25 de Novembro de 2013 / às 14:52 / em 4 anos

Superprodução "Pelé" traz final da Copa mais cedo ao Rio de Janeiro

Ator Leonardo Carvalho, que interpreta o jogador Pelé quando criança, cabeceia bola de meia durante as gravações da cinebiografia "Pelé", em Citrolândia, Rio de Janeiro, nesta foto de divulgação. 10/11/13. REUTERS/Divulgação/Ique Esteves

Por Felipe Pontes

RIO DE JANEIRO, 25 Nov (Reuters) - Em pouco mais de uma hora o capitão da Suécia, Nils Liedholm, marcou dezenas de vezes seguidas contra o gol do brasileiro Gilmar, em plena final da Copa do Mundo. Câmeras filmaram tudo, enquanto os jornalistas à beira do gramado, de terno, gravata e chapéu sob o sol a pino, exibiam feições sempre de inédita surpresa. Ao redor, o silêncio das arquibancadas desertas.

A cena irreal aconteceu no estádio do clube América, no Rio de Janeiro, e para alívio dos torcedores brasileiros, não passa de ficção. É lá, e nos campos do Bangu e da Portuguesa carioca, que estão sendo reconstituídas as principais partidas da Copa do Mundo de 1958 para o filme “Pelé”, cinebiografia sobre os anos de formação do “rei do futebol”.

As filmagens, que começaram há duas semanas e seguem em ritmo acelerado até o final de novembro no Rio, contam com uma estrutura hollywoodiana para encenar repetidas vezes e nos mínimos detalhes os lances mais dramáticos da campanha que levou o Brasil ao seu primeiro título mundial. Foi quando o garoto Pelé se consagrou, aos 17 anos, como gênio da bola e se tornou o jogador mais jovem a marcar em uma final de Copa do Mundo.

“Fisicamente menor do que a maioria dos homens em campo, ele certamente tinha menos experiência de vida do que boa parte dos que estavam no estádio”, disse um dos diretores, Jeff Zimbalist, à Reuters. “É um garoto que tem que amadurecer e aprender o seu lugar no mundo mais rápido do que qualquer ser humano que eu consiga imaginar”, descreveu Jeff sobre o personagem.

O foco do filme nos primeiros anos de vida de Pelé foi definido através de diversas entrevistas com o ex-jogador, iniciadas na Olimpíada de Londres-2012 e das quais surgiu o roteiro, escrito por Jeff e seu irmão Michael, também diretor do longa.

“Esse é um período com o qual grandes audiências podem se identificar, quando o herói ainda é humano”, avaliou o produtor da Seine Pictures Ivan Orlic, responsável por acompanhar as filmagens no Brasil. Os produtores apostam na estreia em maio de 2014, semanas antes do início da Copa do Mundo no Brasil.

Os Zimbalist exploram a ideia de que a transformação de Edson Arantes do Nascimento em Pelé serve de alegoria para um momento quando “o Brasil, em sua história, precisava desesperadamente de um senso de identidade, de abraçar o que realmente era, em vez de imitar uma suposta superioridade europeia”, ressaltou Jeff.

Interessados em estudar as relações entre o futebol e as identidades nacionais, os irmãos têm no currículo “The Two Escobars”, documentário sobre a suposta ligação entre a derrocada de Pablo Escobar, o traficante, e a morte de Andrés Escobar, jogador de futebol colombiano assassinado após marcar um gol contra que resultou na eliminação da Colômbia na Copa de 1994.

Jeff também foi premiado no Festival de Tribeca pelo documentário “Favela Rising”, dirigido nos anos em que morou no Brasil e que conta a história de redenção do músico Anderson Sá, do grupo AfroReggae.

PELÉ NA ÁREA

Envolvido desde os primeiros momentos no projeto que tem por trás o produtor Brian Grazer (“Uma Mente Brilhante”, “J. Edgar” e “Frost/Nixon”), Pelé também é produtor-executivo do filme e esteve recentemente no set. Ele, que já contracenou no cinema com Grande Otelo (1971), Silvester Stallone (1981) e os Trapalhões (1986), está confirmado como ator, mas não teve o papel revelado.

Pelé opinou também no casting. Uma busca em três continentes por dois garotos que fossem realmente parecidos com ele quando criança e adolescente, bons de bola e, preferencialmente, falassem inglês, língua original de todo o script.

Chegou a ser disseminada uma campanha oferecendo mil dólares para quem encontrasse as pequenas réplicas de Pelé. Acabaram achando Leonardo Carvalho e Kevin de Paula mais perto do que esperavam, nos arredores do Rio de Janeiro.

Jogador de base no clube fluminense Tigres, Kevin exibiu habilidade em campo contra a Suécia, repetindo um duplo drible do chapéu quantas vezes os diretores acharam necessário. Para atuar fora de campo, ele e Leonardo, sem poderem ser fotografados ou entrevistados, recebem a preparação de profissionais experientes em longas como “O Lado Bom da Vida”, premiado com o Oscar de melhor atriz em 2013 (Jennifer Lawrence).

A mesma atenção é dispendida ao exército de jogadores profissionais e amadores que foram convocados em clubes locais para compor as seleções completas de França, Rússia, Hungria, União Soviética e País de Gales, além de Brasil e Suécia.

Os atletas, por sua vez, ajudam atores como Fernando Caruso e Seu Jorge, que interpretam respectivamente os fundamentais Zito e Dondinho (pai de Pelé), mas admitem não conseguir sequer fazer uma única embaixadinha.

Entre outros brasileiros confirmados está Rodrigo Santoro (“300” e “Simplesmente Amor”), no papel de locutor. A produção multimilionária inclui ainda no elenco o norte-americano Vincent D‘Onofrio (“Nascido para Matar” e “Homens de Preto”). O ator, um coringa de Hollywood que já atuou em mais de 80 produções, encara o desafio de representar o técnico brasileiro Vicente Feola.

GRANDES RECURSOS, MÍNIMOS DETALHES

Estimado pela mídia brasileira em cerca de 15 milhões de dólares, o orçamento não foi confirmado oficialmente. Por meio da empresa pública RioFilmes, o município do Rio de Janeiro investiu 1 milhão de dólares em “Pelé”.

O trabalho cenográfico, capturado pela fotografia do nomeado ao Oscar por “Cisne Negro” Matthew Libatique, traz todas as minúcias características em uma produção dessa dimensão.

O figurino, creditado a Inês Salgado (“Cidade de Deus”), por exemplo, além de confeccionar réplicas idênticas de todos os uniformes da época, conseguiu achar um artesão capaz de fabricar dezenas de chuteiras com as mesmas técnicas utilizadas na década de 1950.

O resultado, para alguns jogadores/atores, são pés em frangalhos, após horas a fio repetindo a mesma jogada que levou ao primeiro gol da Suécia.

“As chuteiras são bem desconfortáveis, no sol elas juntam calor, queimam o pé. Fica todo mundo se perguntando como é que eles conseguiam. Faz a gente achar que aquela conquista devia valer por três”, disse Caruso, durante as filmagens no campo do América, na Baixada Fluminense.

“E eu acho que é isso que todo mundo vai querer ver e ouvir”, acrescentou. “Pelé era miúdo, Garrincha tinha as pernas tortas, Djalma com a mão deformada por um acidente de trabalho, o goleiro reserva Castilho um dedo amputado, e por aí vai... Quer dizer, é uma nação que não vem campeã, ela vence adversidades.”

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