11 de Fevereiro de 2013 / às 16:53 / 5 anos atrás

Bento 16: um papa conservador perseguido por escândalos

Por Philip Pullella

Foto de arquivo do papa Bento 16 durante encontro com cientistas na Universidade de Regensburg, na Alemanha. Bento 16 foi aplaudido pelos conservadores por tentar reafirmar a identidade católica tradicional, mas os liberais o acusavam de atrasar as reformas e prejudicar o diálogo com muçulmanos, judeus e outros cristãos. 12/09/2006 REUTERS/KNA-Bild/Markus Nowak

CIDADE DO VATICANO, 11 Fev (Reuters) - O Papa Bento 16 foi aplaudido pelos conservadores por tentar reafirmar a identidade católica tradicional, mas os liberais o acusavam de atrasar as reformas e prejudicar o diálogo com muçulmanos, judeus e outros cristãos.

O pontífice alemão de 85 anos de idade anunciou nesta segunda-feira que deixará o cargo no final do mês por causa dos efeitos da idade avançada, que o impediam de completar seu ministério. Foi uma decisão que surpreendeu oficiais da Igreja e católicos em todo o mundo, mas que ele havia sugerido no passado.

Bento gozou de saúde relativamente boa em grande parte de sua vida, mas o primeiro sinal de que ela estava se deteriorando veio em outubro de 2011, quando começou a usar uma plataforma com rodas para subir ao altar principal da Basílica de São Pedro.

Em um livro em 2010, ele disse que não hesitaria em tornar-se o primeiro pontífice a renunciar voluntariamente em mais de 700 anos, se sentisse que não era capaz “fisicamente, psicologicamente e espiritualmente” de liderar a Igreja Católica.

Antes de ser eleito papa, o ex-cardeal Joseph Ratzinger era conhecido como “rottweiler de Deus” por causa de sua posição firme sobre questões teológicas. No entanto, ficou claro que não apenas ele não morde, mas quase não latiu.

Apesar de grande reverência por seu carismático antecessor itinerante --a quem ele colocou no caminho rápido para a santidade, com a beatificação em 2011-- assessores disseram que ele estava determinado a não mudar seus modos calmos para imitar o estilo de João Paulo.

Com estilo acadêmico, que relaxava tocando piano, Bento 16 procurou mostrar ao mundo o lado mais gentil do homem que havia sido chefe da doutrina do Vaticano por quase um quarto de século.

No entanto, os escândalos de abusos sexuais de crianças perseguiram a maior parte de seu papado. Ele ordenou um inquérito oficial sobre o abuso na Irlanda, que levou à demissão de vários bispos. Mas as relações do Vaticano com o país, que já foi majoritariamente católica, despencaram durante o seu papado, a ponto de Dublin fechar sua embaixada na Santa Sé em 2011.

Vítimas exigiram que ele fosse investigado pelo Tribunal Penal Internacional, mas o Vaticano disse que ele não poderia ser responsabilizado por crimes de outras pessoas.

Um escândalo mais próximo atingiu o papa em 2012, quando descobriu-se que o mordomo do pontífice era a fonte de documentos vazados alegando corrupção em negócios do Vaticano, causando um furor internacional.

PASSADO ALEMÃO

Primeiro papa alemão em mil anos, Bento 16 confrontou o passado do seu país ao visitar o campo de extermínio nazista de Auschwitz.

Descrevendo-se como um “filho da Alemanha”, ele orou e questionou o silêncio de Deus enquanto 1,5 milhão de pessoas, a maioria delas judias, morriam na Segunda Guerra Mundial.

Ratzinger pertenceu à Juventude Hitlerista durante a Segunda Guerra Mundial, quando a participação era compulsória. Mas ele nunca foi membro do Partido Nacional-Socialista (nazista), e sua família se opunha ao regime de Adolf Hitler.

No entanto, essa sua viagem à Alemanha desencadeou a primeira grande crise do seu pontificado. Em uma palestra universitária, ele citou um imperador bizantino do século 14 segundo o qual o islamismo havia sido difundido pela espada e só causou mal ao mundo.

Após protestos que incluíram ataques a igrejas na Oriente Médio e o assassinato de uma freira na Somália, o papa disse lamentar eventuais mal-entendidos causados por seu discurso.

Numa atitude amplamente vista como conciliatória, ele fez em 2006 uma histórica viagem à Turquia, um país predominantemente muçulmano, e rezou na Mesquita Azul ao lado do grão-múfti da cidade.

No entanto, meses depois, o ex-presidente iraniano Mohammad Khatami foi recebido pelo papa e disse que as feridas entre cristãos e muçulmanos continuavam sendo “muito profundas” por causa do discurso proferido em Regensburg.

Em 2007, Bento 16 sagrou como arcebispo de Varsóvia um bispo polonês que havia sido espião da polícia comunista no país. O arcebispo renunciou ao cargo.

No ano seguinte, Bento 16 fez uma bem sucedida viagem aos EUA. Ele pediu desculpas pelo escândalo de abusos sexuais, prometeu excluir padres pedófilos da Igreja e confortou vítimas de abuso.

