4 de Setembro de 2014 / às 12:33 / 3 anos atrás

BCE corta juros e lança novo esquema de crédito conforme crescimento evapora

Logo do euro fotografado em frente à sede do Banco Central Europeu, em Frankfurt. 15/01/2009.Kai Pfaffenbach

FRANKFURT (Reuters) - O Banco Central Europeu (BCE) cortou as taxas de juros a novas mínimas recordes nesta quinta-feira, e lançou um novo programa para injetar dinheiro na combalida economia da zona do euro.

Em uma série de medidas que destacam a crescente preocupação com a saúde do bloco monetário, o BCE cortou sua principal taxa de refinanciamento para 0,05 por cento, ante 0,15 por cento, e levou sua taxa de juros overnight sobre depósitos para território ainda mais negativo, cobrando agora 0,20 por cento de bancos para deixarem fundos no BCE.

A zona do euro estagnou no segundo trimestre do ano e a crise ucraniana agora pesa consideravelmente sobre a confiança empresarial.

"O Conselho Diretor vê que há riscos cercando a perspectiva econômica para a zona do euro", disse o presidente do BCE, Mario Draghi, em entrevista à imprensa.

"Em particular, a perda do ímpeto econômico pode afetar o investimento privado, e riscos geopolíticos elevados podem ter mais impacto negativo sobre a confiança de empresas e consumidores".

As novas projeções econômicas do BCE estimam um crescimento mais lento neste ano, de apenas 0,9 por cento, com uma retomada para 1,6 por cento em 2015.

A previsão para inflação, hoje a apenas 0,3 por cento, foi cortada para 0,6 por cento, avançando para 1,1 por cento em 2015, ainda muito abaixo da meta do BCE de próxima porém abaixo de 2 por cento.

Draghi disse que caso pareça que a inflação permanecerá muito baixa por muito tempo, o Conselho do BCE é unânime em seu compromisso de usar outros "instrumentos não convencionais" --frase vista como código para impressão de dinheiro como fizeram o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, e o banco central britânico.

Ele acrescentou que as decisões de quinta-feira não foram apoiadas por unanimidade por seus colegas, embora houvesse uma "maioria confortável".

Draghi também anunciou planos para um programa de compras de bônus cobertos e títulos lastreados em ativos (ABS, na sigla em inglês) para ajudar a facilitar as condições de crédito no bloco. Fontes disseram à Reuters que ele pode chegar a 500 bilhões de euros (650 bilhões de dólares) em três anos.

Títulos lastreados em ativos são criados por bancos, que combinam hipotecas e empréstimos corporativos, automotivos ou de cartão de crédito e vendem os instrumentos resultantes a seguradoras, fundos de pensão ou, agora, mesmo ao BCE.

Títulos cobertos são instrumentos semelhantes, mas os ativos de referência são isolados do emissor. Então, se o banco ficar inadimplente, os ativos continuam disponíveis, o que torna os títulos cobertos mais seguros que os ABSs.

"Na margem, (os cortes) podem ter algum efeito pequeno positivo na atividade e nos empréstimos bancários e talvez dar ao euro um outro empurrão para baixo", disse o economista-chefe para Europa da Capital Economics, Jonathan Loynes.

"Mas essas medidas não substituem a ação de política muito mais poderosa que parece cada vez mais necessária para evitar uma recessão renovada".

QE, SIM OU NÃO?

Para investidores e mercados, a única jogada que fará grande diferença é uma compra de ativos em larga escala como fizeram os Estados Unidos, ou "quantitative easing", programa que compra dívida do governo com dinheiro novo.

Draghi elevou as expectativas quando, desviando-se do texto de um discurso, ele disse na conferência de autoridades de bancos centrais em Jackson Hole, em 22 de agosto, que os mercados haviam indicado que as expectativas de inflação mostravam "quedas significativas" em agosto.

Na ocasião, ele disse que o Conselho do BCE iria, dentro de seu mandato, "usar todos os instrumentos disponíveis" para entregar estabilidade de preços no médio prazo.

Embora outros bancos centrais tenham impresso dinheiro em vastas quantias, alguns dentre os 24 membros do conselho de tomada de decisão do BCE mostram resistência. Uma fonte do BCE disse à Reuters na semana passada que "a barreira ao QE ainda é muito alta".

Além disso, o BCE desejará ver o impacto da oferta de empréstimos de quatro anos aos bancos, anunciada em junho mas que será lançada apenas neste mês, antes de dar o passo final.

O corte das taxas de juros tornará a futura oferta de empréstimos, ou operações de refinanciamento de longo prazo direcionadas (TLTROs, na sigla em inglês), mais atrativa uma vez que bancos podem agora conseguir os recursos por menos. Porém, com os empréstimos ainda debilitados, o impacto mais amplo é incerto.

Reportagem adicional de John O'Donnell

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