3 de Novembro de 2016 / às 20:12 / em um ano

Fantasma do excesso de capacidade ronda indústria de energia eólica do Brasil

SÃO PAULO (Reuters) - A indústria brasileira de energia eólica tem convivido com o fantasma do excesso de capacidade conforme o país reduziu a contratação de novas usinas em meio à crise econômica, o que gera apostas no mercado de que algumas empresas terão de fechar em breve suas unidades locais.

Fotografia de um parque eólico em Osório, no Rio Grande do Sul, sul do Brasil 30/11/2007 REUTERS/Jamil Bittar

Especialistas e empresas afirmaram à Reuters que a demanda projetada para os próximos anos não deve ser suficiente para manter o amplo grupo de fabricantes de aerogeradores instalados no país, que inclui a norte-americana GE, as espanholas Gamesa e Acciona, a finlandesa Vestas, a alemã Wobben e a brasileira WEG.

Enquanto essas empresas somam entre 3,5 gigawatts e 4 gigawatts em capacidade anual de produção, o Brasil contratou apenas 1,2 gigawatt em novas usinas eólicas em 2015 e nenhum megawatt até o momento neste ano.

Os números representam uma clara mudança em relação aos anos anteriores, quando leilões específicos para a fonte e políticas de apoio ao conteúdo local com generosos financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) levaram o Brasil a saltar de 600 megawatts eólicos em 2009 para os atuais 9,7 gigawatts.

Em 2013, o país contratou um recorde de usinas a vento, 4,7 gigawatts, com mais 2,2 gigawatts contratados em 2014, antes de a crise começar a minar a demanda.

“Temos um problema aí. Muita capacidade instalada para a demanda atual... o volume para seis fabricantes é muito pequeno, não sei o que vai acontecer”, disse à Reuters o presidente da Vestas no Brasil, Rogério Zampronha.

“A gente vê que algumas empresas que construíram fábrica poderão deixar o país... algumas mais do que as outras, principalmente aquelas que fizeram investimentos efêmeros...”, concordou o diretor de energia eólica da WEG, João Paulo Gualberto.

O governo federal agendou para 16 de dezembro um leilão para contratação de novas usinas eólicas e fotovoltaicas, mas a expectativa do mercado é de que poucos projetos sejam viabilizados.

Isso porque, além de haver sobreoferta de energia, uma série de atrasos em obras de linhas de transmissão vai limitar fortemente a capacidade da rede para receber a energia de novas usinas nos Estados com os melhores ventos, como Bahia, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul.

Para evitar que usinas fiquem prontas sem ter como escoar a produção, o governo vetou a participação de projetos desses Estados na licitação.

A restrição pegou a maior parte dos investidores de surpresa e desanimou ainda mais a indústria eólica, afirmou o consultor Odilon Camargo, da Camargo Schubert Engenharia Eólica.

“Fiquei surpreso com essa incapacidade de conexão. É bastante desanimador para o setor, como sinalização é muito ruim”, afirmou.

INDÚSTRIA ALERTA

Apesar da insatisfação com o veto a alguns Estados no leilão, a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica) enviou um comunicado interno a seus associados no qual alerta para que as empresas e principalmente Estados não tentem convencer o governo federal a voltar atrás na decisão, uma vez que isso poderia levar ao cancelamento da contratação.

“Há movimentações no sentido de postergar o leilão... se trata de um grande equívoco, sem levar em consideração uma análise mais ampla da indústria”, afirma a entidade no documento, ao qual a Reuters teve acesso.

A associação afirmou que um cancelamento do certame seria “desastroso” e defendeu que o setor tente convencer o governo a realizar um novo leilão para eólicas no primeiro semestre de 2017.

Procurado, o Ministério de Minas e Energia disse que o leilão do dia 16 de dezembro está garantido.

O governo, no entanto, não adianta quanto deverá contratar no certame, até para não interferir na disputa entre os investidores.

Enquanto a incerteza persiste, os fabricantes buscam alternativas. A WEG, por exemplo, antecipou planos de exportar máquinas eólicas a partir do Brasil, enquanto a Vestas adiou uma decisão sobre a ampliação da produção no país.

“Se o mercado melhorar, poderemos abrir uma segunda linha. Vamos reavaliar a situação em seis meses”, afirmou Zampronha.

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