RIO+20-Crise pode ofuscar evento, veja algumas expectativas
Por Bruno Marfinati
SÃO PAULO, 15 Jun (Reuters) - A Rio+20 concentra as expectativas de um consenso mundial na direção de um desenvolvimento sustentável, com a necessidade de ações imediatas, na opinião de especialistas e autoridades.
A dificuldade de se chegar a um entendimento entre várias nações do mundo é agravada pela crise financeira, que atinge principalmente os países desenvolvidos, parte fundamental em um acordo.
Reunidos de 20 a 22 de junho no Rio de Janeiro, chefes de Estado que participarão da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável terão em suas mãos a responsabilidade de chegar a um resultado que alie crescimento econômico, inclusão social e preservação do meio ambiente.
Veja abaixo algumas das expectativas de especialistas e autoridades para o evento:
IZABELLA TEIXEIRA, MINISTRA DO MEIO AMBIENTE
"Sairmos do idealismo para o pragmatismo do desenvolvimento sustentável, esse é o desafio para a Rio+20. É um momento de partida. Não dá para excluir mundo econômico, financeiro e a tecnologia, e também não dá para deixar de incluir pessoas e desigualdade.
A crise pode atrapalhar numa mobilização de curto prazo para a solução de meios de implementação, como por exemplo transferência de recursos adicionais. Alguns países que têm uma larga tradição em financiar projetos de sustentabilidade estão submetidos à crise e estão revendo suas carteiras de financiamento."
JOSÉ GOLDEMBERG, CIENTISTA E SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE NA RIO92
"É muito difícil esperar qualquer resultado concreto. Acho que o único resultado que nós vamos ter na reunião vai ser um apelo para que os países tomem medidas no sentido de uma economia sustentável.
O único aspecto positivo que eu vejo da conferência é a enorme participação da sociedade civil... está se criando uma conscientização da importância do desenvolvimento sustentável pelo menos aqui no Brasil."
RUBENS RICUPERO, EX-MINISTRO DO MEIO AMBIENTE E DA FAZENDA NO GOVERNO ITAMAR FRANCO
"O mais importante da conferência não vai ser a parte oficial, dos países. Essa parte oficial, da ONU, é um documento que não tem muito foco. Por isso mesmo que eu acho que a única coisa concreta que se pode esperar é que a conferência estabeleça os objetivos ou metas, como aquelas do milênio.
Por exemplo, meta de uso de energia renovável. Se isso sair, já será, a meu ver, o melhor resultado da conferência. Mas eu acho que, em termos gerais, provavelmente, o resultado melhor será esse impacto de mobilização, de tomada de consciência."
ANTONIO PATRIOTA, MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES
"A gente está para (criar) um agenda positiva e não para criar condicionalidades, empecilhos, obstáculos. A agenda é de objetivos que congreguem, somem e que, sobretudo, dêem atenção aos países menos favorecidos.
O ser humano está no centro das preocupações do desenvolvimento sustentável. Não podemos retroceder."
RODRIGO ROLLEMBERG, SENADOR (PSB-DF) E PRESIDENTE DA COMISSÃO DE MEIO AMBIENTE DO SENADO
"A Rio+20 não vai produzir grandes resultados, mas acho que produzirá uma grande mobilização que vai acabar influenciando a médio prazo os chefes de governo a adotar agendas mais avançadas no que se refere ao desenvolvimento sustentável.
O problema é que a definição de processos de implementação na Rio+20 vai ser prejudicada pela crise econômica no que se refere aos meios de financiamento, de transferência de tecnologia, porque quem teria condições de fazer isso são países que estão em dificuldade grande em função da crise."
MARIO MONZONI, COORDENADOR DO CENTRO DE ESTUDOS EM SUSTENTABILIDADE DA FGV
"Não sei se a expectativa da conferência é ter compromissos e metas, na verdade vai se discutir muito governança e construir uma agenda de indicadores de monitoramento.
Existe uma solução que inclui crescimento econômico e desenvolvimento sustentável que é uma agenda que não está calcada no consumo, mas no investimento de coisas que são menos carbono-intensivas, uma agenda de energia menos fóssil, de transporte muito mais calcada na hidro, no ferroviário."
ROMULO SAMPAIO, COORDENADOR DO PROGRAMA EM DIREITO E MEIO AMBIENTE DA FGV
"A minha expectativa é a mais positiva possível, porque é um momento único de compatibilização de agendas. O principal obstáculo para as negociações é o comprometimento dos países desenvolvidos com uma linguagem que os obrigue a transferir um pouco mais de tecnologia, a dar recursos, não para o Brasil, mas para países que estejam em uma situação de desenvolvimento ainda mais precária, para que possam desenvolver tecnologias e estratégias mais limpas."
ADRIANO CAMPOLINA, COORDENADOR-EXECUTIVO DA ACTIONAID NO BRASIL
"A Rio+20 será uma oportunidade para que aqueles países que têm um compromisso verdadeiro com a sustentabilidade confirmem este compromisso na aceitação de medidas concretas. Nossa principal expectativa é de que a sustentabilidade social e ambiental voltem para o centro da agenda política dos líderes globais."
MARIA CECÍLIA WEY DE BRITO, SECRETÁRIA-GERAL DA WWF-BRASIL
"A Rio+20 é a oportunidade para que governos passem das palavras à ação. Nestas últimas duas décadas, o mundo teve acesso a informações valiosas, como a confirmação de que as alterações no clima são resultado das ações do homem e a revelação da importância dos serviços prestados pelos ecossistemas.
Já avançamos muito, mas faltou ação. Agora, não há mais tempo para as palavras. Não podemos esperar mais 20 anos."
PAULO BARRETO, PESQUISADOR SÊNIOR DO IMAZON
"Gostaria de uma agenda mais forte de discussão para eliminar os subsídios às atividades insustentáveis. O crescimento econômico clássico (medido pelo PIB) é incompatível com a sustentabilidade no longo prazo. Em grande medida, a sustentabilidade dependerá de reduzir desperdícios.
Ao fazer isso, não seria necessário crescer a produção de alguns bens e serviços. Por exemplo, 30 por cento do alimento produzido é desperdiçado."
SÉRGIO LEITÃO, DIRETOR DE CAMPANHAS DO GREENPEACE
"Uma das questões que se está esperando é que pelo menos saia um roteiro positivo dos chamados Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que pode dar uma roteirização desses temas que possam fazer com que a gente tenha uma pauta para conversar objetivamente com os governos.
O Brasil entra (na Rio+20) em uma situação meio estranha, como quem organizou a festa e depois se arrependeu de ter feito o convite. Então, não sabe se cancela a festa ou se faz a festa, digamos assim, meia-boca, porque está na dúvida se deveria ou não ter organizado."
FERNANDO FIGUEIREDO, DIRETOR DA ONG CARBON DISCLOSURE PROJECT NO BRASIL E AMÉRICA LATINA
"O legado que a Rio+20 vai deixar é o grande ponto. É possível aliar a questão do crescimento com o desenvolvimento sustentável desde que haja um desenvolvimento de energias renováveis, de inovação dos processos produtivos como fator de redução das emissões.
E quando falo em desenvolvimento sustentável, eu falo de quatro pontos: redução de risco, redução de custo, perenidade do negócio e reputação."
(Reportagem adicional de Eduardo Simões, em São Paulo; e de Rodrigo Viga Gaier no Rio de Janeiro)
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