30 de Janeiro de 2017 / às 18:31 / em 10 meses

Companhias dos EUA usam ferramenta orçamentária dos anos de 1970 para reduzir custos

BOSTON, Estados Unidos (Reuters) - Um número crescente de companhias dos Estados Unidos está usando uma ferramenta de orçamento que ficou famosa nos anos de 1970 pelo ex-presidente Jimmy Carter, enquanto alteram suas estruturas de custos para impulsionar o crescimento e reinvestir em seus negócios.

O crescente uso do orçamento base zero (ZBB, na sigla em inglês) sinaliza que uma ampla parcela de empresas dos EUA antecipa turbulências no crescimento de receita. As empresas estão enfrentando também mais pressão em relação à lucratividade, com aumento da renda e taxas de juros, além de um fortalecimento do dólar que torna seus produtos mais caros fora do país.

Na área de consumo, onde o crescimento de vendas é normalmente limitado a um dígito baixo a médio, Campbell Soup, Kellogg e Mondelez International, produtora das bolachas Oreo, já lançaram programas ZBB que prometem bilhões de dólares em economias de custos.

O ressurgimento do ZBB deve-se em parte à empresa de investimentos 3G Capital, fundada pelos brasileiros Alex Behring, Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira, Marcel Telles e Roberto Thompson Motta. A empresa usou o ZBB na fusão das gigantes norte-americanas H.J Heinz e Kraft Foods, em 2015.

Outras indústrias, incluindo dos setores financeiro, energético e manufatureiro, estão seguindo o exemplo. O uso do ZBB em 2017 deve crescer dramaticamente nos EUA e ao redor do mundo, segundo especialistas de empresas de consultoria. A Bain & Company publicou no ano passado uma pesquisa que mostra que 38 por cento de 406 companhias norte-americanas usarão o ZBB, uma alta ante índice de apenas 10 por cento em 2014.

“O ZBB assumiu vida própria”, disse Greg Portell, sócio da empresa de consultoria AT Kearney.

O método ZBB exige que gestores de empresas justifiquem cada linha de gasto de seus orçamentos ou mesmo que refaçam os orçamentos do zero. Isso é uma diferença marcante em relação ao processo típico de usar o orçamento do ano anterior como ponto de partida e ajustá-lo com base em indicadores como projeções de inflação e receita, por exemplo.

Frenquentemente, o ZBB restringe o tamanho dos ativos imobiliários de uma empresa, as viagens corporativas, os termos das transferências internacionais, as tecnologias redundantes e as consultorias externas, além de número de funcionários.

Mas há riscos. Um deles é que companhias se concentram muito em contenção de despesas e não em reinvestir em áreas que promovam desenvolvimento de novos produtos e crescimento de receita.

“Você tem que ficar continuamente se perguntando quais são os custos estratégicos e como podemos investir nas coisas que geram o maior volume”, disse Jason Heinrichm sócio na Bain & Company, em Chicago.

A empresa combinada Kraft Heinz atualmente tem as melhores margens de lucro entre seus pares, com uma expansão anual de margem bruta estimada EM 258 pontos básicos, duas vezes melhor que a média dos rivais, segundo o Morgan Stanley. O sucesso da 3G Capital é um dos motivos da crescente adoção do ZBB no setor de consumo.

Mas agora o método está se espalhando por setores de energia, finanças, saúde e manufatura. Cheniere Energy, Huntington Bancshares, Baxter International e Ford são algumas das empresas que aderiram ao ZBB mais recentemente.

Mas nem todo mundo está convencido sobre a eficácia do sistema.

“Não é tão simples como alguns de nossos competidores fazem você acreditar. Isso se traduz em ‘vamos cortar todos os custos para mostrar melhores margens por um curto período de tempo, mas não posso prometer qualquer crescimento ao longo do caminho’”, disse o presidente-executivo da Unilever, Paul Polman, a investidores em novembro.

Mesmo a Kraft Heinz teve problemas em gerar crescimento consistente. As vendas líquidas orgânicas, que excluem o impacto de variações cambiais e outros itens, recuaram 1 por cento no trimestre encerrado em 2 de outubro.

Por Tim McLaughlin

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