26 de Novembro de 2016 / às 16:04 / em 10 meses

OBITUÁRIO-Fidel Castro deixou marca revolucionária na história

Presidente russo Vladimir Putin e Fidel Castro participam de cerimônia em Havana em dezembro de 2000. REUTERS/Jorge Silva/Files (CUBA)

(Reuters) - Filho de um rico proprietário de terras, Fidel Castro deu as costas para uma vida de privilégios e liderou uma revolução de esquerda em Cuba que resistiu por décadas e foi moldada a partir de sua destreza política, um forte senso visionário e um ego sem limites.

Castro, que morreu na sexta-feira aos 90 anos de idade, já foi idealista e pragmático, bastante inteligente e também imprudente, carismático e ao mesmo tempo intolerante.

Os adversários viam nele uma figura opressora e teimosa que violava direitos humanos, prendia seus opositores, bania os partidos de oposição e que destruiu a economia de Cuba.

Já os admiradores enxergavam nele um visionário que enfrentava a dominação norte-americana na América Latina, promovia saúde e educação para os pobres e inspirava movimentos socialistas em todo o mundo.

Mesmo antes de liderar a revolução de 1959 que colocou Cuba no caminho do comunismo e do cenário de Guerra Fria, Fidel Castro se via de maneira grandiosa.

Desde pequeno, ele admirava figuras importantes da história, particularmente Alexandre, o Grande, e acreditava que ele e seus comandados eram parte da tradição.

“Os homens não moldam o seu destino. O destino produz o homem de cada momento”, disse ele em 1959.

Castro derrubou o impopular ditador Fulgencio Batista, que era apoiado pelos EUA, ao unir uma oposição fragmentada e levar a melhor sobre um exército cubano muito maior e mais equipado.

Sua aliança com a União Soviética colocou-o no centro da Guerra Fria, especialmente quando a crise dos mísseis cubanos em 1962 fez o mundo ficar à beira de uma guerra nuclear.

Ele era uma celebridade global. Sua barba, a roupa militar e os enormes charutos cubanos faziam dele uma figura facilmente reconhecível.

Sua notoriedade se devia, em parte, à geografia. Em busca de reforçar um aliado que ficava a apenas 140 quilômetros dos EUA, Moscou ajudou-o a construir um Estado socialista dando-lhe bilhões de dólares em ajuda e promovendo um comércio em termos favoráveis envolvendo produtos desde petróleo a peças de trator.

Ele procurou preservar a revolução apesar da constante hostilidade norte-americana, mesmo quando Cuba sofreu com o colapso da União Soviética no começo dos anos 1990, mostrando o vigor de um homem que pretendia morrer trabalhando.

Seu governo sobreviveu apesar das inúmeras previsões contrárias e superou uma de suas piores crises econômicas graças à aliança estratégica com o falecido presidente venezuelano, Hugo Chávez, que comandava o quinto maior exportador mundial de petróleo.

Tendo visto a morte de perto após uma séria doença intestinal, Castro se viu forçado a deixar o comando de Cuba em 2006 e formalmente entregou o poder ao irmão mais novo, Raúl Castro, em 2008.

“Cometi erros, mas nenhum estratégico, simplesmente tático... Não tenho nenhum átomo de arrependimento do que fizemos em nosso país”, afirmou Fidel depois da doença.

Em seus últimos anos, Castro escreveu colunas de opinião para a imprensa estatal cubana, mas raramente era visto em público. Seus famosos discursos deram lugar ao silêncio, ao menos em público, e confortáveis roupas de corrida substituíram o traje militar de outrora. 

Em 17 de dezembro de 2014, Raúl Castro fez acordo para restaurar laços diplomáticos com os EUA. Seis semanas depois, Fidel Castro acenou apenas com um apoio morno ao acordo, levantando dúvidas sobre quando as hostilidades com o antigo inimigo terão fim.

POLÊMICO LEGADO    O legado político de Fidel, aclamado por seus simpatizantes como herói e tachado de tirano por seus críticos, será objeto de debates durante anos.    Mas poucos duvidam da astúcia que lhe permitiu manter-se no poder por mais de 49 anos, mais de quatro décadas de embargo econômico e inúmeros planos de assassinato.    Os “fidelistas” afirmam que a Revolução Cubana, iniciada por um punhado de rebeldes precariamente armados, resgatou a ilha do domínio dos EUA e a transformou em um local com os melhores serviços de educação e saúde pública do Terceiro Mundo.    Já os detratores, sobretudo na comunidade de exilados cubano-americanos na Flórida, dizem que desde o início ele se comportou como um ditador egocêntrico e intolerante.    Como seu camarada argentino Ernesto Che Guevara (1928-67), Fidel se tornou um mito inspirador para a esquerda das décadas de 1960 e 1970.    Poucos dias depois de derrotar Batista, Fidel declarou ao canal CBS, dos EUA, que não pensava em se barbear, já que a barba que deixou crescer na Sierra Maestra significava muito para os cubanos.    “Quando tivermos cumprido nossa promessa de um bom governo, cortarei a barba”, disse ele ao jornalista Edward R. Murrow.

