8 de Fevereiro de 2013 / às 15:43 / 5 anos atrás

ANÁLISE-Indústria da cana atinge prazo limite para elevar capacidade

Por Fabíola Gomes

trabalhador corta plantas de cana-de-açúcar nesta foto de arquivo em plantação em Pradópolis, São Paulo. A capacidade de moagem de cana do Brasil, maior produtor global de açúcar, poderá se esgotar em duas safras se os investimentos em aumento da capacidade industrial não acompanharem a expansão da colheita, prevista para ser recorde já neste ano, alertaram especialistas à Reuters. 06/07/2007 REUTERS/Rickey Rogers/Files

SÃO PAULO, 8 Fev (Reuters) - A capacidade de moagem de cana do Brasil, maior produtor global de açúcar, poderá se esgotar em duas safras se os investimentos em aumento da capacidade industrial não acompanharem a expansão da colheita, prevista para ser recorde já neste ano, alertaram especialistas à Reuters.

Sem investimentos relevantes em nova capacidade de processamento nos últimos anos, é consenso entre representantes do setor que a indústria de cana vive um período limite para investir na sua expansão, após a crise global de crédito que afetou as finanças das empresas e seguindo um período de baixas margens de lucro do etanol, que não atraíram novo capital.

Esse “deadline” para investimento se dá porque o tamanho da próxima safra (2013/14, de abril a março) está bem próximo da capacidade atual e o tempo para a implantação de uma nova unidade é, no mínimo, de dois a três anos. Mesmo para ampliação de uma unidade, o prazo é um ano.

A estimativa do setor é que a capacidade instalada atual do Brasil está perto de 700 milhões de toneladas, enquanto estimativas iniciais apontam uma moagem de cerca de 650 milhões de toneladas já no ciclo 2013/14, que se inicia oficialmente em abril no centro-sul.

“Em 2014, a se confirmar o crescimento da safra, a capacidade industrial já poderá estar esgotada... Nós já estamos numa situação em que são necessários investimentos em novas unidades”, disse Artur Yabe, gerente de biocombustíveis do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Ele lembrou que recentes investimentos em canaviais --não acompanhados de capital novo para expansão industrial do setor-- já trarão resultados na safra iniciada em abril deste ano, o que tende a se repetir na temporada 2014/15.

Os investimentos em novas unidades ficaram estagnados após a crise de crédito em 2008, que afetou fortemente as finanças de muitas companhias, especialmente daquelas muito endividadas por conta dos projetos de expansão da capacidade naquela época --em 2005, havia, por exemplo, cerca de 30 unidades sendo contratadas.

“E num novo ciclo, se o clima ajudar, deveremos ter uma safra ainda melhor... Aí talvez a gente comece a ver um movimento mais intenso de procura do BNDES, na medida em que a capacidade ociosa vai se esgotando”, disse Yabe, referindo-se à urgência para novos investimentos.

Ele observou que o setor veio de um ano com grande nível de ociosidade, após a primeira redução na safra de cana do país em 11 anos na temporada passada. Mas, com a recuperação da colheita na atual e a expectativa de um aumento na próxima, isso vai diminuir. “Então o incentivo à construção de novas usinas será ainda mais acentuado do que é hoje”, disse Yabe.

PRIMEIRAS SONDAGENS

Representantes da indústria de base e do BNDES ponderam que o setor começa a registrar as primeiras sondagens para novos projetos, mas não se têm ainda a confirmação de negócios fechados para ampliar de forma significativa a capacidade.

Estimativas do setor indicam que o Brasil precisa ampliar a capacidade de moagem em cerca de 50 por cento, para 1 bilhão de toneladas, até o final desta década, para atender a demanda prevista no período, fruto do crescimento da frota flex fuel e do aumento da demanda mundial por açúcar.

O vice-presidente de tecnologia e desenvolvimento da Dedini, José Luiz Olivério, disse que houve um aumento de 30 a 40 por cento de pedidos de propostas de orçamentos para projetos de usinas nos últimos três meses, sem detalhar o número exato.

A companhia, que é líder no fornecimento de equipamentos e plantas para a indústria sucroalcooleira, tem observado um aumento de interesse tanto por parte de investidores tradicionais como de novos investidores, que ainda não atuam no setor, mas começam a preparar estudos para uma eventual entrada na área.

O anúncio recente de aumento da mistura do etanol à gasolina a partir de maio e o reajuste da gasolina, que abre espaço para uma alta do preço do etanol, além de uma indicação firme de implementação de uma política de longo prazo ao setor, são fatores que devem impulsionar os investimentos.

“O governo reconhece a importância de ser retomado o investimento. Essas conversações vêm de bastante tempo, mas (agora) os ministro Mantega (Guido Mantega, Fazenda) e Lobão (Edison Lobão, Minas e Energia) deram essa sinalização em relação a questões de regras de longo prazo”, disse a presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina, em entrevista recente à Reuters.

Ela citou entre os fatores que poderiam impulsionar investimentos uma política clara para preços de biocombustíveis, o papel da bioeletricidade na matriz de energia e questões tributárias e de financiamento.

MERCADO VENDEDOR

Por ora, ainda há um desânimo forte do ponto de vista de novos investimentos, disse o diretor-executivo da Unica, Eduardo Leão de Souza. “Hoje, temos um mercado muito mais vendedor (de usinas) do que comprador.”

Segundo o acompanhamento da Unica, nas últimas três safras, desde 2009/10, das 420 usinas do centro-sul, cerca de 40 fecharam ou entraram em recuperação judicial.

Na avaliação do diretor do Itaú BBA para o setor sucroalcooleiro, Alexandre Figliolino, os investimentos só devem vir com força quando a atividade voltar a mostrar rentabilidade.

“Tem que ter remuneração positiva... Foi isso que sete, oito anos atrás motivou o crescimento até meio atrapalhado do setor”, lembrou, referindo-se às margens ruins do etanol.

Ele considera que a indústria está fazendo sua lição de casa depois da crise financeira em 2008, que trouxe estresse de liquidez a um setor que estava alavancado, com adoção de novas práticas de manejo e gestão. Mas lembrou que a indústria precisa voltar a produzir com custo mais baixo.

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