso é que o primeiro passo pode ser complicado.

Enquanto a Olimpíada será quase completamente concentrada no Rio de Janeiro, e portanto mais facilmente administrada, a Copa do Mundo será realizada em 12 cidades -- a maioria das quais com desafios financeiros e logísticos pela frente para concluir estádios e outras construções a tempo.

Talvez nenhuma outra companhia tenha uma visão mais próxima desses problemas do que a Odebrecht , o conglomerado gigantesco privado que está construindo quatro estádios da Copa do Mundo, além do Parque Olímpico, da Vila Olímpica e vários outros projetos para a Rio-2016.

E para eles, o contraste é claro.

“Os projetos centrais da Olimpíada estão ativos”, disse Benedicto Barbosa da Silva Júnior, presidente-executivo da unidade de infraestrutura da Odebrecht, numa rara entrevista nesta semana. “Não tenho dúvidas de que tudo estará pronto a tempo... Se você passa pelas áreas destinadas à Olimpíada hoje, você vê os avanços”.

“Hoje, eu estou mais preocupado com a Copa do Mundo do que com a Olimpíada”, disse.

As preparações para os Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim também foram atormentadas por preocupações a respeito do estado das principais instalações, assim como na Copa do Mundo de 2010 na África do Sul e a recém-terminada Olimpíada de Londres -- e quase a totalidade desses eventos não enfrentou problemas.

Ainda assim, o fato de o Brasil ter de lidar com eventos grandes tão próximos --dado que o país, ao contrário da China, é uma democracia lenta e teve dificuldades para executar grandes projetos de infraestrutura nos últimos 30 anos-- parece preocupar autoridades do Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Fifa.

Numa visita ao Rio em junho, membros do COI disseram que “os cronogramas já são bastante apertados, e a quantidade de trabalho a ser concluído é considerável”.

O secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, foi ainda mais explícito em março, afirmando que o Brasil precisava de um “chute no traseiro” para estar pronto para 2014 -- um comentário que desencadeou uma crise diplomática com o Brasil, seguido por um pedido de desculpas da Fifa.

Júnior descreveu as preocupações do COI como um “recado”, mas disse que muitos dos atrasos nas construções relacionadas à Olimpíada são, de fato, um produto de planejamento bom e responsável.

Ele disse que os governos municipal, estadual e federal têm insistido, com razão, em projetos detalhados e estimativas de custos como uma condição para começar a construção, esperando evitar a experiência dos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio, cujos custos superaram o orçamento em seis vezes, de acordo com algumas estimativas.

“Essa é uma nova experiência”, disse Júnior. “Anteriormente no Brasil, (as empresas) teriam começado o projeto e dito, ‘OK, mais tarde vamos ver quanto custa’. Hoje, o governo quer ter certa segurança de que os números estejam dentro de uma margem de erro aceitável para todos, para não repetir a experiência dos Jogos Pan-Americanos”.

“Demonstra maturidade”, disse, estimando que menos de 10 por cento dos projetos relacionados aos Jogos Olímpicos ainda estão aguardando a concessão de contratos de construção pelo governo.

ODEBRECHT EM TODO LUGAR

É difícil exagerar sobre a onipresença da Odebrecht no Brasil -- e particularmente, no Rio. Placas de construção com o nome da empresa em grandes letras maiúsculas vermelhas podem ser vistas em toda a cidade, da histórica zona portuária que passa por revitalização aos novos prédios empresariais e residenciais.

Com 160 mil funcionários em 27 países, o conglomerado --que também inclui holdings petroquímicas, de defesa e de biocombustíveis-- registrou 38 bilhões de dólares em receita no ano passado. É quase o quádruplo de sua receita em 2005, e aproximadamente igual à produção econômica anual da Costa Rica.

A família que gere a empresa tem mais de um século de experiência com projetos públicos, desde que Emil Odebrecht emigrou da Alemanha na década de 1850 e começou a construir estradas no sul do Brasil. Nos anos recentes, o conglomerado beneficiou-se de uma boa relação junto ao PT, cujo governo tem tentado criar “campeões nacionais” entre companhias brasileiras.

Ainda assim, a Odebrecht não é imune aos problemas do Brasil.

Altos custos de matérias-primas e outros insumos, atrasos burocráticos, opções limitadas de financiamento e falta de mão-de-obra qualificada atormentam o setor brasileiro de construção e prejudicam os resultados de várias companhias.

Júnior apresentou uma lista de problemas que têm afetado os projetos da Odebrecht relacionados à Copa do Mundo. A companhia ainda está tentando firmar um acordo de financiamento para o novo estádio em São Paulo -- embora ele já esteja quase 50 por cento concluído. Enquanto isso, ele disse que a Odebrecht está pagando pela construção “jogando o próprio dinheiro na mesa”, junto com o Corinthians, que ficará com o estádio quando a Copa acabar.

“Todos os estádios ficarão prontos a tempo”, disse Júnior. “Mas o cronograma é acelerado”.

BUSCANDO APOIO DOS BANCOS

Júnior disse que uma forma de acelerar as coisas seria ter opções de financiamento mais diversas.

Atualmente o BNDES oferece a maior parte do financiamento para as obras de infraestrutura no Brasil, com taxas de juros subsidiadas que os bancos privados se negam a oferecer por temor do baixo retorno desses projetos.

“Não vejo o setor privado ocupando esse espaço até que o Brasil crie um mecanismo”, como, por exemplo, um fundo especial que permita ao bancos reunir recursos para financiar infraestrutura, disse Júnior. Segundo reportagens, o Ministério da Fazenda está estudando um mecanismo desse tipo.

Júnior considerou “muito positiva” a recente decisão da presidente de envolver mais o setor privado na construção de rodovias e ferrovias.

No entanto, disse que a taxa média de retorno baixa dos projetos, que o governo estima em torno de 6 por cento, “poderia ser um limitador”.

Apesar dos desafios, Júnior, um engenheiro que há 28 anos trabalha na Odebrecht, confia que o brilho dos eventos esportivos será positivo, principalmente para o Rio de Janeiro, que tem se recuperado ultimamente após anos de decadência.

“O otimismo e o crescimento são o reflexo da imagem de quando eu cheguei aqui pela primeira vez”, disse. “Não é nada menos do que a recuperação da autoestima do Rio.”

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below