6 de Março de 2017 / às 14:03 / 8 meses atrás

Retração nas vendas reduz escala de navios para exportação de soja do Brasil

SÃO PAULO (Reuters) - A escala de navios previstos para embarcar soja nos portos brasileiros em março e no início de abril está 41 por cento abaixo do registrado um ano atrás, apesar de uma safra recorde sendo colhida no país, em decorrência da retração dos produtores em venderem suas colheitas.

Vista geral do complexo de Carajás 07/02/2013 REUTERS/Paulo Whitaker

Levantamento da Reuters com dados da agência marítima Williams mostra que há no momento navios escalados para embarques de 6,26 milhões de toneladas de soja, ante 10,64 milhões de toneladas da escala de 12 meses atrás.

O ritmo de embarques do Brasil é fator considerado no mercado internacional, uma vez que o país é o maior exportador global de soja.

Analistas disseram que um dos principais motivos para o atual “line-up” de navios é a baixa comercialização por parte dos agricultores, que têm reclamado dos baixos preços do grão em meio a uma valorização do real ante o dólar e a valores pouco atrativos no mercado internacional, o que afeta a formação das cotações na moeda brasileira --no porto de Paranaguá (PR), estão em níveis registrados em 2015, em termos reais.

As vendas de produtores da safra 2016/17 atingem 45 por cento do total, ante 54 por cento neste mesmo estágio da safra 2015/16 e 50 por cento da média histórica, segundo levantamento mais recente da consultoria França Júnior.

“As tradings não estão conseguindo originar direito e, com isso, estão evitando fazer novas nomeações (de navios) no escuro”, disse o analista Flávio França Júnior.

Além disso, o Brasil realizou fortes embarques nos dois primeiros meses do ano, com a ajuda de uma largada rápida da colheita da oleaginosa.

“Isso (retração das vendas de produtores) pesa bastante... mas olhe janeiro e fevereiro, adiantamos já uma parte (dos embarques”, disse o analista de inteligência de mercado de uma trading estrangeira, que pediu anonimato.

As exportações de soja do Brasil atingiram um volume recorde para o mês de fevereiro de 3,51 milhões de toneladas, alta de 72 por cento ante o mesmo mês de 2016 e quase quatro vezes superior aos embarques de janeiro, informou na última quinta-feira a Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Com exportações acumuladas nos dois primeiros meses do ano de 4,4 milhões de toneladas, o Brasil registra o início de temporada de embarques de soja mais acelerado desde que os registros da Secex começaram, em 2006.

FRUSTRAÇÃO

Operadores ouvidos pela Reuters no fim de fevereiro disseram que muitas empresas estão com dificuldade de obter todos os volumes necessários para completar os navios com os quais já se comprometeram. Nesse casos, oferecem valores mais elevados para adquirir as cargas, algumas vezes com prejuízos.

“Pedidos adicionais você acaba não atendendo ou deslocando para outras origens (outros países)”, disse, na ocasião, um executivo de uma outra trading.

Todos esses percalços ocorrem em meio a uma colheita recorde no Brasil.

Segundo a Abiove, associação que reúne as grandes empresas processadoras e exportadoras de soja no país, a safra 2016/17 deverá atingir um recorde de 104,6 milhões de toneladas, com exportações recordes de 58,7 milhões de toneladas de soja em 2017, ante 51,58 milhões em 2016.

Os trabalhos de colheita no país já alcançam 45 por cento da área total, ante 38 por cento da média histórica. Contudo, o calendário de plantio permitiria que 60 por cento da safra já estivesse disponível no mercado, caso não fossem registrados atrasos pelas chuvas. Essa espécie de frustração do ritmo de oferta, segundo França Junior, também seria um fator a pressionar os compromissos firmados pelas tradings, que se traduzem na escala de navios nomeados nos portos.

Os dados da Williams mostram também que a escala total de embarques de grãos, incluindo soja em grão, farelo de soja e milho, apresenta agora 13,4 milhões de toneladas, metade do volume previsto 12 meses atrás.

Além da soja, a queda é influenciada pelos embarques de milho, que ainda eram fortes neste estágio do ano passado (previsão de 1,3 milhão de toneladas) e que agora são nulos, em meio a um aperto da oferta no mercado brasileiro.

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