May 6, 2014 / 7:24 PM / 3 years ago

Realidade dura fora de campo torna fantasma do Maracanazo o menor dos pesadelos

8 Min, DE LEITURA

Vista externa da Arena Corinthians, em São Paulo, um dos estádios da Copa do Mundo que sofre com atrasos nas obras. 26/04/2014Paulo Whitaker

Por Pedro Fonseca

RIO DE JANEIRO, 6 Mai (Reuters) - Das duas grandes oportunidades que a Copa do Mundo de 2014 representava para o Brasil, a chance de melhorar a infraestrutura do país e mostrar ao mundo um nova cara parece já ter se perdido diante dos percalços nos preparativos, e resta agora como esperança enterrar as tristes lembranças do Maracanazo para evitar um fiasco.

Ao lado de Romário e Paulo Coelho, escolhidos para mostrar exemplos de sucesso do país, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu em cerimônia na sede da Fifa, em Zurique, que os dirigentes da federação internacional poderiam ficar tranquilos.

"O Brasil saberá, orgulhosamente, fazer a sua lição de casa, realizar uma Copa do Mundo para argentino nenhum colocar defeito", disse.

O ano era 2007, quando o Brasil vivia uma euforia econômica impulsionada pelo crescimento de 6,1 por cento do PIB -- o maior em 20 anos. Nas palavras de Lula, o Brasil estava "assumindo uma responsabilidade enquanto nação para provar ao mundo que nós temos uma economia crescente, estável, que nós somos um dos países que estão com a sua estabilidade conquistada".

Nos sete anos que se seguiram, viu-se uma repetição da conhecida história de atrasos em obras, estouros de orçamento, promessas não cumpridas e um acúmulo de problemas, que resultou em duras críticas, inclusive da Fifa.

"Há uma série de equívocos do governo. O governo começou prometendo que a Copa transformaria uma série de questões estruturais do Brasil, sendo que a Copa nunca teve condições de transformar nada disso. Esse foi o grande erro estratégico do governo, prometer demais e entregar de menos", disse à Reuters Pedro Trengrouse, consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) na Copa e coordenador de projetos da Fundação Getulio Vargas.

A célebre frase do "chute no traseiro" disparada pelo secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, para cobrar celeridade nos preparativos do Brasil tornou-se símbolo dos problemas enfrentados pelo país.

Primeiro as autoridades prometeram uma revolução na infraestrutura brasileira diante da oportunidade de realizar a Copa do Mundo, seguida dois anos depois pelos Jogos Olímpicos.

Quando ficou claro que isso não aconteceria, esperava-se que ao menos estádios e aeroportos ficassem prontos a contento para receber as 31 seleções visitantes e seus torcedores, além dos milhares de fãs brasileiros que vão acompanhar partidas do Mundial em seus Estados ou viajar pelo país.

A menos de 40 dias da abertura da Copa, nem isso foi feito.

"É uma situação triste, porque no início, quando se falou de Copa e Olimpíada no Brasil, todo mundo ficou animado porque a nossa expectativa era que a gente tivesse um avanço de infraestrutura, de mobilidade urbana, de aeroportos, e infelizmente isso não aconteceu. Tempo para isso nós tivemos", disse o ex-volante Mauro Silva, campeão mundial em 1994.

"A gente está prestes a iniciar a competição e realmente tem uma dificuldade, os aeroportos não estão prontos. A gente teria uma chance grande de mostrar para o mundo um país mais moderno, mais eficiente, mas espero que tudo transcorra bem, que o Brasil vença a Copa."

Prazos Expirados

Por diversas vezes a Fifa se viu obrigada a adiar os prazos para conclusão dos estádios, que ainda são uma dor de cabeça. Das 12 arenas da Copa, somente dois ficaram prontos no prazo inicial --Mineirão, em Belo Horizonte, e Castelão, em Fortaleza--, e dos seis estádios que não foram utilizados na Copa das Confederações, três ainda estão incompletos: as arenas Corinthians (São Paulo), da Baixada (Curitiba) e Pantanal (Cuiabá).

Ao contrário do previsto na candidatura brasileira, que prometia estádios financiados pela iniciativa privada ao custo estimado de 1,1 bilhão de dólares (cerca de 2,4 bilhões de reais no câmbio atual), as arenas só saíram graças ao pesado financiamento do poder público, e ao custo estimado de 8 bilhões de reais. Somente a arena de Brasília, a mais cara da Copa e com denúncias de superfaturamento, teve custo de 1,4 bilhão de reais.

