Governo teme protestos de desalojados pela Copa e tenta negociar na reta final

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014 14:27 BRT
 

Por Jeferson Ribeiro

BRASÍLIA, 27 Fev (Reuters) - O governo brasileiro identificou um potencial risco de manifestações durante a Copa do Mundo decorrente do descontentamento de moradores de áreas atingidas por desapropriações em cidades-sede, segundo relatórios aos quais a Reuters teve acesso.

Assim como o aumento da passagem de ônibus em algumas capitais serviu de estopim para a onda de protestos durante a Copa das Confederações de junho do ano passado, as desapropriações ocorridas por conta do Mundial podem ser uma nova bandeira para os manifestantes, e são um componente a mais no planejamento da segurança do torneio já contestado pelos elevados gastos com as obras.

"Se a Copa for tranquila para esse povo, é porque pararam de nos remover ou porque nos mataram", disse Maria de Lourdes Lopes do Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM), evidenciando o risco de protestos convocados por pessoas que tiveram suas casas demolidas devido às obras para o Mundial.

O risco foi explicitado em relatórios da Secretaria de Controle Interno (Ciset), órgão da Secretaria-Geral da Presidência. Os documentos revelam uma preocupação com o aumento dos riscos de distúrbios, num momento em que diminui o apoio dos brasileiros à realização do evento e em um ano eleitoral.

As auditorias da Ciset apontam a falta de informação sobre o processo de remoção dada aos moradores de áreas desapropriadas como um dos principais direitos violados na relação com essas pessoas. A falta de informação desperta a insatisfação daqueles que são pressionados a deixar suas casas mediante indenizações que não são suficientes para continuarem morando na mesma região, ou que são removidas para muito longe do seu local de trabalho.

A falta de informações também foi apontada em levantamento do Instituto Ethos, por meio do projeto Jogos Limpos, que mediu a transparência dos planos voltados para a realização da Copa e da Olimpíada de 2016. Apenas três das 12 cidades-sede da Copa (Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre) atingiram uma "nota alta" da entidade por oferecer informações de forma transparente para a sociedade sobre os gastos com o evento.

"Nós vamos para a rua, sabemos que vamos apanhar, que vai ter lei antimanifestação, mas vamos fazer um esforço para continuar mobilizados na Copa", disse Maria de Lourdes Lopes, de 54 anos, representante do Rio de Janeiro no MNML. Segundo "Lurdinha", o grupo vai agir durante a Copa nas 18 cidades onde está presente.

De acordo com ela, é difícil conseguir qualquer informação oficial sobre quantas pessoas foram removidas por conta das obras relacionadas com a Copa e a Olimpíada, mas ela cita um estudo do arquiteto Lucas Faulhaber, feito na Universidade Federal Fluminense (UFF), que estima que 64 mil famílias foram alvo de remoções por obras de infraestrutura somente no Rio de Janeiro nos últimos anos.   Continuação...