25 de Abril de 2013 / às 18:28 / 4 anos atrás

Bola volta a rolar, mas Maracanã não se livra das polêmicas

Vista aérea dos retoques finais da instalação do teto do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, em 9 de abril. Foram quase 900 milhões de reais gastos, adiamentos na entrega da obra, disputa na Justiça e vários protestos, até de índios. 09/04/2013 REUTERS/Ricardo Moraes

Por Pedro Fonseca

RIO DE JANEIRO, 25 Abr (Reuters) - Foram quase 900 milhões de reais gastos, adiamentos na entrega da obra, disputa na Justiça e vários protestos, até de índios. Nos mais de dois anos e meio em que esteve fechado, o Maracanã tornou-se epicentro de polêmicas e deixou o futebol do Rio de Janeiro órfão. A espera pela tão aguardada volta da bola ao gramado se encerra no fim de semana, mas os problemas não.

O novo Maracanã será inaugurado no sábado, com a capacidade total reduzida para 78.639 pessoas após uma reforma completa para adequar a arena construída para a Copa do Mundo de 1950 aos padrões exigidos para o Mundial de 2014. O chamado “templo do futebol” também será palco da decisão, assim como no trágico “Maracanazo” diante do Uruguai na final de 64 anos antes.

Mas, por enquanto, somente o interior ficou pronto e os operários ainda correm contra o tempo para terminar obras do exterior, acabamentos e a pavimentação do entorno do estádio antes do primeiro jogo oficial, o amistoso Brasil x Inglaterra, no dia 2 de junho. Esse será o único evento-teste completo antes da Copa das Confederações, que terá a final realizada lá em 30 de junho.

“Essa reinauguração representa a volta do futebol ao Rio de Janeiro. Nesse período em que o Maracanã ficou fechado o Rio perdeu seu ícone do futebol e todo carioca se sentiu meio órfão de um lugar que faz parte da história”, disse à Reuters o artilheiro do Maracanã, Zico, autor de 333 gols no estádio.

“O Maracanã é o grande palco do futebol do Rio de Janeiro e agora está reabrindo num momento importante, com a Copa do Mundo e a Copa das Confederações”, acrescentou o ex-jogador do Flamengo e da seleção brasileira, em entrevista por telefone.

O jogo de sábado será entre os times dos amigos de Ronaldo e Bebeto, membros do Comitê Organizador Local da Copa. Os torcedores serão os trabalhadores da obra e seus familiares nas arquibancadas, com 30 por cento da capacidade. Só dois portões de acesso vão funcionar, enquanto os outros ainda são verdadeiros canteiros de obra.

A previsão inicial de conclusão do estádio era dezembro de 2012 --data estabelecida pela Fifa como limite para as seis arenas da Copa das Confederações. Mas seguidos adiamentos atrasaram a abertura em quase cinco meses.

A reforma completa do complexo do Maracanã, incluindo as demolições do parque aquático Júlio Delamare e do estádio de atletismo Célio de Barros, só será feita para a Copa do Mundo de 2014, e ainda podem ocorrer batalhas na Justiça.

ELITIZAÇÃO E “SHOPPING CENTER”

Desde o fechamento para as obras, em agosto de 2010, uma das maiores preocupações dos torcedores diz respeito ao ambiente que o novo estádio terá. O Maracanã sempre foi reconhecido pelo apelo popular, mas agora há o temor de que o novo padrão de conforto da arena, e a privatização do local, tornem o Maracanã elitizado.

Além disso, há uma polêmica sobre a decisão do governo de demolir as arenas de atletismo e esportes aquáticos que funcionavam no local para a construção de estacionamento, lojas e restaurantes, com a justificativa de tornar o estádio mais atraente.

Atletas que usavam os locais para treinamento, inclusive visando a Olimpíada de 2016 no Rio, acusam as autoridades de estarem prejudicando o desenvolvimento esportivo brasileiro. O governo afirma que o consórcio que vencer a licitação tem o compromisso de construir novos centros esportivos próximos ao Maracanã.

