27 de Junho de 2017 / às 19:55 / 2 meses atrás

ENTREVISTA-Setor externo sinaliza confiança no Brasil, diz José Roberto Mendonça de Barros

SÃO PAULO (Reuters) - A robustez do setor externo do Brasil, com elevados superávit comercial e investimento estrangeiro produtivo, é um termômetro da crença dos investidores na retomada mais consistente da economia brasileira mais à frente, apesar da instabilidade política que alimenta as incertezas e afeta o curto prazo.

A avaliação é do economista José Roberto Mendonça de Barros que, em entrevista à Reuters, também destacou que a queda da inflação, a redução da taxa básica de juros e o elevado grau de confiança na equipe econômica ajudam nesse cenário.

"Ao contrário de muitas crises do passado, não temos falta de dólares. Com tudo o que aconteceu, ainda temos chances de voltar a crescer", afirmou Mendonça de Barros, que foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 1995 e 1998, durante o governo do ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso.

O país vive novamente intensa crise política, apenas um ano depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, com o presidente Michel Temer denunciado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por crime de corrupção passiva, quadro que coloca o futuro do governo em xeque.

Mas, apesar da cautela no curto prazo, os agentes econômicos têm mostrado alguma confiança no país, avalia o economista. E uma indicação disso são os números do balanço de pagamentos.

Segundo dados do Banco Central, entre janeiro e maio passados, os Investimentos Diretos no País (IDP) --sem contar reinvestimentos de lucros-- somaram 30,4 bilhões de dólares, quase 20 por cento a mais do que em igual período de 2016. Para o ano, a projeção do BC é de que esses investimentos produtivos somem 75 bilhões de dólares

Os resultados da balança comercial também são positivos. Neste ano, até a quarta semana de junho, o superávit estava em 34,4 bilhões de dólares, segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, que prevê superávit de 55 bilhões de dólares em 2017.

CURTO PRAZO NEBULOSO

Apesar de se mostrar mais otimista à frente, no curto prazo Mendonça de Barros sabe que as dificuldades são bem complexas e espera menor crescimento da economia neste ano, de cerca de 0,5 por cento, sobre 1 por cento estimado até então.

O economista, que é fundador da consultoria MB Associados e colaborou com o plano econômico do então candidato Aécio Neves (PSDB-MG) na eleição presidencial de 2014, acredita que a cena política sensível deve afetar o andamento da reforma da Previdência no Congresso Nacional, o que atinge a economia de imediato.

Para minimizar as perdas, no entanto, Mendonça de Barros não descarta a possibilidade de o governo até tirar do papel parte da reforma da Previdência por meio de Medida Provisória e deixar apenas a idade mínima para definição no Congresso.

O economista acredita ainda que em poucos meses a situação de Temer deve estar mais definida, seja para continuar no cargo ou não, mas aposta que a atual equipe econômica permanece neste dois cenários, fundamental para segurar a confiança dos agentes econômicos.

"Sou pessimista no curto prazo, mas a sensação que eu tenho é que estamos no fim de uma era, de um jeito de fazer política", afirmou ele.

"Desde que não apareça um Collor (na eleição presidencial de 2018), um sujeito que se diga salvador da pátria", acrescentou, referindo-se ao ex-presidente Fernando Collor de Mello, que ficou no comando do país entre 1990 e 1992 e confiscou a poupança da população para segurar a inflação.

Neste momento, afirmou Mendonça de Barros, a inflação baixa e a taxa de juros básicos em queda também ajudam a pavimentar um caminho mais promissor para o Brasil. "Vejo uma base na economia mais firme do que em outros momentos (de crise). O governo (do ex-presidente José) Sarney, por exemplo, terminou com 80 por cento de inflação".

Edição de Patrícia Duarte

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