11 de Janeiro de 2017 / às 22:22 / 7 meses atrás

BC reduz além do esperado a Selic e vê inflação abaixo da meta em 2017 em meio à recessão

Logo do Banco Central na sede da instituição, em Brasília. 15/01/2014Ueslei Marcelino

BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central surpreendeu ao reduzir nesta quarta-feira a taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual, a 13,00 por cento ao ano, intensificando o ritmo de afrouxamento monetário para além do esperado pelo mercado diante de sinais de retomada econômica mais demorada após dois anos de profunda recessão.

Também passou a ver a inflação abaixo do centro da meta neste ano, em 4,0 por cento no cenário de referência, contra 4,4 por cento antes, sugerindo espaço suficiente para mais cortes robustos na Selic. Para 2018, a estimativa também caiu a 3,4 por cento, contra 3,6 por cento anteriormente. A meta para esses dois anos é de 4,5 por cento pelo IPCA, com margem de 1,5 ponto percentual.

"Diante do ambiente com expectativas de inflação ancoradas, o Comitê entende que o atual cenário, com um processo de desinflação mais disseminado e atividade econômica aquém do esperado, já torna apropriada a antecipação do ciclo de distensão da política monetária, permitindo o estabelecimento do novo ritmo de flexibilização", afirmou o BC em comunicado, após reconhecer que chegou a avaliar a alternativa de reduzir a Selic em 0,5 ponto e sinalizar um corte maior para a próxima reunião.

"A extensão do ciclo e possíveis revisões no ritmo de flexibilização continuarão dependendo das projeções e expectativas de inflação e da evolução dos fatores de risco mencionados", acrescentou.

Em pesquisa Reuters, a grande maioria dos analistas consultados previu redução de 0,50 ponto percentual na Selic. Poucos, incluindo o maior banco privado do Brasil, Itaú Unibanco, estimaram corte mais agressivo, de 0,75 ponto.

"A inflação corrente caiu, e a esperada também. Lá fora o juro subiu e o mundo não acabou, a economia está em recessão e as reformas estão andando. Esse corte de 0,75 veio tarde", avaliou o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Gonçalves, que segue vendo a Selic em 9,75 por cento ao ano já em outubro.

Em nota, o economista-chefe da Haitong, Jankiel Santos, afirmou que com a decisão desta quarta fica estabelecido um novo ritmo de corte de juros no curto prazo, com o BC repetindo a tesourada de 0,75 ponto percentual pelo menos nos próximos dois encontros do Copom.

"A continuidade deste ritmo ou a redução para um passo mais lento dependerá da evolução do cenário prospectivo, mas as chances de a taxa Selic atingir novamente o nível de um dígito ainda este ano aumentaram bastante", escreveu ele, acrescentando que deverá revisar em breve seu cenário atual, de Selic em 10,50 por cento ao fim de 2017.

O presidente Michel Temer, que vinha dizendo que a queda da inflação permitia o corte dos juros, comemorou a decisão do Copom.

"A decisão do Banco Central, que delibera de forma independente e com base em elementos exclusivamente técnicos, respalda a convicção do presidente Michel Temer no sentido de que estão dados os elementos para uma retomada do crescimento econômico e da criação de novos empregos ao longo do ano", afirma nota do Palácio do Planalto.

JUROS MAIS BAIXOS

O ciclo de distensão monetária foi iniciado em outubro, com dois cortes de 0,25 ponto percentual cada na Selic, e com o BC apontando que flexibilização gradual nos juros era compatível com a convergência da inflação para o centro da meta em 2017 e 2018.

Em suas últimas comunicações, o BC ressaltou estar sensível ao nível da atividade econômica, reconhecendo recuperação mais lenta que o inicialmente estimado e já abrindo a porta para redução maior nos juros básicos. Agora, o BC assinalou que "a evidência disponível sinaliza que a retomada da atividade econômica deve ser ainda mais demorada e gradual que a antecipada previamente".

Após martelar em diversas ocasiões que a recente ancoragem das expectativas era o que dava amparo a cortes na Selic e que havia visto surpresas positivas no processo de desinflação, o BC afirmou no comunicado que há evidências favoráveis inclusive sobre a inflação de serviços, em relação à qual vinha demonstrando preocupação.

A inflação medida pelo IPCA fechou 2016 em 6,29 por cento, abaixo do esperado pelo mercado e dentro da meta do governo, o que não ocorreu em 2015.

Na pesquisa Focus mais recente, feita pelo BC com mais de uma centena de analistas todas as semanas, a expectativa era de alta do IPCA a 4,81 por cento em 2017 e de 4,5 por cento em 2018.

Para a economia, por outro lado, a projeção do mercado é de uma expansão de apenas 0,5 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, após um tombo de 3,49 por cento estimado para 2016. Em 2015, a atividade caiu 3,8 por cento.

Em relação ao ajuste fiscal, a autoridade monetária voltou a afirmar que os passos no processo de encaminhamento e aprovação "têm sido positivos até o momento", após o governo conseguir implementar um teto constitucional para o crescimento de gastos públicos e a reforma da previdência ter recebido o sinal verde na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

Sobre o cenário externo, o BC afirmou que, apesar de ainda ver incertezas, os efeitos do fim do interregno benigno têm sido limitados. O BC utiliza a expressão para designar o provável término do financiamento abundante para economias emergentes diante da elevação nos juros em países desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos.

Analistas temem que Donald Trump, que assume o comando da maior economia do mundo no próximo dia 20, adote uma política econômica inflacionária e obrigue o Federal Reserve, banco central norte-americano, a elevar ainda mais os juros no país.

Reportagem adicional de Luiz Guilherme Gerbelli

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