REVOLUCIONÁRIO DE FAMÍLIA RICA    Fidel nasceu em 13 de agosto de 1926 em Birán, povoado no leste de Cuba, filho de um fazendeiro espanhol da região da Galícia que se tornou um próspero proprietário de terras. Suas propriedades foram as primeiras a serem expropriadas pelo governo de Fidel, pouco depois do triunfo da revolução.    Embora poucas vezes falasse da sua infância, Fidel dizia ter adquirido desde cedo o sentido de justiça social, ao ver a pobreza dos seus vizinhos e a influência das grandes empresas norte-americanas.    Fidel estudou em escolas jesuítas e depois, na Faculdade de Direito da Universidade de Havana, se envolveu na política estudantil, às vezes violenta. Sua memória fotográfica lhe ajudava a ser aprovado nos exames.    Em 26 de julho de 1953, liderou um ataque quase suicida ao quartel Moncada, em Santiago de Cuba, que terminou com a morte ou prisão da maioria dos participantes. Foi detido com seu irmão Raúl e advogou em causa própria, apresentando um memorável discurso intitulado “A história me absolverá.”    Libertado em 1955 graças a uma anistia política concedida por Batista, Fidel viajou para o México, onde conheceu Che e organizou um grupo de exilados cubanos para invadir a ilha.    Isso aconteceu em 1956, quando os rebeldes desembarcaram em um manguezal do oeste de Cuba, onde soldados de Batista os receberam a bala. Os sobreviventes, entre os quais Fidel, Raúl e Che, conseguiram se refugiar na Sierra Maestra.    Em 1958, os rebeldes se espalharam por toda a ilha, obrigando à fuga de Batista de Havana em 1o de janeiro de 1959. Formou-se então um governo provisório, no qual Fidel se tornou chefe das Forças Armadas e depois primeiro-ministro.    Os anos seguintes foram muito agitados na ilha, com a frustrada invasão de exilados cubanos na baía dos Porcos, em 1961, e a crise dos mísseis, em 1962, quando Fidel permitiu a instalação de ogivas nucleares soviéticas na ilha, finalmente retiradas graças a um acordo entre Washington e Moscou.    Após o colapso do bloco socialista, no começo da década de 1990, e a conversão da “madrinha” Rússia ao capitalismo, Fidel reafirmou sua rejeição a abandonar o sistema socialista introduzido em Cuba.    Quando os cubanos começaram a sentir a crise e o embargo norte-americano, Fidel viu-se obrigado a abrir a economia ao turismo e a investimentos estrangeiros.    Sua legitimidade internacional se viu reforçada com a visita do papa João Paulo 2o a Cuba, em janeiro de 1998. Fidel foi o governante mais longevo da história moderna.

GUERREIRO INDESTRUTÍVEL    Apesar da aura de guerreiro indestrutível, os anos foram pesando sobre Fidel Castro e Raúl, eterno número dois, emergiu como sucessor.    Quando a tevê estatal anunciou dia 31 de julho de 2006 que Fidel deixava o poder por questões de saúde, um sentimento de desamparo invadiu muitos na ilha. Sete de cada dez cubanos nasceram depois de 1959 e não conheciam outro governante.

Fidel sempre manteve sua vida privada praticamente secreta. Sabe-se que casou em 1948 com Mirtha Díaz Balart, irmã de um funcionário de Batista, com quem teve seu filho Fidelito.    O casamento acabou em 1955, e desde então Fidel, com fama de sedutor, teve outros casos, como com Naty Revuelta, uma dama da alta sociedade pré-revolucionária.    A filha de ambos, Alina Fernández, partiu de Cuba na década de 1990 e se tornou uma conhecida crítica do seu pai.    Fidel depois passou a viver com uma ex-professora, Dalia Soto del Valle, com quem teve cinco filhos homens, todos com nomes começados pela letra A.    Viveu para ver o aniversário de 50 anos de sua revolução e três semanas depois, a posse de Barack Obama, o primeiro presidente dos Estados Unidos disposto a conversar com Cuba.

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