28 de Fevereiro de 2013 / às 19:10 / em 5 anos

Bento 16 encerra pontificado com promessa de obediência ao novo papa

O papa Bento 16 deixa a varanda de sua residência de verão em Castelgandolfo após abençoar seus fiéis pela última vez. 28/02/2013 REUTERS/Tony Gentile

Por Philip Pullella

CIDADE DO VATICANO, 28 Fev (Reuters) - O papa Bento 16 encerrou um difícil pontificado nesta quinta-feira e prometeu obediência incondicional a quem lhe suceder para guiar a Igreja Católica em um dos períodos mais assolados por crises nos 2.000 anos de história.

O papado tornou-se oficialmente vago às 20h (16h em Brasília), marcando a primeira vez em seis séculos que um papa renuncia em vez de deixar o posto após a morte.

Em um gesto simbólico, os sentinelas da Guarda Suíça deixaram a entrada da residência papal de verão ao sul de Roma, para onde o agora “papa emérito” voou de helicóptero menos de três horas antes do fim de seu pontificado, e as portas de madeira maciça do local foram fechadas.

Ao mesmo tempo, os apartamentos do papa no Vaticano foram trancados e não serão abertos até que um novo papa seja eleito.

Após deixar o Vaticano de helicóptero, Bento 16 enviou sua última mensagem pelo Twitter: “Obrigado por seu amor e apoio. Que vocês sempre experimentem a alegria que advém ao colocar Cristo no centro de suas vidas.”

Os sinos badalaram na Basílica de São Pedro e em igrejas por toda Roma enquanto o helicóptero circulava a Cidade do Vaticano, sobrevoava o Coliseu e outros monumentos para dar ao pontífice uma última visão da cidade onde ele também é bispo.

“Como vocês sabem, hoje é um dia diferente dos outros”, disse ele a uma multidão emocionada e eufórica na pequena cidade de Castelgandolfo, local da residência de verão, em seu último comentário público como papa.

“Depois disso, serei apenas um peregrino que está começando a última fase de sua peregrinação nesta Terra.”

Ele se virou e entrou, para nunca mais ser visto como papa.

“Eu queria vê-lo pela última vez. Espero que seu sucessor siga os seus passos. Me sinto muito emocionado de estar aqui”, disse Giuseppe Ercolino, um estudante de 19 anos de idade, de uma cidade vizinha.

Em um adeus emocionado aos cardeais na manhã de quinta-feira, na Sala Clementina repleta de afrescos do Vaticano, Bento apareceu para enviar uma forte mensagem ao escalão superior da Igreja e aos fiéis para que permaneçam unidos em torno de seu sucessor, seja ele quem for.

“Vou continuar a estar perto de vocês em oração, especialmente nos próximos dias, de modo que vocês aceitem plenamente a ação do Espírito Santo na eleição do novo papa”, disse ele aos cardeais na sala Clementina do Vaticano.

“Que o Senhor possa mostrá-los o que Ele quer. Entre vocês, há o futuro papa, a quem hoje declaro minha reverência e obediência incondicional”, afirmou.

A promessa, feita antes do conclave a portas fechadas em que os cardeais elegerão o novo papa, foi importante porque, pela primeira vez na história, haverá um papa reinante e um ex-papa vivendo lado a lado no Vaticano.

Bento parecia estar enviando uma forte mensagem aos escalões superiores da Igreja, bem como aos fiéis, para permanecerem unidos em apoio a seu sucessor, seja ele quem for.

Alguns estudiosos da Igreja temem que se o próximo papa desfizer algumas das políticas de Bento 16 enquanto seu antecessor ainda estiver vivo, Bento poderia atuar como um para-raios para os conservadores e polarizar a Igreja de 1,2 bilhão de membros.

Antes de subir no helicóptero, o papa Bento disse adeus a monsenhores, freiras, empregados do Vaticano e à Guarda Suíça no pátio San Damaso do palácio apostólico da Santa Sé. Muitos de seus funcionários tinham lágrimas nos olhos quando o helicóptero partiu.

Bento vai passar os primeiros meses de sua aposentadoria na residência de verão papal, Castelgandolfo, um complexo de vilas com jardins exuberantes, uma fazenda e paisagens deslumbrantes do Lago Albano na cratera vulcânica abaixo da cidade.

Bento ficará ali até abril, quando a reforma estiver completa em um convento no Vaticano que será sua nova casa.

PROBLEMAS PAPAIS

Com a eleição do próximo papa ocorrendo na esteira de escândalos de abuso sexual, vazamentos de documentos privados do papa, queda no número de fiéis e exigências de um papel maior para as mulheres, muitos na Igreja acreditam que seria benéfico uma cara nova vinda de um país fora da Europa.

Junto aos cardeais Bento, vestindo a batina branca papal e a capa vermelha que ele deixará de usar com a oficialização da renúncia, insistiu que a Igreja se esforce para ser “profundamente unida”.

Amante da música clássica, ele comparou a hierarquia da Igreja a uma orquestra com muitos instrumentos que devem sempre procurar ser harmoniosos.

“Vamos permanecer unidos, queridos irmãos”, disse Bento 16, que fez alusão aos escândalos e relatos de disputas internas entre seus assessores mais próximos.

“Nesses últimos oito anos temos vivido com fé momentos bonitos de luz radiante no caminho da Igreja, bem como momentos em que algumas nuvens escureceram o céu”, declarou ele.

O papa disse que “tentou servir a Cristo e à sua Igreja com amor profundo e total”.

NOVO PAPA PARA A PÁSCOA

Assim que a cadeira de São Pedro estiver vaga, cardeais de vários países do mundo vão começar a planejar o conclave que vai eleger o próximo papa.

Uma das primeiras perguntas que estes “príncipes da Igreja” enfrentam é quando os 115 cardeais eleitores devem entrar na Capela Sistina para a votação. Eles vão realizar uma primeira reunião na sexta-feira, mas a decisão não deve ocorrer até a próxima semana.

O Vaticano parece ter como objetivo uma eleição até meados de março para que o novo papa possa ser empossado antes do Domingo de Ramos, em 24 de março, e conduzir os serviços da Semana Santa que culminam na Páscoa no domingo seguinte.

Alguns cardeais de países em desenvolvimento, incluindo o brasileiro dom Odilo Scherer, Peter Turkson, de Gana, e Antonio Tagle, das Filipinas, são nomes frequentemente citados como principais candidatos do mundo em desenvolvimento.

Não existem candidatos oficiais, nenhuma campanha aberta e nenhum claro favorito ao posto. Cardeais apontados como favoritos por observadores do Vaticano incluem também o canadense Marc Ouellet, o italiano Angelo Scola e o norte-americano Timothy Dolan.

Reportagem adicional de James Mackenzie, Catherine Hornby e Tom Heneghan

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