Do lado de fora dos estádios, as estruturas temporárias previstas nos contratos assinados pelas cidades-sede também se tornaram problemas. Muitas sedes se recusaram a gastar os estimados de 22 milhões a 60 milhões de reais para erguer essas áreas, que só devem ficar prontas em cima da hora.

Entre as inúmeras obras de infraestrutura e mobilidade urbana previstas para melhorar a vida dos moradores das cidades-sede, muitas não saíram sequer do papel, enquanto outras atrasaram e só vão ficar prontas depois do Mundial.

No caso dos aeroportos, o terminal do Rio de Janeiro, uma das principais portas de entrada de turistas estrangeiros e que receberá um grande número de torcedores durante a Copa, simboliza os problemas do setor.

Concedido à iniciativa privada somente em novembro do ano passado, o Galeão está com as obras sob responsabilidade do governo atrasadas e, de acordo com o ministro da Aviação Civil, Moreira Franco, o local corre até mesmo risco de sofrer um apagão durante o Mundial.

Os problemas se repetem em outras cidades-sede, com destaque para Cuiabá --que teve seu aeroporto avaliado como o pior do país em pesquisa da Secretaria de Aviação Civil divulgada em abril-- e Fortaleza, que foi forçada a construir uma instalação provisória (o chamado "puxadinho") para receber os visitantes devido ao atraso na reforma do terminal.

"Nós podíamos ter aproveitado melhor sete anos que tivemos para montagem de tudo que precisávamos em relação a tudo, no Brasil. Aeroportos, estradas, educação, uma série de detalhes. Muita coisa. Podíamos ter aproveitado muito, mas muito melhor. Perdemos tempo e não vamos ter mais tempo", reconheceu o técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, em entrevista recente à TV Globo.

O evento enfrenta ainda a ameaça de protestos como os vistos durante a Copa das Confederações, do ano passado, que atacaram o uso de dinheiro público na organização do Mundial.

Bola Rolando

O cenário fora das quatro linhas levou a uma queda brusca do apoio a realização do Mundial em casa, de 79 por cento em 2008 para 52 por cento em fevereiro deste ano. Mas, num país onde o futebol tem a dimensão que tem, tudo pode mudar quando a bola começar a rolar, especialmente se Neymar e companhia fizerem o povo esquecer tudo que está fora do gramado.

A volta de Luiz Felipe Scolari à seleção brasileira para substituir Mano Menezes no fim de 2012 mudou a cara de um time que, até então, parecia refletir as incertezas vividas pelo Brasil nos preparativos para receber o Mundial.

"Acho que o Brasil está muito bem servido. Vejo a seleção com seus setores muito fortalecidos. A defesa do Brasil tem jogadores consagrados, o meio-campo com boa marcação e criatividade e na frente vamos ter um dos três melhores do mundo, que de repente depois da Copa pode ser o primeiro, que é o Neymar", disse o campeão de 1970 Clodoaldo.

Em 20 jogos sob a liderança do comandante do penta, o Brasil venceu 14, incluindo os cinco disputados a caminho da conquista do título da Copa das Confederações diante da campeã mundial Espanha no Maracanã lotado.

Apesar da escala infinitamente menor do torneio em relação à Copa do Mundo, a conquista serviu para mostrar ao mundo a força que a seleção brasileira terá em casa para tentar apagar as tristes lembranças do maior fracasso de sua história, a derrota por 2 x 1 para o Uruguai na final da Copa de 1950 no mesmo Maracanã.

Com um time construído equilibrando jovens como Neymar e Oscar com nomes de maior experiência como Julio Cesar, Thiago Silva e Fred, Felipão conseguiu reconquistar a confiança da torcida -- refletida no entrosamento entre o time e a arquibancada no momento do hino nacional, antes das partidas.

"Os torcedores podem fazer com que a seleção possa sair vitoriosa... podem ajudar a apagar aquela mancha negra que ainda paira no Maracanã", disse o campeão mundial de 1962 Amarildo, que substituiu Pelé naquela Copa, e contou ter chorado muito, aos 11 anos, ao ouvir pelo rádio a derrota da Copa em casa.

Reportagem adicional de Tatiana Ramil, em São Paulo

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