27 de Janeiro de 2013 / às 17:33 / 5 anos atrás

Incêndio mata mais de 230, deixa 117 feridos em boate no RS

Funerários carregam um caixão contendo o corpo de uma vítima do incêndio na boate Kiss em Santa Maria, 350 quilômetros a oeste de Porto Alegre. 27/01/2013Edison Vara

Por Ana Flor

SANTA MARIA, 27 Jan (Reuters) - Um incêndio deixou ao menos 232 mortos e mais 117 feridos, em sua maioria jovens e por asfixia, durante um show em uma casa noturna na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, na madrugada deste domingo, disseram autoridades locais.

A casa estava lotada principalmente por estudantes universitários da cidade. Há ainda 92 vítimas da tragédia hospitalizadas, segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

O incêndio na boate Kiss, uma das mais famosas de Santa Maria, começou por volta das 2h30 da madrugada deste domingo, depois que um sinalizador foi aceso durante o show da banda Gurizada Fandangueira. As faíscas do artefato incendiaram o revestimento acústico do teto da boate, o que produziu a fumaça tóxica que matou a maioria das vítimas.

"O fogo espalhou-se em segundos", disse a delegada Luíza Sousa, da 2a Delegacia de Polícia Civil, à Reuters.

De acordo com a Defesa Civil, ainda não foi possível precisar o número exato de pessoas que estavam na boate no momento do incêndio. Segundo o coronel Oscar Moiano, comandante da Defesa Civil do Rio Grande do Sul, eram mais de mil.

O comandante do Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Sul, coronel Guido Pedroso de Melo, disse que havia 1.500 pessoas no local, que tem autorização para receber até mil pessoas.

O Batalhão de Bombeiros de Santa Maria recebeu o chamado sobre o incêndio às 3h20 de domingo, segundo o comandante do turno, sargento Robson Muller.

Ao chegar ao local, os 12 bombeiros que atenderam a ocorrência encontraram pouco fogo e uma nuvem de fumaça que chegou a fazer alguns integrantes da corporação passarem mal. Em meio à cena de caos e tragédia, o som dos celulares das vítimas tocando era incessante, segundo os bombeiros.

"O material do revestimento se consumiu sem chamas, mas provocando uma fumaça tóxica", disse Muller.

Para entrar no que até a noite de sábado era a boate Kiss é preciso passar por pilhas de sapatos, poças d'água, chumaços de cabelo espalhados no chão e um cheiro quase irrespirável de queimado.

O que eram bancos de um bar, agora é uma pilha de ferro retoricido, o palco não existe mais e há ainda restos do que foi um revestimento acústico pendurado em partes do teto.

Foi a fumaça resultante da queima desse revestimento, que segundo o Corpo de Bombeiros, asfixiou mais de 90 por cento das vítimas.

O local tinha, segundo autoridades, uma porta de acesso, que servia para entrada e saída. O coronel Pedroso de Melo, dos Bombeiros, disse que os seguranças da boate bloquearam a saída do local exigindo que os clientes pagassem a conta antes de sair.

"A segurança trancou a saída das pessoas que estavam no local, não permitindo que saíssem rapidamente. Isso causou pânico e tumulto... Vi as pessoas amontoadas e mortas próximo da saída", acrescentou.

Sobreviventes da tragédia também disseram que alguns seguranças bloquearam as saídas da boate, exigindo o pagamento das comandas para liberar a saída.

"Não por parte de todos, alguns estavam fazendo barreira... Falaram que a gente só ia sair quando pagasse a comanda. Só liberaram a gente quando viram o fogo no teto", disse a sobrevivente Luciene Louzeiro à TV Globo.

ALVARÁ VENCIDO, EM RENOVAÇÃO

Segundo o comandante dos Bombeiros, a boate tinha alvará vencido, mas em processo de renovação estava em andamento.

"Tinha vencido o alvará deles, mas eles tinham toda a parte preventiva instalada no prédio", explicou o coronel Guido Pedroso de Melo em entrevista à Reuters por telefone.

Ele acrescentou que a renovação do documento estava em andamento e que, dessa forma, o funcionamento da boate estava regularizado.

Os primeiros atendimentos às vítimas foram dados no estacionamento de um supermercado ao lado da boate, que fica no centro da cidade.

Homens com picaretas tentavam quebrar as paredes para ajudar na ventilação do local e para disseminar a fumaça.

Parentes das vítimas estão fazendo a identificação em um centro esportivo da cidade onde os corpos foram reunidos. No local, familiares ainda em choque aguardavam em filas.

Apenas dois integrantes de cada família podiam percorrer a fila de corpos alinhados no chão do ginásio, em um trabalho lento e doloroso para confirmar a identidade de cada um dos mortos.

"É o dia triste da minha vida. Eu nunca pensei que ia viver isso e ver minha menina indo embora", disse à Reuters Neusa Soares, de 64 anos, lamentando a morte da filha Viviane Tolio Soares, 22, que trabalhava numa loja de departamentos, enquanto aguardava na fila para entrar no ginásio.

LUTO E UM MINUTO DE SILÊNCIO

Todos os familiares eram amparados por assistentes sociais e recebiam luvas de borracha e máscaras cirúrgicas antes de entrarem no local.

Não havia mais capelas mortuárias disponíveis na cidade para realizar os velórios. Em função disso, a prefeitura avaliava a realização de um velório coletivo. No entanto, a cerimônia só teria início após a última vítima ser identificada.

O governador do Estado, Tarso Genro (PT), esteve na cidade a cerca de 350 quilômetros da capital Porto Alegre onde vivem cerca de 260 mil habitantes.

A presidente Dilma Rousseff, que estava no Chile participando da reunião de cúpula entre a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e a União Europeia, cancelou os compromissos no país e antecipou o retorno ao Brasil.

Dilma chegou a Santa Maria no início da tarde, visitou feridos em um hospital e depois foi ao local onde estão sendo identificados os corpos e onde estão os familiares.

"Nesse momento de tristeza nós estamos juntos e necessariamente iremos superar, e mantendo a tristeza", disse, chorando a presidente em entrevista no Chile antes de embarcar para o Brasil.

Durante a reunião de cúpula em Santiago, capital chilena, foi observado um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do incêndio em Santa Maria.

O prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB), decretou 30 dias de luto oficial por conta da tragédia, que já vem sendo apontada como a maior da história do Rio Grande do Sul.

Com reportagem de Guillermo Parra-Bernal, Esteban Israel, Bruno Federowski e Eduardo Simões em São Paulo

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