O Ministério Público tentou suspender a licitação do Maracanã, citando a demolição dos locais e de uma escola, além da remoção de grupos indígenas de um prédio vizinho ao estádio, como motivos, mas o processo foi adiante devido a uma liminar obtida pelo governo. O anúncio do consórcio vencedor é esperado para os próximas dias.

“Há uma série de demolições arbitrárias... que retiram o caráter de um complexo que serve ao esporte, ao lazer, à cultura, à saúde e à educação da população e transformam o Maracanã numa espécie de centro comercial, shopping center, voltado para atender o turismo e as classes mais altas da população do Rio de Janeiro”, disse à Reuters Gustavo Mehl, representante do Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas.

SEM ESTÁDIO, TORCEDOR SUMIU

A obra de quase 900 milhões de reais, a maior e mais cara de três reformas realizadas desde 1999, transformou completamente o estádio. Do gigante que no passado reunia com frequência públicos superiores a 100 mil torcedores, só restou o casco, que é tombado como patrimônio histórico.

A principal mudança foi nas arquibancadas. Em vez dos antigos dois anéis, agora existe uma inclinação única desde o topo do estádio até a beira do campo, o que garante uma boa visibilidade de qualquer lugar, de acordo com os responsáveis pela obra. Há também uma nova cobertura, que se estende sobre quase toda a arquibancada.

As novas cadeiras amarelas e azuis se unem ao verde do gramado para formar as cores da bandeira brasileira. Mas o conforto dos novos assentos reduziu ainda mais a capacidade do estádio, que já tinha sido diminuída para menos de 100 mil torcedores com as obras para o Mundial de Clubes da Fifa de 2000.

Durante o período em que o estádio ficou fechado, a média de público dos times do Rio de Janeiro despencou com a transferência dos principais jogos para o Engenhão, que, ao contrário do Maracanã, se encontra num local de difícil acesso tanto de carro como pelo transporte público.

Apesar de bem abaixo dos registros históricos de até 190 mil torcedores, o Flamengo, por exemplo, teve média de aproximadamente 40 mil torcedores no Campeonato Brasileiro entre 2007 e 2009, ante apenas 12 mil no ano passado. E as consequências foram sentidas também pelo comércio no entorno do estádio.

“Pensei até em fechar”, disse David Pontes, dono de um bar que há 28 anos funciona na frente do estádio e sofreu uma queda de quase 80 por cento no faturamento durante o período em que o estádio esteve fechado.

“O Maracanã sempre foi o sustento da nossa família, mas acho que nunca mais será a mesma coisa. Mesmo quando reabrir, o público agora será diferente... Quem vai vir para o Maracanã pensando em consumir num ‘pé-sujo’ se o próprio estádio vai estar cheio de bares e restaurantes? Maracanã vai virar programa de rico”, afirmou.

Desde março, com o fechamento do Engenhão devido a um problema estrutural encontrado na cobertura, a situação ficou ainda pior. Os jogos passaram para Volta Redonda, a 127 km do Rio, num estádio com capacidade máxima para 20 mil espectadores.

A Federação de Futebol do Estado Rio de Janeiro (Ferj) manifestou interesse em tentar realizar jogos dos times do Rio, incluindo a final do Campeonato Carioca, nos dias 12 e 19 de maio, no Maracanã, mas por enquanto não há qualquer confirmação.

Para a Fifa, que diversas vezes listou o Maracanã como principal preocupação nos preparativos para a Copa das Confederações devido aos atrasos nas obras, o ideal seria a realização de mais testes para a identificação de eventuais problemas.

“Maracanã é Maracanã. Qualquer problema no Maracanã é mais grave que em qualquer outro estádio pela dimensão que ele tem para o futebol no mundo todo. Vamos esperar que tudo corra bem”, disse o diretor de Comunicação da entidade, Walter De Gregorio, em recente visita à cidade.

Reportagem adicional de Thales Carneiro

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