Já 2009 foi o “annus horribilis” do pontificado dele, com sucessivos tropeços.

Os judeus --e também muitos católicos-- ficaram indignados com a decisão do papa de revogar a excomunhão de quatro bispos tradicionalistas, incluindo um que negava abertamente a ocorrência do Holocausto.

Em março do mesmo ano, o pontífice causou polêmica ao dizer a jornalistas num avião que o levava à África que o uso de preservativos na luta contra a Aids estava agravando os problemas.

HOMENS DE CONFIANÇA

No Vaticano, ele preferiu nomear homens em quem confiava cegamente, e algumas das primeiras indicações dele foram polêmicas.

Ele escolheu o cardeal Tarcisio Bertone, que havia trabalhado com Ratzinger no conselho doutrinal do Vaticano, como seu secretário de Estado, apesar da falta de experiência diplomática de Bertone.

Um dos temas sempre retomados por Bento 16 no seu pontificado foi a ameaça do relativismo, rejeitando o conceito de que os valores morais não são absolutos.

“Estamos avançando para uma ditadura do relativismo, que não reconhece nada como definitivo e tem como seu valor mais elevado o próprio ego e os próprios desejos”, disse ele numa homilia no funeral de João Paulo 2º --pronunciamento que muitos veem como tendo sido definitivo para que ele fosse eleito o novo papa no conclave que se seguiu.

Bento 16 se comprometeu com a unidade cristã, mas outras religiões o criticaram em 2007 por ter aprovado um documento reiterando a posição do Vaticano de que todas as outras denominações cristãs não são plenamente igrejas de Jesus Cristo.

Ele confirmou em 2011 sua opinião conservadora sobre outras religiões, quando uma reunião inter-religiosa realizada em Assis (Itália) deixou de incluir uma prece comum simultânea, como ocorria desde que João Paulo 2º criou esses eventos, em 1986.

No mesmo encontro, porém, ele admitiu “com grande vergonha” que o cristianismo havia usado a força ao longo da sua história, e, junto com outros líderes religiosos, condenou a violência e o terrorismo praticados em nome de Deus.

As relações do papa com os judeus tiveram altos e baixos.

Os judeus se ofenderam, por exemplo, quando o papa autorizou celebrações mais comuns da velha missa em latim, incluindo orações pela conversão dos judeus. Outra polêmica surgiu em dezembro de 2009, quando Bento 16 reiniciou o processo de beatificação do seu antecessor Pio 12, acusado por alguns judeus de fazer vista grossa ao Holocausto.

Em 2011, por outro lado, ele recebeu elogios por inocentar pessoalmente os judeus da acusação de terem sido os responsáveis pela morte de Cristo, repudiando o conceito de culpa coletiva que durante séculos assombrou as relações entre cristãos e judeus.

VOLTA NO TEMPO

Seus críticos viam muitas das suas ações como tentativas de desfazer reformas promovidas pelo Concílio Vaticano Segundo (1962-65), que modernizou a Igreja e encorajou o diálogo inter-religioso.

Bento 16 escreveu três encíclicas --a forma mais importante de documento pontifício. A primeira, “Deus Caritas Est” (“Deus é amor”), de 2006, tratava dos vários conceitos de amor, incluindo o erótico e o espiritual.

“Spe Salvi” (“Salvos pela esperança”), de 2007, era um ataque ao ateísmo e um apelo pela esperança cristã em um mundo pessimista. “Caritas in Veritate” (“Caridade na verdade”) propunha-se a repensar a gestão econômica do mundo.

Sob os trejeitos dóceis do alemão há um intelecto férreo, sempre pronto a dissecar as obras teológicas em busca de sua pureza dogmática, e a travar ferozes debates contra dissidentes.

No entanto, Ratzinger começou a chamar a atenção da Igreja, meio século atrás, como um consultor liberal do Concílio Vaticano Segundo. Só alguns anos depois, diante do caráter marxista e ateu dos protestos de 1968 na Europa, ele se tornaria mais conservador, defendendo a fé contra o avanço do secularismo.

Após temporadas como professor de teologia e depois como arcebispo de Munique, Ratzinger foi nomeado em 1981 para dirigir a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), órgão que sucedeu ao tribunal da Inquisição.

Ele e o papa João Paulo 2º concordavam sobre a necessidade de restabelecer os pilares tradicionais da doutrina e da teologia, após um período de experimentação.

Como chefe da CDF, Ratzinger voltou-se contra a Teologia da Libertação, então muito em voga na América Latina, e foi criticado por sua dureza ao condenar o frade brasileiro Leonardo Boff a um ano de silêncio público em questões teológicas, por causa de seus escritos de viés marxista.

Em 1986, Ratzinger denunciou com firmeza, em nome do Vaticano, a homossexualidade e o casamento gay. Na década seguinte, exerceu pressão sobre teólogos, principalmente na Ásia, que viam as religiões não-cristãs como parte dos planos de Deus para a humanidade.

Em 2004, escreveu um documento condenando o “feminismo radical” como uma ideologia que minava a família e turvava as diferenças naturais entre homens e mulheres.

Em 2002, ele se tornou decano do Colégio de Cardeais, que três anos depois o elegeria papa.

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